Criada à base de axé, sertanejo e tecnobrega, a Banda Uó quer decolar rumo ao palco do Faustão

Carina Martins Publicado em 11/06/2013, às 15h16 - Atualizado em 24/06/2013, às 12h00

<b>PARADA DURA</b> (A partir da esq.) Mateus Carrilho, Candy Mel e Davi Sabbag: o mainstream é o limite

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Se a estética parece algo fundamental à Banda Uó, é porque é isso mesmo. diferentemente da criação do mundo, na origem da Uó, antes do verbo e do som, havia a imagem. Do registro em vídeo de uma viagem a Pirenópolis (GO), feito pelo então videomaker Mateus Carrilho, nasceu a primeira incursão musical dele ao lado de Davi Sabbag: a banda Folk Heart. Foram as cenas gravadas que inspiraram videoclipe, música e banda, nessa ordem. “Não era tão comum as pessoas terem filmadora HD, então o resultado ficou mesmo muito legal”, diz Carrilho sobre a repercussão do projeto de 2010. O público estava conhecendo e gostando do material publicado pelo grupo no YouTube. O suficiente para que fizessem um punhado de shows em festivais em Goiás – como o Bananada e o Goiânia Noise –, e para que um dos contratantes perguntasse “o que é isso?” ao assistir a um outro vídeo feito por eles. Era um experimento criado paralelamente ao Folk Heart, fruto das imagens e sonoridades pop de que os integrantes sempre se alimentaram, e do exercício que vinham praticando com som e imagens. “É só uma brincadeira”, respondeu Carrilho. E ouviu de volta: “Mas isso é bom também!”

Assista ao making of das fotos com a Banda Uó.

Ainda bem, porque era nessa “brincadeira” que ele e Sabbag se sentiam mais à vontade. “Era o Davi quem tinha mais referências folk, mas mesmo assim... Eu queria ser um cara bucólico”, diz Carrilho, imitando o que seria uma “cara bucólica”. “Até tentei, mas não dá certo.” O companheiro concorda. “Sou naturalmente mais tímido, mas era muito mais tenso tocar folk do que me jogar no palco com a Banda Uó.” Em Goiânia, Sabbag estudava composição e diz que sua formação é mais erudita, mas, como os demais integrantes da banda, foi criado à base de pop brasileiro. E é esse pop que hoje eles digerem, enfeitam e botam para dançar na Banda Uó.

“Curto coisa mais clássica, mas gosto bastante de um axezão”, Sabbag explica. Como eram crianças na década de 90, eles cresceram nutridos pelo mocotó do É o Tchan; e se desenvolveram simultaneamente ao crescimento do sertanejo-pop, muito forte em Goiás. “A Mel é quem gosta mais de sertanejo, tanto que o celular dela toca Gian e Giovani”, entrega Carrilho. Ela se indigna com a acusação e rebate: na verdade, o ringtone é uma melodia de Chrystian e Ralf.

Mel Gonçalves, ou Candy Mel, não estava no primeiro vídeo da Banda Uó , aquele que o contratante viu. Quando filmaram “Não Quero Saber”, a vocalista era Flora Maria. Carrilho afirma que não houve um processo de saída da Flora para a entrada de Mel. Desde que a banda virou “de verdade”, o espaço estava reservado para ela. “A Mel só não participou porque naquele dia não podia. Sempre imaginei que, se a gente fosse fazer algo, seria com ela.” O vídeo seguinte, “Shake de Amor”, já mostra a formação definitiva, e foi com ele que o trio realmente “aconteceu”. Lançado em 2011, já tem mais de 1,5 milhão de visualizações.

Os três são, há anos, amigos “da noite” de Goiânia. São todos recém-lindos e estilosos. “Filhos do bullying”, como Mel descreve, começaram a frequentar a tal noite há nem tantos anos assim. Na adolescência, Sabbag pesava 23 quilos a mais. “E eu era amigo do gordo”, conta Carrilho durante a sessão de fotos para esta reportagem, em uma escola paulistana. Quando a brincadeira começou a dar certo, vieram todos juntos para São Paulo, há um ano e meio. Por seis meses, moraram de favor “na casa de um amigo rico”. O esquema era de rodízio de conforto: dividiam uma cama de solteiro e um tapete no chão. “Uma noite, um dormia inteiro na cama, o outro com o pé pra fora e o terceiro no chão. Depois, a gente trocava”, explica Sabbag. “É bom contar isso, porque tem muita gente que acha que a gente veio para São Paulo brilhar, que não tem ideia”, completa Carrilho.

Hoje, moram em apartamentos na região central de São Paulo. É no de Sabbag que mais costumam se reunir. Ele mora em um prédio antigo, com instrumentos musicais e o computador ocupando os lugares de honra na sala de estar – e nem poderia ser diferente. Há aquele embrião de decoração naturalmente encontrado na casa de quem está começando a vida (e é exatamente esse o caso). A diferença é que muitos recém-formados não têm um troféu do VMB, premiação da MTV, na prateleira.

Carrilho e Sabbag vivem sozinhos. Mel divide o apartamento dela “com uma galera”. “Não gosto de ficar sozinha, não confio em mim sozinha”, conta, referindo-se, de leve, aos fantasmas dela. De longe a mais introspectiva, Mel é bonita, graciosa e fala baixo mesmo quando faz piada. Queria ter um carrão e um marido. Dos três, é também a que teve a infância mais difícil. Além da pobreza, teve a guarda tirada dos pais e foi entregue à avó, que, junto com uma tia, cuidou dela a vida inteira. Criada como evangélica, ainda tem muita fé, mas abandonou a religião. “Na igreja, eu era vista como um problema, como algo a ser resolvido”, diz, referindo-se à própria transexualidade. “Passei por muita coisa lá. Mas superei muito bem.” Hoje, sente que não há espaço para uma fé como a dela no cristianismo, então, reza sozinha. Conta que a hormonização a que se submete às vezes pode mexer com a cabeça, e que a personalidade dela também colabora para que tenda a se perder em si mesma.

Quando deixou Goiânia para seguir rumo a São Paulo com a Banda Uó, Mel ouviu da tia que a criou que, se fosse, não era para voltar (os dois amigos só descobriram essa informação durante a entrevista). Mas Mel não faz drama. Abre o jogo já emendando que hoje tem uma relação amorosa com a tia e a avó, que se falam sempre e que o ultimato é passado, já que ela voltou para casa várias vezes. “Mas meu quarto não existe mais. Assim que eu saí, ela transformou em um depósito, porta-treco, sei lá.”

Na mesma época da mudança, a vocalista tinha acabado de passar na primeira fase do vestibular para estudar moda. Ficou insegura sobre largar tudo, mas foi a única a duvidar da decisão. Carrilho repetia o mantra que parece guiar a determinação dele: “Vai dar certo”. Já o assumidamente impetuoso Sabbag diz que, quando começaram a cogitar o assunto, deu um basta na enrolação dizendo: “Estou indo para São Paulo, e vocês?” Com o mesmo espírito, o ex-cantor de casamento já tinha ido tentar a vida em Nova York anteriormente. “Achava que ia chegar lá, andar na rua e ser descoberto. Fui para acontecer”, ele conta. Mas o que aconteceu foi um esbarrão no estelionato e uma série de subempregos cujo ápice foi uma vaga de acendedor de narguilés. Voltou seis meses depois, desiludido e anônimo. Depois da aventura, tentar a sorte em São Paulo com a banda já nem parecia um movimento tão ousado.

Com um integrante planejando o futuro, outro querendo decolar e uma cantora ainda insegura, a mudança deu briga antes de dar certo, como aconteceria em qualquer grupo de amigos íntimos. E brigaram ainda mais quando, já na nova base, os dois rapazes terminaram o namoro entre eles, mas continuaram trabalhando juntos na banda. “Foi muito difícil mesmo, acho que foi a coisa mais difícil que já fiz”, afirma Carrilho, de sorriso sem graça, mas olhando direto nos olhos de Sabbag. No conflito, Mel ficou entre os dois, como uma garota de recado em campo minado. “Minha filha, você não tem ideia. Cheguei a gritar ‘Aaaah, não aguento mais’”, entrega ela, bem-humorada. “Com toda a dificuldade da situação, ainda ter que conviver com a pessoa, ver ele ficando com outros e ter que continuar criando música! Foi muito difícil. Mas agora está tudo bem, estou feliz, já amo outra pessoa”, revela Carrilho.

Conversar com o trio ao mesmo tempo ajuda a ter uma visão clara da dinâmica entre eles. A falta de unanimidade em vários assuntos não é escondida nem oprimida, mas debatida e exposta. Um discorda da resposta do outro, e deixo de ser interlocutora para ser testemunha da discussão que tenta chegar à melhor solução. Está claro que se trata de uma relação próxima entre jovens empenhados e empolgados (tão confiantes que não hesitam em acrescentar “talentosos” à autodescrição diversas vezes durante a conversa). Apesar de todos participarem das decisões, é Carrilho quem funciona como cabeça do grupo. “Diretor” da banda, ele planeja os próximos passos. E repete e acredita: “Vai dar certo”. Sabbag, apesar de cuidar de assuntos burocráticos e administrativos, é também quem cuida da música e atiça o fogo entre eles. E Mel é a musa tímida que une os dois, dá molho ao trio e vence batalhas nas quais nem imagina ter entrado. Cérebro, coração e coragem – é mais ou menos como se fossem os heróis relutantes de Oz depois da visita ao Mágico.

Mas, acima de tudo, tratam-se de artistas impetuosos, cheios de pressa e ambições. Nem é de se estranhar: afinal, ninguém ali sequer chegou aos 25 anos. A Banda Uó quer muita coisa, quer agora, e tem certeza de que sabe como conseguir. “Agora mesmo a gente queria trabalhar uma música e a gravadora achava que não era a hora. Então fizemos o clipe nós mesmos e entregamos pronto”, diz Carrilho, acrescentando que o ato não foi mal recebido. “Nunca ninguém tentou nos impor ou impedir nada”, alivia, explicando a atitude ao lembrar que são jovens, conhecem o público deles e, basicamente, são assim mesmo.

Mas os integrantes da Banda Uó sabem que, para alcançar o tamanho que desejam, terão de abrir mão de algum controle. Hoje, fazem de tudo: figurino, coreografia, música, letra, clipe clandestino. Mas querem ser uma banda que toca no Faustão, embora não haja consenso entre eles se é possível que o perfil do grupo seja abraçado de forma tão completa pelo mainstream. Já tiveram duas experiências na TV Globo: uma aprovada apresentação no Som Brasil e uma agridoce participação no Esquenta. “Não gostamos muito”, diz Sabbag. “Abriram a Mel no meio, foi horrível.” O programa fez um segmento – sem avisá-los – tratando exclusivamente da transexualidade da vocalista. Sentiram que a colega foi exposta e constrangida.

É notável que uma banda formada por dois gays e uma transexual passe tão ao largo de transformar essas questões em assunto. Para Sabbag, o mérito é da geração deles, para quem diversidade sexual não é mesmo um tema tão relevante. “As pessoas mais novas encaram com mais naturalidade”, diz. Eles citam casos de fãs de menos de 10 anos que choram de emoção ao encontrar Mel, meninas apaixonadas pelos meninos e jovens gays que enxergam na banda um respiro de identificação. Mas discursos e bandeiras políticas não caberiam na proposta dos três. “A Banda Uó é divertida, bem-humorada, é como nós somos, é do que a gente gosta”, diz Carrilho. Para o próximo disco, eles pretendem um afastamento ao mesmo tempo “natural e planejado” do tecnobrega, trazendo referências mais variadas de pop brasileiro. O álbum ainda está sendo feito. Mas a capa já está pronta faz tempo.