Passando Para a Terceira Marcha

Apesar da crise no mercado, festival engrena e acerta na curadoria, mas infraestrutura ainda deixa a desejar

Pedro Antunes Publicado em 11/04/2013, às 11h53 - Atualizado em 14/04/2013, às 17h46

O Pearl Jam tocou para 60 mil pessoas...

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Em meio às incertezas e inseguranças em relação ao futuro do mercado de shows no Brasil, o Lollapalooza chegou à segunda edição maior e mais forte. Foram três dias, com 78 atrações musicais espalhadas pelos cinco palcos montados no Jockey Club, em São Paulo. O público também cresceu: de 135 mil presentes em duas noites capitaneadas por Foo Fighters e Arctic Monkeys, em 2012, para 167 mil frequentadores ente os dias 29, 30 e 31 de março. Com isso, o Lollapalooza Brasil começa a se consolidar como o maior festival paulista de música. E, no país, em quantidade de público, está atrás apenas do Rock in Rio.

Não foi só em números que o festival cresceu. A qualidade das atrações também subiu e não se apoiou apenas nas principais. The Killers, Black Keys e Pearl Jam, claro, fizeram a parte deles liderando cada dia, mas houve muita coisa interessante no miolo: a festa do Cake, a psicodelia soturna do Flaming Lips (estreando músicas e loucuras inéditas); a apoteose eletro-indie do Crystal Castles; os momentos dançantes ao som de Two Door Cinema Club e Franz Ferdinand; o vozeirão do Brittany Howard, do Alabama Shakes; a estreia da turnê mundial do Queens of the Stone Age e a euforia ensandecida do The Hives.

As atrações nacionais não ficaram escondidas entre os primeiros horários, como em outros festivais: Criolo e Planet Hemp se apresentaram já no fim do sábado e domingo, respectivamente, e arrastaram um grande público – Marcelo D2, BNegão e companhia também foram escalados para participar do Lollapalooza original, em Chicago, em agosto.

Se na música os acertos vieram com mais frequência, a infraestrutura ainda tem problemas. Pessoas ficaram entre duas e três horas na fila para retirar o ingresso já pago. “Isso se deveu à abertura do terceiro dia de shows”, diz Leo Ganem, presidente da GEO Eventos, responsável pelo festival aqui. Segundo ele, na edição do ano passado, como a sexta-feira pré-Páscoa era livre, o público retirou os ingressos com antecedência. “Tivemos um pico inesperado.”

Os lamaçais que tomaram conta de alguns pontos da área do festival, especialmente em frente ao palco Alternativo, foram vistos por Ganem como um efeito-colateral. “Drenamos 500 mil litros d’água durante todo o mês de março”, ele explica. “Você vai para Glastonbury [festival inglês famoso pelos temporais] e não reclama da chuva.” A chuva, mesmo, só apareceu no primeiro dia de evento. Já para o cheiro de estrume de cavalo, não é possível encontrar solução, ele diz. “Bosta é bosta, né? Estamos em um Jockey Club. Incrivelmente, é o melhor lugar para se fazer um evento em São Paulo.”

E, diante da palavra “crise”, que encalhou ingressos de shows de grandes artistas como Madonna e Lady Gaga, e fez a apresentação do The Cure mudar para um local menor, Ganem ri. “Crise é boa para vender jornal”, diz. Já Perry Farrell, fundador do Lollapalooza e voz do Jane’s Addiction, também não leva a sério. “É um mundo fodido, meu filho! É assim que é. Sempre vai ser assim”, argumenta. “É preciso encontrar um modo para que as pessoas consigam comprar as entradas e possamos pagar esses cachês monstruosos [das atrações].” Enquanto festivais como Planeta Terra e SWU seguem com um futuro incerto, o Lollapalooza já tem uma terceira edição garantida para 2014, nos dias 18, 19 e 20 de abril. “A crise existe para aqueles que construíram festivais de merda”, conclui Ganem.