Mistério nas Estrelas

Além da Escuridão, novo filme de J.J. Abrams no universo Star Trek, tem mais segredos do que respostas

Paulo Terron Publicado em 11/04/2013, às 16h45 - Atualizado em 09/05/2013, às 12h02

DÚVIDAS Spock (Zachary Quinto) e Kirk (Chris Pine) encaram o enigmático “John Harrison” (Benedict Cumberbatch)

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"Não tenha medo de ter medo: A qualquer momento um de vocês pode perder a vida”, gritava o diretor J.J. Abrams aos atores de Além da Escuridão – Star Trek (que estreia em junho no Brasil) durante as filmagens. O lembrete deixa clara a regra do segundo filme pós-reboot: tudo pode acontecer. E, dentro desse grande universo de possibilidades para a nova história, todos os envolvidos preferem optar, por enquanto, por um perturbador silêncio. “Quando você compra o ingresso para ver este filme, não deveria saber nada sobre ele – assim como os personagens também não sabem, você não deveria estar à frente deles”, justifica o produtor e roteirista Damon Lindelof. “Como existem 40 anos de Star Trek, obviamente você sabe muitas coisas que eles não sabem! Nossa missão é tentar contornar isso para fazer com que a plateia seja surpreendida ao mesmo tempo em que a equipe da Enterprise.”

E o maior desses segredos é em relação ao vilão do filme, interpretado pelo ator britânico Benedict Cumberbatch (da elogiada série de TV britânica Sherlock), e por enquanto chamado de “John Harrison” (uma das teses é a de que ele seja o vilão clássico Khan). “Se Kirk e Spock não sabem quem o John Harrison é, o público tem de estar na mesma posição”, continua Lindelof. “Estamos tentando preservar a informação por esse motivo: para manter essa experiência. Não é porque gostamos de segredos. Não há nada pior do que isso, cria uma ansiedade maluca. Especialmente se em todos os lugares a que você vai tem alguém gritando ‘Me conta! Me conta!’. Você começa a se sentir um cuzão. Um verdadeiro cuzão profissional!”

Os atores também foram bem treinados para não revelar detalhes da produção – e a calma e a educação britânica ajudaram Cumberbatch a não ter problemas para lidar com a situação. O vilão dele tem alguma relação com Khan? “Interpreto um personagem chamado John Harrison. Me diverti muito, muito mesmo”, ele responde em um tom constante e direto, seguido de um breve silêncio. “Próxima pergunta.” Pressionado por detalhes, ele parte para a abstração. “Existe um motivo por trás das ações dele que me intrigaram. Há um propósito nele, não é apenas o antagonista.” Abrams reforça o conceito, também sem falar muito: “Um grande vilão se acha o herói. O Benedict trouxe profundidade a ele, não é só mais um vilão britânico torcendo a ponta do bigode. Ele deu humanidade àquilo”.

Mais humana foi a preocupação da atriz Zoe Saldana ao vestir novamente o uniforme da tenente Nyota Uhura. “Falei para o designer de figurino: ‘Cara, diz a verdade, você encolheu essa roupa’”, ela conta. “Sou muito meticulosa e ficava pensando: ‘O que vou fazer se tiver uma cena de ação?’. Aí me disseram que nesse caso me dariam umas calças para usar, e relaxei”, explica, emendando uma longa risada. “Com aquela roupa é difícil até espirrar! Ainda mais cercada por homens.” Por outro lado, um detalhe da preparação de Zoe para voltar a viver a especialista em idiomas entrega ao menos um detalhe: aparentemente a raça Klingon, ausente em Star Trek (2009), fará pelo menos uma aparição no novo longa. “Trouxemos linguistas para me ajudar”, ela diz. “Se isso vai ser usado no filme? Veremos...”

Lindelof aproveita a deixa para elaborar a respeito de como um elemento tão icônico – os Klingons e a linguagem deles, criada especialmente para a série e filmes originais – pode gerar tanto problemas quanto expectativas: “Depois de mais ou menos umas 100 páginas de trocas de e-mails, descobrimos que não há uma forma básica e aceita desse idioma no cânon de Star Trek. É como o inglês, que tem sotaques – tem a versão da rainha da Inglaterra e o modo como é falado no Texas. Perguntaram de onde exatamente esses Klingons eram, respondemos que não importava, eram uns tipos comuns, do planeta Qo’noS!”. A falta de especificidade gerou um pequeno conflito entre a equipe do filme, o que já é uma antecipação do que pode vir a ocorrer entre os fãs mais dedicados. “Os especialistas ficaram meio ofendidos, nos disseram que isso é a mesma coisa que dizer ‘a língua humana’, algo que simplesmente não existe. Então, sabemos que só o fato de alguém falar Klingon no filme já vai irritar muita gente. Não há como vencer.”

"Este é um filme dos nossos tempos”, resume Damon Lindelof, para depois invocar a cinessérie que ajudou a aproximar mundos fantásticos da realidade. “O Cavaleiro das Trevas não é apenas um longa-metragem do Batman. Ele reflete temas do nosso dia a dia. Ele transforma o Coringa em uma consequência do Batman. É um vilão que não existiria sem o super-herói lutando feito um doido contra o crime. Só queríamos que o nosso Star Trek fosse assim.”

O roteirista não esconde a ligação com outra aventura estelar – agora ainda mais direta, depois que J.J. Abrams foi anunciado como diretor de Star Wars – Episódio VII, programado para 2015. “Bryan [Burk, produtor] disse: ‘E se fizéssemos Star Trek como se fôssemos fazer Star Wars?’ Não copiar, mas no sentido da grandiosidade, abrangência e aventura.” Reproduzir nesse caso, Lindelof reforça, não seria algo condenável. “Todo mundo pega emprestado, rouba e se inspira. Somos a geração remix. Crescemos influenciados por essas coisas, é possível que consigamos recombiná-las, fazendo com que se pareça mais uma homenagem do que uma cópia.”

John Cho, que interpreta o piloto Hikaru Sulu, acredita em uma explicação notadamente mais político-filosófica sobre o tema central de Além da Escuridão. “Sempre pensei em Star Trek como uma expressão das melhores aspirações norte-americanas”, explica. “É algo específico do sonho americano – o que queremos ser como país. Ser norte-americano neste século... Está ficando complicado. Sinto que esse filme também é sobre isso.” Ele se abaixa como se estivesse se escondendo e sussurra: “E é só isso que vou dizer!”