As Tristezas de Eric Clapton

Em 1991, o guitarrista remoía a morte precoce do filho Conor e confessava como a vida dele era marcada pelo blues

James Hanke | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 09/05/2013, às 11h26 - Atualizado às 11h38

O ano de 1991 seria uma temporada de férias para Eric Clapton. Depois de passar boa parte dos últimos dois anos na estrada, tocando em todo lugar, da África e da América do Sul aos Estados Unidos e Europa, ele estava pronto para descansar. Mais importante ainda: passaria um bom e necessário tempo se divertindo com o filho Conor. Isso tudo mudou no dia 20 de março, quando o menino, de 4 anos e meio, morreu ao cair do 53º andar de um apartamento em Manhattan, onde morava com a mãe, a atriz italiana Lori Del Santo. Clapton estava em Nova York no dia do acidente, mas não ficou lá: isolou-se na casa em que mora nos arredores de Londres. Aos poucos, começou a aparecer em público novamente. Nesse momento, os tabloides listavam seus supostos romances. “Acho que esses jornalistas provavelmente sentem pena de mim”, comentou. “Estão tentando me arranjar uma esposa. Se me veem com uma garota, pensam: ‘Ah, Eric encontra a felicidade’. Há um lado doce nisso, e meio que me sinto comovido, porque não sei bem se estou procurando consolo ou uma relação estável. Gosto da companhia de mulheres bonitas. Tenho um ponto fraco nesse departamento, e acho que, porque tenho um bom padrão de vida e sou um músico famoso, posso escolher quem eu queira. Isso me torna um solteiro cobiçado.”

Clapton tem um novo álbum nas lojas, chamado 24 Nights. O disco duplo ao vivo é uma compilação de shows feitos em 1990 e 1991 no Royal Albert Hall, em Londres. Sentado no mesmo hotel onde se encontrava quando ouviu a notícia da morte do filho, Clapton fumava sem parar e tomava café enquanto se abria pela primeira vez publicamente sobre a tragédia. Ele parecia saudável e relaxado; respondeu a tudo sem hesitar. A entrevista aconteceu em um momento de retomada de carreira. Dias antes, era anunciado que ele e o amigo George Harrison fariam uma turnê juntos, começando em dezembro, no Japão. Embora Clapton participe dos Alcoólicos Anônimos há quatro anos, admite ter um novo vício: Nintendo. Em uma ponta da mesa em seu quarto de hotel, há dois portáteis Game Boy. “Jogo há uns dois anos”, conta, enquanto se prepara para demonstrar suas habilidades no game Tetris. “É bastante terapêutico.”

Como surgiu a turnê com George Harrison?

George e eu somos amigos há muito, muito tempo e sempre parecemos estar por perto quando um precisa do outro. Quando eu estava em turnê no ano passado, no terceiro mundo, na América do Sul e em lugares assim, as pessoas ficavam me perguntando sobre o George, como ele era e o que estava fazendo. Quando voltei à Inglaterra, contei tudo isso a ele, e começamos a conversar, de um jeito bem leve, sobre sair em turnê. Então, quando olhei para minha agenda do ano, vi que estava deliberadamente não planejando trabalhar muito, mas eu tinha várias coisas à disposição, como luz e som, e a melhor banda do mundo. Daí, pensei: “Bom, por que não?” Falei para o George que ele deveria viajar conosco. Tudo o que ele tem de fazer, essencialmente, é subir ao palco e tocar a guitarra, e faremos todo o resto. Conversamos, ele ficou encantado e apavorado ao mesmo tempo – morto de medo, porque já faz uns 15 anos desde a última turnê norte-americana dele.

Você e George se conhecem há muito tempo. Fale sobre essa relação.

Brincamos muito. É uma relação muito divertida. Ele é um ou dois anos mais velho do que eu e, como ficou famoso primeiro, tem uma certa arrogância que nunca desaparece. Eu o amo muito, e sei que ele me ama, mas é como se um sempre estivesse testando o outro. Ao mesmo tempo, há esse apoio total. Ele é como meu irmão mais velho, de verdade. Quando estou perto dele, sempre sinto que tenho de fazer tudo um pouquinho melhor do que o normal.

E quanto ao período em que se apaixonou pela mulher dele, Pattie Boyd, que acabou o deixando e se casando com você? Isso não causou tensão na relação com George?

Sim. E ainda existe. Tem algo a ver com o jeito como nos falamos. Quer dizer, sempre há algum comentário afiado em algum ponto da conversa. Isso deixou os três arrasados. Mas foi divertido na época. Realmente foi como um daqueles filmes em que você troca de esposa – Bob, Carol, Ted e Alice. E todos diziam: “Ah, não importa. Podemos escrever nossa própria história sobre isso”. Que época foi aquela... Afetou nossa vida e isso nunca vai acabar. Ainda somos praticamente os mesmos quanto ao que pensamos e sentimos um sobre o outro. A Pattie ainda está na vida de todos nós.

Houve um período em que você e George não se falaram?

Não, não mesmo. Sempre nos falamos. Algumas das conversas eram muito esotéricas, meio cósmicas, especialmente vindas de George. Ele aparecia de vez em quando na época em que Pattie e eu moramos juntos. As coisas ficaram hostis algumas vezes, mas sempre gostamos um do outro. Provavelmente vou levar bronca por falar sobre tudo isso. Vou voltar para casa, ver o George e ele vai dizer: “Ah, abriu a matraca novamente”. Mas acho muito difícil não falar sobre isso, porque é parte da minha vida.

Então você tocará “Layla” na turnê?

Sim [risos]. Esse sempre foi um ponto polêmico. Toda vez em que toco e ele está na plateia, eu me pergunto o que diabos está passando pela cabeça dele. Mas não sei, poderíamos tocar. Temos senso de humor quanto a isso.

Você e Pattie se divorciaram em 1989. Continuam amigos?

Muito, sim. Acho que nunca tive um relacionamento que acabou mal. Tenho muita sorte, porque todo mundo que amei ainda me ama. Acho que a maioria das pessoas acredita que, mesmo quando terminou a relação na pior das circunstâncias, as coisas que gostava na outra pessoa continuam ali, e as ruins simplesmente parecem desaparecer. Afinal, o que temos neste mundo a não ser uns aos outros?

Os eventos recentes tiveram um papel na decisão de sair em turnê?

Na verdade, foi o contrário. Depois que meu filho morreu... é engraçado, mas realmente não senti nada. Fiquei apático. Como a Lori observou, virei pedra e quis me afastar de todo mundo. Os italianos são muito dramáticos. Por parte da família dela, houve muito choro e ranger de dentes. Mas, para mim, da maneira como fui criado e sendo inglês... bom, os britânicos se retraem mantendo a pose de durões. Fingimos que estamos bem e cuidamos de tudo, mas por dentro a história é outra. Inicialmente, eu não ia fazer nada. Tinha planejado ficar em casa e refletir. Essa era minha maneira de lidar, mas acho que estava, na verdade, chafurdando na situação. Só que, depois de um tempo, fiquei com medo de não estar sofrendo o suficiente e tive de fazer análise para entender um pouco isso.

Devido a seu histórico com álcool e drogas, você se sentiu tentado a voltar ao vício?

Nenhuma vez, não. Estou em um programa de recuperação há quase quatro anos e isso me ajudou tremendamente. Era um lugar para ir e falar sobre isso. Poderia ter voltado para alguma dessas coisas se não fosse por isso. Não há como se preparar para o que aconteceu. Depois da tragédia, recebi muitas cartas de pessoas que tinham sofrido uma situação parecida, e todas diziam a mesma coisa: que você não vai acreditar nisso por muito tempo. Nunca vai se esquecer disso, mas a dor irá melhorar. Só que você tem de passar pelo sofrimento, não pode anestesiá-lo de forma alguma.

Você lembra o que pensou quando ficou sabendo do que aconteceu?

O mesmo que penso agora; não acreditei. Estava aqui neste mesmo hotel quando aconteceu, há apenas dez quadras de distância. O telefone tocou, atendi e a Lori estava do outro lado, histérica. Disse que o Conor estava morto. Pensei: “Isto é ridículo, não seja boba”. Perguntei: “Tem certeza?” Então, simplesmente sumi do mapa. Corri até lá, vi equipamentos de paramédicos por toda parte, ambulâncias e carros de polícia, e pensei: “É verdade”. Entrei em outro modo. Assumi a responsabilidade e depois comecei a frequentar muitas reuniões do AA e falar sobre isso. E tem ajudado.

Houve alguma pessoa em particular que deu uma força maior?

Engraçado, a primeira pessoa com quem tive contato foi o Keith Richards. Ele me escreveu uma carta fantástica e telefonei para ele imediatamente. Ele disse: “Bom, estou aqui, sabe, se houver algo que eu possa fazer...” E o Phil Collins. Falei com muita gente que não vejo muito, mas que são meus melhores amigos.

O que você achou da cobertura da imprensa?

Vi de forma positiva. Quer dizer, ele era uma criança tão novinha, foi um impacto incrível. Recebi cartas da família Kennedy e do príncipe Charles. Fiquei impressionado. Quando ele foi enterrado, havia uma multidão de repórteres e fotógrafos na igreja. Reagir àquilo estava além de mim. Outras pessoas ficaram aborrecidas e ultrajadas com a falta de respeito, mas isso não se chocou contra meu luto de forma alguma.

Devido à sua infância, que foi difícil e teve grande impacto no resto de sua vida, eu presumiria que você queria algo diferente para seu filho...

Verdade. Para mim, foi um grande desafio tentar colocar minha vida em ordem para poder deixar a vida do meu filho tranquila. Estava chegando ao ponto – antes da morte dele – em que realmente conseguíamos ver que educaríamos Conor de uma forma equilibrada.

Vocês realmente viveram juntos como uma família?

Nós tentamos, mas acho que minha incapacidade de me acomodar – que é algo no qual ainda estou trabalhando – evitou que isso acontecesse. Para mim, parece quase impossível me encontrar em um relacionamento sem querer me afastar em algum momento, querer fugir, ser um garoto novamente, tocar guitarra e me comportar mal. Não sei se vou crescer um dia. A meta agora é tentar evoluir gradualmente sem perder as coisas de que gosto na vida.

Você e a mãe do Conor ainda são próximos?

Muito, e fico feliz em dizer que ela está grávida de novo, em seu novo relacionamento. Acho que isso a ajudará mais do que tudo para recuperar a saúde e prosperidade, porque ela era muito grudada no Conor. Ela o adorava, era uma ótima mãe.

Em uma entrevista para a revista Musician, você disse: “Todo dia encontro alguma coisa pela qual sofrer”. Ainda pensa assim?

Acho que progredi. Tento ver cada dia agora como um bônus, realmente. E tento aproveitar ao máximo. Não acho mais que eu seja tão negativo como eu era. Parece que fechei o círculo. Quer dizer, a morte do meu filho e a do meu amigo Stevie Ray Vaughan me ensinaram que a vida é muito frágil e que, se você recebe mais 24 horas na Terra, é uma bênção. É a melhor forma de olhar para isso.

Vamos falar sobre 24 Nights.

Sim, bom, gravamos vários shows no Albert Hall este ano e no ano passado e os misturamos para fazer um disco ao vivo, que é... bom, parte dele é excepcional, parte dele não é. É boa, mas...

Do que você não gosta?

Sou muito crítico em relação a meu desempenho. Quando saio do palco, acho que foi brilhante, mas quando escuto de novo não fico satisfeito, nunca.

É isso o que aconteceu? Pelo que entendi, o álbum já estava pronto, mas você impediu o lançamento.

Depois de escutá-lo, não achei meu desempenho satisfatório, então fizemos tudo de novo neste ano, toda noite. Gravamos 24 noites! Em retrospectiva, vejo que estava muito cansado. Tinha feito turnê o ano inteiro e não estava realmente no ponto certo. Então, tivemos de raspar o tacho para conseguir uma boa seleção que funcionasse. Quer dizer, é boa, mas sou muito crítico. Acho que as músicas com a banda de nove músicos são as que soam melhor. Acho que são mais relaxadas, porque aquela era a banda que estava em turnê o ano inteiro, e estávamos muito mais à vontade do que com as outras formações.

Como você vê o blues hoje? Com o sucesso de Robert Cray e a boa repercussão da caixa com a obra do Robert Johnson, as pessoas falam sobre uma ressurreição...

Acho que falar é uma coisa, mas não vejo isso acontecendo. O blues parece estar morrendo de uma morte lenta e graciosa. Quer dizer, como sobreviverá? Todos os blueseiros estão desaparecendo. Eu gosto do Robert Cray. Ele é absolutamente, totalmente autêntico. Quanto à música de Robert Johnson... é engraçado, mas você tromba com pessoas por aí que mencionam o nome dele em um jantar. Acho muito ridículo, mas não importa quem comprou a caixa do Robert Johnson, sempre haverá uma minoria que realmente pode se identificar com isso, de alguma maneira. Algumas pessoas acham que é como escutar uma voz que sempre ouviram. É assim comigo. Quando ouvi pela primeira vez, foi tão desconcertantemente íntimo que foi quase insuportável. Foi quando experimentei álcool pela primeira vez, senti que nasci para aquilo. E quando escutei Robert Johnson pela primeira vez foi como uma voz que eu tinha ouvido há muito, muito tempo, mas não acho que seja assim para todo mundo.

Você fala sobre gravar um álbum de blues. É algo que ainda poderá fazer?

Ainda é algo que tenho em mente, mas as coisas ficam acontecendo e o adiando. Agora, estou decidido a fazer um disco para reconhecer o que meu filho fez por minha vida. Provavelmente o dedicarei a ele ou será sobre ele. Não sei bem. Já compus duas músicas sobre como me sentia. Nenhuma delas é um blues. Ambas são muito estranhas – uma música diferente. Eu as toco em violão flamenco e são quase um samba. São músicas doces, quase folk, e sinto que preciso tocá-las, que as pessoas as escutem. Então, acho que as coisas sempre parecem adiar o disco de blues. Parece ser algo que nunca farei. É só um ideal.

Você escuta música contemporânea? Conhece as canções que entram nas paradas de sucesso atualmente?

Estou desatualizado. A única coisa de que gostei

No ano passado, a PolyGram lançou uma caixa com três CDs celebrando o 20º aniversário de Layla and Other Assorted Love Songs, único álbum que você gravou como membro do Derek and the Dominos. Você escutou tudo, as jams, as gravações e tudo o mais?

Não consegui ouvir tudo. Tentei, mas não deu. Há tanta história pessoal envolvida que é muito doloroso reviver isso, que é o que acontece se eu a escuto. Nostalgia, para mim, é sempre doloroso. Acho que nostalgia em latim quer dizer “retorno à dor”.

Quando lembro o que aconteceu no Derek and the Dominos, sinto que foi um grupo malfadado...

A banda começou anônima. Nos juntamos, viramos Derek and the Dominos e fizemos uma turnê sem que ninguém soubesse quem éramos. Então, chegamos ao topo rapidamente e ganhamos muito dinheiro. E esses rapazes, que basicamente eram do sul – como o [tecladista] Bobby Whitlock e o [baterista] Jim Gordon – de repente foram jogados nessa pilha de dinheiro, drogas e mulheres, e a situação deu uma cambalhota, decolou e explodiu. Foi como um acidente de carro assustador. Não conseguíamos nem conversar, estávamos tão doidos, drogados e paranoicos. Era algo condenado, na verdade. Acho que ninguém podia ser salvo por ninguém.

Quando você relembra sua carreira, de quais álbuns tem mais orgulho?

Acho que o disco com o John Mayall [Blues Breakers with Eric Clapton] é poderoso, porque eu tinha uma postura rebelde definida com relação a tudo que me cercava. Estava no ápice da minha arte e completamente confiante, não dava a mínima para o que pensavam. Gosto de Slowhand. Também considero No Reason to Cry um álbum muito bom, porque é meio que divagador. Não houve produtor e era uma festa. Tenho orgulho desses álbuns em particular.

Você gravou “Sign Language”, de Dylan, em No Reason to Cry. Você ainda o vê?

A última vez que vencontrei Bob foi quando eu estava gravando Journeyman (1989). Aquele foi um ano ótimo na companhia dele. O homem está muito acima de todos. Não o vejo desde então, mas adoraria reencontrá-lo. É que não sei bem como retribuir. Eu me sinto meio inadequado ao lado dele.

Parece que você passou por mais um processo de reavaliação e saiu dele forte.

Bom, tive de passar por isso, sabe. Os últimos anos foram espetaculares. Alguém escreveu um livro sobre mim, chamado Survivor! [o livro, de Ray Coleman, foi rebatizado como Clapton! nos Estados Unidos]. Ele termina no início dos anos 80. Bom, daria para atualizá-lo. Nos últimos anos, houve mais ação e drama do que eu gostaria, mas acho que aprendi algo com isso tudo. Não consigo dizer o que é, exceto que sou feliz por ser eu e por ter sobrevivido.