Brechó Musical

Como o Mumford & Sons transformou a música ao estilo antigo no futuro do rock

Brian Hiatt | Tradução: J.M. Trevisan Publicado em 14/05/2013, às 17h03 - Atualizado em 11/06/2013, às 13h36

Desplugados (A partir da esq.) Ben Lovett, Winston Marshall, Ted Dwane e Marcus Mumford
Sam Jones

Dentro da concha de vidro e aço da O2 Arena (Londres), Marcus Mumford está ateando fogo em um pedaço de madeira. “Palo santo”, ele diz com uma reverência meio de brincadeira, respirando fundo enquanto o camarim estéril da banda é preenchido por vapores cítricos, uma intrusão de antiguidade neste espaço moderno. “A madeira sagrada, parceiro!” Quando pontua a frase com “parceiro” (“mate”), ele às vezes dá um tapinha nas costas da pessoa; e, mesmo quando não dá, o tapa é implícito. Mumford é um cara grande, meio espalhafatoso. Mas há algo de vulnerável nos olhos dele, que parecem variar entre o castanho e o azul.

Marcus Mumford, 26 anos, tem sofrido de dores de cabeça terríveis por causa da tensão, e garante que o palo santo, uma madeira de incenso da América do Sul, é a única coisa que ajuda. “Tentei de tudo, remédios, até escanearam meu cérebro”, ele conta. O produtor T Bone Burnett foi quem indicou o incenso, o que não deixa de ser apropriado: Burnett foi o responsável por organizar a trilha sonora do filme E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), uma verdadeira cartilha da música de raiz, que serviu de principal influência para a estética retrô do Mumford & Sons, a banda que Marcus lidera.

“Fico envergonhado de dizer o quanto E Aí, Meu Irmão... me influenciou”, diz Mumford, que tinha cerca de 13 anos quando o filme foi lançado. “Porque parece tão recente.” A trilha ganhou o Grammy na categoria Álbum do Ano em 2002, e o segundo álbum do Mumford & Sons, Babel, ganhou a mesma categoria em 2013. Burnett, por sua vez, recrutou Mumford para trabalhar na trilha de um novo filme dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis, ambientado na cena folk da Greenwich Village dos anos 60, e que por acaso conta com Carey Mulligan, esposa de Mumford há 11 meses, no elenco.

Na segunda década do século 21, o Mumford & Sons conseguiu colocar instrumentos acústicos e a harmonia de quatro vozes em volta de um mesmo microfone no centro da cultura pop. Nesta noite será realizado o Brit Awards – o Grammy do Reino Unido – e em poucas horas o Mumford derrotará o One Direction na disputa pelo posto de Grupo do Ano. Os integrantes têm consciência o suficiente para rejeitar a ideia de que a música deles é de certa forma mais “real” do que, digamos, a música eletrônica. Mas eles creem estar matando uma certa fome do público.

A ideia de quatro jovens britânicos tirando inspiração de estilos musicais antigos norte-americanos levantou algumas questões sobre autenticidade. As roupas usadas por eles, que remetem a um estilo interiorano e ianque dos anos 30, causaram mais polêmica do que eles imaginavam. “Comecei a usar colete porque me sentia inseguro quanto ao meu peso”, diz Mumford. “Assim eu conseguia meio que esconder um pouco.” Atualmente ele não tem usado coletes – e anda fazendo uma dieta de baixo consumo de carboidratos, embora diga que tomou a atitude mais por uma questão de saúde do que estética.

No dia anterior, Mumford e o baixista Ted Dwane estavam em um estúdio com cheiro de bolor, pisos de madeira, teto baixo e clima agradável em Londres, refletindo sobre as gravações do primeiro álbum. “Ficamos em um semicírculo em volta do microfone, bem aqui”, disse Mumford, “e cantamos os versos de ‘Sigh No More’.” A música – que serve de título e abre o álbum – conta com vocais em grupo inspirados pelo Fleet Foxes, com os quatro Mumfords harmonizando na frase “I’m sorry”. É uma das duas desculpas proeminentes no disco de estreia – a mais famosa está em “Little Lion Man”, em que Mumford canta: “It’s not your fault but mine... I really fucked it up this time” (“Não é culpa sua, é minha... eu fodi mesmo tudo dessa vez”). Enquanto Mumford às vezes é vago sobre a inspiração por trás dos versos cantados pela banda (ele compõe a maioria, mas não todos), admite que “Little Lion Man” é exatamente o que parece. “Essa foi bem real”, ele diz. “Suponho que seja confessional. E passados alguns anos percebi que é uma música bem fácil de cantar todas as noite.” Os músicos não têm problema nenhum em se desculpar. “Não somos caras frios e durões”, diz Winston Marshall, que toca banjo na banda. “Somos frouxos emotivos e chorões. Não somos rock and roll. Se um dia o AC/DC se desculpasse por alguma coisa, seria o fim da carreira deles.” A ferocidade instrumental do Mumford (o tecladista Ben Lovett me mostra as unhas quebradas) é o que permite que a música deles brigue de igual para igual contra produções mais densas e eletronicamente refinadas – apesar de eles nem usarem bateria, apenas um bumbo. “Não sou explosivo, mas definitivamente sinto raiva”, diz Mumford.

Mais de três anos se passaram até que eles concluíssem o segundo álbum. Apesar do intervalo entre um e outro, Babel não representa um salto sonoro se comparado ao antecessor, com exceção de “Lover of the Light”, que lembra U2 e conta até com “um pouco de sintetizador”. “Amigos me disseram que as faixas novas não ficaram tão diferentes quanto eles achavam que ficariam”, diz Lovett, que considera os dois álbuns peças de um conjunto, quase um álbum duplo. “É que nós ainda não tínhamos terminado o que havíamos nos proposto a fazer. A meu ver, não é possível se distanciar de um objetivo sem antes alcançá-lo.” A grande questão é o que o Mumford & Sons fará quando chegar a hora do terceiro álbum. Mais guitarra parece uma certeza. Mumford planeja começar a tocar guitarra em casa pela primeira vez. “Nunca senti muita urgência de compor”, diz Marshall. “Seria perigoso fazer outro disco tão parecido com os dois primeiros. Podemos ir para qualquer lado.”

Eu e Mumford saímos para encarar o terrível vento de fevereiro à procura de um maço de cigarros Camel Blues. “Eu ia parar de fumar em janeiro, mas adiei”, conta. “Não quero ser um pai fumante.” Fumar foi um dos primeiros atos de rebelião de Mumford, uma criança de bons modos, embora insolente. Todos os dias ele colocava o uniforme e seguia para a King’s College School, onde aprendeu a ler tanto latim quanto grego. Dos 13 aos 18 anos, ele tocou bateria em uma banda de jazz com o futuro tecladista do Mumford, Lovett – e eles eram bons o suficiente para tocar em casamentos e serem pagos por isso. Mas Mumford não se via como artista e não tinha qualquer intenção de se tornar profissional. Ele achava que se tornaria professor, advogado ou qualquer outra coisa.

Mais ou menos aos 16, parou de frequentar a igreja dos pais. O pai dele o encorajou a ir para uma congregação anglicana, “porque ele sentia que eu estava sendo um pouco reprimido. As pessoas estavam sempre de olho em tudo, então ele disse: ‘Vá e seja você mesmo em algum outro lugar’. O que para mim foi uma atitude muito inteligente da parte dele”. Pouco depois disso, Mumford foi recusado pelas melhores universidades britânicas, Oxford e Cambridge. Mumford ficou tão mal que os pais o mandaram para passar férias na Califórnia, onde ele se animou. “Passei um bom tempo zoando meus amigos porque eu conseguia pegar garotas por causa do sotaque britânico, mesmo sendo gordinho e, tipo, não exatamente cool.”

Mas no primeiro ano de curso na Universidade de Edimburgo ele se viu perdido – e começou a compor a respeito disso. “Acho que experimentei o fracasso do meu jeito discreto e sem dramas”, diz. “Não consegui entrar nas faculdades que queria, e isso acabou com todas as minhas esperanças. Não tinha ideia do que queria fazer. Não era popular. Eu meio que sabia qual era meu objetivo antes, e então não sabia mais.”

Durante aquele ano pesado em Edinburgo, Mumford teve um vislumbre de salvação graças a Winston Marshall, que se apresentou na cidade com a banda Captain Kick and the Cowboy Ramblers. Eles se conheceram alguns anos antes, em uma banda de louvor em um retiro da igreja. Em um momento da apresentação, Marshall chamou Mumford ao palco, fazendo-o parecer cool pela primeira vez em sua carreira universitária. Filho de um investidor rico, Marshall começou a tocar guitarra aos 13 anos, inspirado pelo Blink-182, ZZ Top e Audioslave. Ele também teve uma experiência intensa ao assistir E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? “Aquele filme foi o ponto definitivo para mim. Pensei: ‘É esse o tipo de música que quero fazer’.” E assim, assumiu o banjo.

Mumford, que já não frequentava muito as aulas mesmo, começou a ir para Londres nos fins de semana, envolvendo-se com a próspera cena acústica de West London, que contava com Laura Marling (que namorou brevemente) e com a banda de indie folk Noah and the Whale. Ele se transferiu para uma faculdade na cidade, mas a largou quando começou a tocar com Laura (tecnicamente, a matrícula dele está trancada). Logo começou a compor e a gravar demos com Lovett em um estúdio caseiro.

Hoje, Lovett é o mais ambicioso e motivado membro do Mumford & Sons – é dono de uma gravadora bem-sucedida, a Communion, e fala sobre o desejo de colocar a banda para tocar em estádios. Mas ele era menos focado durante a adolescência, passando os fins de semana em festas e pegando garotas. Ele via Marcus como um cara ainda muito “verde”; os pais de Mumford consideravam Lovett uma má influência. Mas quando Mumford voltou de Edimburgo, Lovett notou uma transformação. “Em pouco tempo, ele tinha passado por um monte de merdas que eu já tinha também – mulheres, bebida e tudo mais. Ele começou a me contar histórias e a tocar músicas e fiquei tipo: ‘Estamos no mesmo patamar, como nunca estivemos antes’. E isso só foi ficando mais intenso.”

De certo modo, a formação do Mumford & Sons estava predestinada: Marcus, dois dos melhores amigos dele, mais Dwane, o único jovem de Londres que tinha um baixo acústico. A paixão que compartilhavam pela cultura norte-americana era como um segredo divertido. Mumford diz: “Lembro-me de estar dirigindo, berrando a trilha de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? pelas ruas de Londres e de notar as pessoas olhando torto e eu adorando. De um modo bem foda-se. Porque não era algo tido como cool e ninguém mais que a gente conhecia estava assimilando isso”.

De volta ao Brit Awards, o camarim está lotado: a namorada de Lovett chegou, junto com a esposa de Mumford. Todos na banda têm um relacionamento, o que é “algo solidificador”, diz Dwane. “A melhor coisa é que as garotas se dão muito bem, então o clima é muito legal.” Carey Mulligan parece cintilante e um tanto frágil em um vestido preto; Mumford não nos apresenta. “Estou no começo de um casamento visado pela imprensa”, ele me disse na noite anterior. “Ainda estamos pensando em como lidar com isso.”

Todos gostam de beber, e quando fizeram a primeira turnê, Mumford e Marshall pegaram pesado. Hoje, o cantor se controla para proteger a voz e a saúde (e não fuma maconha – a erva o faz vomitar), mas bebe uma quantia considerável de álcool nos shows. Lovett não bebe mais na estrada, por causa de várias discussões entre os membros da banda no ano passado. Depois de uma turnê interminável, os quatro andavam se irritando e houve mágoa entre eles. “Somos um bando de sentimentais”, diz Marshall. Dwane é o único membro que não vê a banda como uma democracia. “Marcus é o líder”, ele diz. “Ninguém nega isso.” (Com exceção de todos os outros integrantes.)

Mas todos compõem, algo que Marcus Mumford aprova. “A esta altura”, diz o líder, “eu estou tipo: ‘Tragam as músicas’... Nenhuma música é verdadeiramente do Mumford & Sons sem a participação criativa de todos nós.”