Exclusivo: Ozzy Osbourne e Geezer Butler falam sobre o retorno do Black Sabbath

Na entrevista de uma das capas da edição de junho, os músicos lamentam a ausência de Bill Ward na reunião da banda, celebram o novo disco e relembram o passado com as drogas

Pablo Miyazawa Publicado em 05/06/2013, às 12h14 - Atualizado às 18h51

O Black Sabbath na capa da edição 81

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A evidência óbvia de que Ozzy Osbourne está impaciente é quando começa a responder antes mesmo de ouvir o final da pergunta. Mas não é só: ele não para quieto, põe as mãos na cabeça, caminha curvado pelo quarto, gesticula, bate na mesa. Vestido todo de preto, sem óculos e com a cara limpa, o cantor britânico de 64 anos parece mais cansado e indefeso do que de costume. Cada frase que solta é enfática, pontuada por exclamações e os resmungos ininteligíveis de praxe, mas a clareza de ideias e a boa memória não passam despercebidas (apesar de o fluxo de pensamento ultrapassar a velocidade com que ele consegue verbalizar). Na verdade, não há nenhum problema naquele momento: Ozzy está apenas sendo Ozzy.

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“Eu fiquei em um hotel enorme! Olhava para o oceano da janela”, Ozzy balbucia, relembrando a visita ao Rio na última passagem pelo Brasil, em 2011. Recostado em uma cadeira ao lado, o baixista Terry “Geezer” Butler, 63, se mantém com a expressão impassível, os gestos econômicos, as frases curtas e a fala mansa. Juntos, os amigos de juventude representam dois terços da formação atual do Black Sabbath – a ausência daquela tarde de início de abril é o guitarrista Tony Iommi, em constante tratamento contra um linfoma diagnosticado em 2011. Estamos em um apartamento de um hotel com ares de parque temático do rock clássico, a poucos metros da Avenida Sunset Boulevard (Los Angeles), e a pauta é o lançamento iminente de 13, primeiro álbum do Sabbath com Ozzy nos vocais em 35 anos. Mas, naquele momento da conversa, o foco está direcionado ainda mais longe – no Brasil.

“Fiz um show lá em outro lugar, acho que foi na capital…”, Ozzy continua. “São Paulo”, corrige Geezer. “Foi em 2011. Estava chovendo”, eu digo.

“Ah, é. Minha voz sumiu lá. Mas tinha milhares de pessoas! E a molecada me falava: ‘Você tem de vir com o Sabbath!’”, Ozzy diz. “Eu toquei no Rock in Rio, no primeiro, em 1985, e foi inacreditável. Uma doideira do caralho! Tinha 1 milhão de pessoas, era ridículo! Acho que foi o maior público para o qual toquei.”

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“A Copa é lá no ano que vem, não?”, Geezer pergunta, enfatizando o sotaque de Birmingham, cidade inglesa onde o Sabbath surgiu e se estabeleceu no final da década de 60. Respondo que sim, mas que “não andamos lá muito orgulhosos de nossa seleção”.

O baixista sorri. “Mas com certeza deve ser melhor que a da Inglaterra.”

Abaixo, você lê parte da entrevista publicada na edição 81 da Rolling Stone Brasil, nas bancas a partir do próximo dia 7.

Ozzy, você disse que queria soar atual no novo disco, mas mantendo a vibração do Sabbath...

Ozzy Osbourne: [Interrompe] E acho que conseguimos fazer isso muito bem. Sobre o som, é a primeira vez na história em que não estou nem um pouco decepcionado com o disco. Sou sempre muito crítico. E não existe uma versão única do Sabbath aqui. Tem faixas que lembram coisas antigas, tipo “Planet Caravan”, tem coisas de blues e jazz... É como uma carreira inteira em um único álbum. Não sei se é o resultado que as pessoas esperam, mas tem ótimas surpresas nele. São ótimas músicas, não tem uma que seja ruim.

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As músicas novas são longas, mesmo para os padrões de vocês.

Ozzy: É que nunca fomos o tipo de banda que planeja: “Vamos fazer músicas de três minutos”! A gente só vai tocando até sentirmos que chegamos ao final, sabe?

E o que define a “vibração” do Black Sabbath?

Ozzy: Desde que saí do Sabbath, diversos grandes músicos passaram pela banda. Mas ninguém toca o Sabbath como o Sabbath. É uma química que funciona! E depois de todos estes anos é tão legal que a gente volte a tocar junto e ainda exista essa mágica. Simplesmente está lá, entende?

Como foi o papel do Rick Rubin nesse processo de reencontro? Ele é bastante diferente de outros produtores, não?

Geezer Butler: É, sim. Ele funcionou mais como um quinto membro da banda, não ficou tentando nos distrair com tecnologia ou coisa parecida. Ele estava por dentro do espírito do Sabbath, em vez de ficar ligado só à parte técnica da coisa. É uma das únicas pessoas de fora que realmente entende qual é a nossa, que compreende pra valer o espírito. Para nós, era mesmo como se fosse um quinto integrante.

E é o primeiro disco com vocês e Iommi desde 1978. Não há banda desse porte e daquela época que ainda grava inéditas. Isso pesa?

Geezer: Para nós, é importante finalizarmos o que começamos. O círculo completo. Eu sempre quis fazer mais um disco do Sabbath da maneira mais original possível. Foi uma ambição minha por anos, e finalmente pareceu a hora certa...

Ozzy: [Interrompe] A única coisa triste é que o Bill [Ward, o baterista original] não tocou nele. Teria sido muito legal. Fizemos o melhor que pudemos, mas acho que o resultado final fala por si só.

Foi decepcionante quando concluíram que Bill não participaria da reunião?

Geezer: Foi triste, porque a ideia sempre foi a de que nós quatro faríamos isso juntos. Estava indo bem até a gente divulgar. Quando foi, 2011? Fizemos a coletiva de imprensa e anunciamos que voltaríamos e faríamos um álbum. Com isso a gente meio que se amaldiçoou...

Ozzy: Quero dizer, não tínhamos tempo a perder, tínhamos de seguir adiante... E, sabe, nem eu sei de tudo. Foi algo relacionado com os negócios, com o qual não quero lidar. Minha mulher cuida dos meus, a do Terry cuida dos dele, o Tony tem os empresários dele, o Bill tem o dele. É alguma merda política na qual não me envolvo. Tenho a sorte de ser só o cantor.

Álcool e drogas sempre tiveram um papel importante no processo criativo da banda...

Ozzy: [Interrompe] Não.

Não?

Ozzy: Não, a gente achou que tivesse, mas não. Um dos caras do Aerosmith, acho, falou uma vez: “Começamos como uma banda de rock and roll que se metia com drogas, e nos tornamos uma banda de drogas que se metia com rock and roll”. E eu me identifico com isso! Antes, eu estava mais interessado em ficar chapado e bêbado pra caralho do que em fazer música! É fácil cair na armadilha de pensar “Como vou criar sem uma garrafa de vodca ao lado?” É uma falácia, porque você é viciado em substâncias e se engana, achando que se tirar as substâncias, não consegue fazer. É uma bobagem! Nós provamos isso agora: nenhum de nós estava bêbado ou chapado, e foi incrível o quão rápido conseguimos fazer as coisas. É fácil entrar nessa: “Não consigo fazer sem cocaína, maconha, birita, ou todas as anteriores”. É coisa que seu cérebro diz, sabe?

Geezer: Os três primeiros discos foram feitos relativamente sóbrios. No primeiro álbum, a gente não tinha dinheiro para comprar drogas ou bebida. Então... totalmente sóbrios [risos].

Ouça "God is Dead?" abaixo: