Especial Motos: mitos e verdades sobre os Hells Angels

Os mitos sobre o mais famoso clube de motociclistas se sobrepõem à verdade. Seriam eles monstros sobre rodas ou apenas espíritos livres?

Paulo Cavalcanti Publicado em 14/05/2013, às 16h55 - Atualizado às 16h57

NA PELE A paixão pela filosofia dos Hells Angels é levada às últimas consequências

A grande ironia sobre os Hells Angels é que a organização ganhou o nome indiretamente de um esquadrão que lutou na Segunda Guerra Mundial. Os Flying Tigers, que faziam parte do 303º Grupo de Bombardeio, elegeram como apelido informal Hells Angels, que não era nem um nome muito original. Depois da guerra, novos e mais baratos modelos de motocicletas começaram a ser fabricados nos Estados Unidos. Com a popularização do veículo, clubes de duas rodas viraram mania. Em 1948, Arvid Olson, que tinha servido no 303º, batizou com o nome do esquadrão um grupo que surgia em Fontana, Califórnia. Olson deu nome ao clube, mas ironicamente nunca foi um membro.

Nas décadas seguintes, os Hells Angels solidificaram as raízes californianas e também se espalharam pelo resto do país. Os fatos são bem conhecidos: em 1966, o jornalista Hunter Thompson deu visibilidade à organização com o livro Hell’s Angels: The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle, no qual relata o convívio de um ano que teve com os motoqueiros. No mesmo ano, o grupo foi ficcionalizado no filme Os Anjos Selvagens. Em 1969, porém, ganharam notoriedade negativa após o hoje infame Altamont Free Concert: contratados como seguranças do festival, acabaram se envolvendo em um tumulto que resultou na morte de uma pessoa. Foram os bodes expiatórios de um evento mal executado.

Em 2008, os Hells Angels celebraram 60 anos de existência ainda estigmatizados: o Departamento de Justiça dos Estados Unidos considera o grupo como uma espécie de organização de crime organizado. É verdade que muitos dos membros se envolveram em contravenções ao longo dos anos, das mais leves às mais pesadas. Diversos foram acusados de envolvimento com venda de drogas e porte ilegal de armas. Até por uma questão de sobrevivência, os Hells Angels lutam constantemente contra a imagem negativa. O problema é que desde o início eles nunca fizeram questão de separar fato e ficção. Uma organização que se orgulha de se manter à margem da sociedade sempre será vista com desconfiança, especialmente pelo cada vez mais paranoico governo dos Estados Unidos. O clube cresceu demais e nem sempre é possível manter o olho em todos os integrantes.

Os Hells Angels também atuam de forma discreta em cerca de outros 25 países, incluindo o Brasil. Muitos membros são ativos em causas humanitárias, levantando dinheiro para crianças com câncer e também ajudando em casos de calamidade pública. Não são escoteiros, mas também não são os ogros pintados pela opinião pública. O clube também é endereço óbvio para os amantes da Harley-Davidson, até hoje a marca obrigatória para um Angel. Há quem afirme gostar de circular com eles apenas para respirar a liberdade, cruzar estradas infindáveis ou mesmo sentir um gostinho da vida fora da lei.

Hoje, para se tornar membro é preciso ter licença de motorista, possuir uma máquina que tenha acima de 750 cilindradas e apresentar ficha policial limpa. Mas ser aceito não é algo simples. O membro em potencial precisa passar por uma iniciação: deve ser apresentado por um membro e fica um tempo “circulando”, se familiarizando com os integrantes de várias facções. Enfim, ganha o título de “associado”, situação que dura cerca de dois anos. Após uma longa avaliação, o nome do candidato vai para a votação, e ele só ganha o direito a se tornar membro se for escolhido por unanimidade. Finalmente, o novo Angel ganha o direito de usar na jaqueta a conhecida insígnia vermelha e branca com a indefectível “cabeça da morte”.

Os Hells Angels sempre preferiram o anonimato, mas Ralph “Sonny” Barger, 74 anos, permanece como a face pública dos famosos motociclistas.

Fundador da seção de Oakland dos Hells Angels, Barger se envolveu em inúmeras polêmicas. Diz a lenda que ele teria apontado um revólver para Keith Richards nos bastidores de Altamont. Dono de várias frases de efeito, ele já escreveu diversos livros sobre os Hells Angels (e também um sobre como pilotar motos com segurança) e presta consultoria sobre projetos relativos aos Angels. “Trate-me bem e vou te tratar ainda melhor; me trate mal e vou te tratar pior ainda”, é o lema de Barger. E esse parece ser o mote que até hoje pauta as atividades dos Angels.