Louis C.K., uma receita de fracasso

Vergonha, falhas e nada de fãs: como nasce um gênio da comédia

Brian Hiatt Publicado em 05/06/2013, às 13h14 - Atualizado em 27/09/2013, às 13h15

Rei em pé Louis C.K., o atual rei da comédia nos Estados Unidos

Ver Galeria
(2 imagens)

Ele não quer contar a história do gato. “só preenche tempo, é a única utilidade que ela tem”, diz Louis C.K. enquanto encara seu público mais difícil em um espelho de camarim pendurado em uma parede de tijolos. Ele está nos bastidores de um teatro de New Brunswick, Nova Jersey, repassando parte do número que planeja apresentar: “Mas melhora. Hum, divórcio. Telefone. Caralho. Agora eu não lembro, de verdade. Que bosta. Como é que eu chego ao telefone? Ah, sim, certo, daí fico todo alegre com o filme, daí uso o meu telefone, daí o telefone com as crianças, daí chegamos em casa. Esse é o set”. Como de costume, ele não tem nada escrito, só pega deixas de uma repassada rápida de sua última apresentação, que ele mesmo gravou no iPhone.

Ele já cortou a historinha do gato – uma narrativa divertida, ainda que inconsequente, sobre o bicho de estimação que o apavorava ao entrar por uma janela enquanto ele dormia – de Oh My God, seu quarto especial de comédia para a HBO (sem previsão de exibição no Brasil). Mas o set dele sempre evollui, até nos últimos dias: faz um ano que ele está trabalhando em seu espetáculo atual. Este será seu último especial de stand-up pelo menos até 2015. Depois de terminar de filmar American Hustle com David O. Russell (também está no novo de Woody Allen, Blue Jasmine), C.K. vai dedicar um ano inteiro à quarta temporada de Louie, sua série.

C.K. se transformou no herói da comédia que define uma época, só que, em vez de fazer hipocrisia com o sistema, ele detona o narcisismo e a empáfia do público. Ele nos diz exatamente por que somos os piores e nós imploramos por mais. Mas seu melhor material vem das árias de autodesprezo, das confissões verdadeiras de um sujeito sombrio e de olhos tristes vindo das profundezas emocionais.

Há muito tempo, nesta revista, John Lennon disse que sabia desde os 12 anos que era artista e gênio. Há alguma parte de você que se considera um gênio?

[Risos] Porra, não sei, duvido. O que significa ser gênio, comparativamente falando? Existe algum tipo de número? Definir-se é uma coisa muito estranha de se fazer – para mim, simplesmente não é nem um pouco divertido. John Lennon era o maior, eu o adoro, mas eu não diria que sou nenhuma dessas coisas.

Você nasceu nos Estados Unidos, depois se mudou para o país natal do seu pai, o México, com 1 ano, onde morou até os 6 ou 7 anos. No palco, você disse que uma das diferenças nos Estados Unidos era que “os policiais ficavam acordados!” O que mais o marcou nessa transição?

É, todas as máquinas eram novas e funcionavam. O México na década de 70 era um lugar e tanto. O meu avô era médico e inventava equipamento de medicina, por isso ele tinha uma casa bacana e daí todo mundo era pobre. Nos Estados Unidos, tem gente que é pobre e classe média e gente rica – temos uns 50 níveis de riqueza; é igual ao fato de os esquimós terem um monte de palavras para neve. No México, tem gente muito, muito rica, e depois tem os camponeses. Tinha gente que sofria de verdade, bem ali na rua, em todas as partes da cidade. Daí, quando eu cheguei aqui, todo mundo se dava meio bem, e isso foi notável.

Como foi a adaptação para você?

Eu era bem pequeno, por isso só tive que rejeitar completamente o meu passado espanhol e mexicano, de modo que me transformei apenas em um garoto americano, o que é muito mais fácil, porque eu sou branco e tenho cabelo ruivo. Eu contei com a ajuda de uma nação inteira, formada por pessoas que simplesmente aceitam o fato de eu ser branco. Deve ser uma batalha ladeira acima para tentar assimilar quando todo mundo só fica apontando para você e dizendo que você é mexicano. Para mim, era assim: “Ei, olhe para aquele garotinho branco”. Foi fácil. Eu era criança, crianças aprendem a língua rápido. Também esqueci muito do meu espanhol, o que é uma pena.

Parte do que você faz é esta maneira de ver o mundo, ficando de fora e observando com mais clareza do que outras pessoas. Será possível atribuir isso ao fato de que você chegou aqui depois de ter visto outra realidade?

Essa é uma observação muito boa. Acho que é verdade. Sim, com certeza, ter chegado aqui e observar os Estados Unidos como um forasteiro me transformou em uma pessoa observadora. Eu fui criado em Boston, na maior parte do tempo, e não adquiri o sotaque, e uma das razões para isso é ter começado com o espanhol. Quando o inglês é a sua segunda língua, a tendência é ser neutro com o sotaque, e eu também sei fazer boas imitações e coisas assim porque tenho a voz elástica e precisei mudar.

Chris Rock disse que você é o sujeito branco mais negro que ele conhece. Será que a sua visão racial é diferente por causa da sua experiência?

É sim, porque a raça não significa mais o que significava nos Estados Unidos. Simplesmente não é mais assim. Obama é negro, mas ele não é negro da maneira como as pessoas estão acostumadas a definir isso. Será que negro é a experiência dele ou a cor da sua pele? A minha experiência é de imigrante mexicano, mais do que a de alguém como George Lopez: ele é da Califórnia. Mas ele será tratado como imigrante. Eu sou um forasteiro. Minha abuelita, a minha avó, não falava inglês. Toda a minha família do lado do meu pai está no México. Eu nunca vou ser chamado disso nem ser tratado dessa maneira, mas essa foi a minha experiência.

O que levou você a tomar ácido e fumar maconha antes do ensino médio?

Eu era uma confusão só. Os meus pais tinham se divorciado, eu morava em um subúrbio de Boston e muita gente estava se chapando. Era o que a garotada fazia, era muito comum. Fiz um amigo que me considerava a pessoa mais bacana do mundo, e ele me ensinou a me chapar. Faltava às aulas e ia a Harvard Square com ele, às lojas de discos usados. Muito do que dizem é verdade – a cultura das drogas leva a garotada às drogas. Nós escutávamos música de adultos bacanas que se chapavam.

Como o que por exemplo?

Eu gostava de verdade do Led Zeppelin. Eu gostava de verdade de Jimi Hendrix. Me liguei no The Grateful Dead por um minuto. Eu adorava mesmo classic rock. Pink Floyd, sabe como é, tomar um ácido e ficar escutando a porra do Pink Floyd. É, Led Zeppelin. A culpa é toda deles [risos/].

O que fez com que você largasse as drogas?

A minha mãe mandou parar. Ela só disse: “Você não pode mais fazer isso, não posso mais ajudar você a ter essa vida”. Eu me senti mal; era muito injusto fazer com que ela passasse por esse estresse. Além disso, eu não estava mais curtindo a minha vida. Eu não sentia mais nada. Parte da razão por que as pessoas usam drogas é por não conseguirem acessar seus sentimentos ou por existirem certos sentimentos que são demais para ser acessados, então elas usam drogas para fazer com que calem. Quando eu era mais novo, antes de usar drogas, eu queria fazer algo criativo, escrever. Tinha muita coisa que eu curtia na vida, mas daí tudo passou a se resumir a ficar chapado. Era muito vazio. Então eu larguei as drogas sem ajuda nenhuma – só penso nisso agora porque sou pai. Eu simplesmente parei. Eu não usava heroína, mas fumava toneladas de maconha. Eu bebia, fazia um monte de merda. Era certo que eu não lidava com a vida de um jeito normal, daí, de repente, passei para o outro extremo de me dedicar aos estudos, e assim saí de um buraco bem fundo.

Você não escreve os seus números de comédia, e o texto pode mudar de maneira acentuada de uma apresentação a outra, até na mesma noite. Do que você gosta nessa abordagem?

Eu tive um preparador de atuação chamado Bob Krakower, e ele me disse uma coisa de que eu sempre me lembro, que foi o seguinte: se você apresentar uma coisa duas vezes e fizer de um jeito diferente cada vez, isso significa que está fazendo bem, porque está com a atenção concentrada na intenção, não na mecânica. Sempre pensei nisso em relação ao stand-up: sempre que você se dá bem, que é arrancar uma risada, vai continuar fazendo a mesma coisa, e esse é um caminho que vai ficando cada vez mais batido, mas também começa a perder o brilho depois de um tempo. Às vezes, com certas partes, percebo que estão ficando meio enferrujadas, então penso: “Esqueça como você diz essa parte, retorne à ideia sem palavras e expresse a mesma coisa como se nunca tivesse dito aquilo antes”. Você faz isso com uma piada cinco vezes, e daí mistura as cinco versões, e obtém uma coisa maravilhosa.

Talvez seja aí que a parte do “gênio” entra.

A única coisa que faço é estudar e entender as coisas. O único jeito de aprender essas coisas é fracassando; tudo isso se aprende quando não dá certo. Você tem que estar disposto a não se dar bem. As pessoas que precisam se sentir como uma estrela, e como se estivessem se dando bem todas as vezes, nunca vão melhorar. Mas, se você estiver disposto a se dar mal, a errar, a ter uma versão empacada e chata de si mesmo na frente de todo mundo, pode encontrar coisas na lama que são muito úteis. O que eu acabei de dizer a você vem do fato de ter empacado de verdade e de ter escrito uma piada que foi tão desgastada e ficou tão ruim que parou de arrancar risadas.

Uma vez você contou a Howard Stern uma história sobre um episódio com uma “puta viciada” que tentou matar você.

Foi mesmo.

Por acaso esse foi o orgasmo mais vergonhoso da sua vida?

Ah, eu com toda certeza já tive coisa pior, no que diz respeito a vergonha. Aquele foi provavelmente o mais perigoso da minha vida. Mas quero fazer uma correção: “puta viciada” não foram palavras minhas. Não acho que exista nada pior para se chamar uma pessoa. “Puta” é uma palavra maldosa de verdade para dizer prostituta, é depreciativo. Eu não fiz nenhum julgamento a respeito daquela mulher. Ela só estava fazendo o que era necessário para alimentar seu vício em crack, mas isso não faz dela uma puta viciada.

Talvez você possa julgar a parte em que ela se juntou a um fulano para tentar matar você.

Posso julgá-la por esse ângulo, mas não como “puta”. Aquilo foi simplesmente grosseiro.

Sua obra faz parecer que você considera todos os orgasmos vergonhosos.

Não, isso com toda a certeza não é verdade. Eu pensava assim quando era mais novo, mas você meio que supera isso. Você chega a um ponto em que, quando tem esse momento, fica tipo: “Eu tenho direito a isso, eu conquistei isso”.

Como você sugere na sua apresentação, você já desistiu de alcançar algum peso ideal?

Nunca me importei com a forma do meu corpo, em termos de aparência. Eu acho que, aos 45 anos, não vai ter jeito de eu ficar magro. Eu não me importo. Quero ser capaz de me movimentar, só isso, e me preocupo em ter células de gordura demais, porque isso significa que o meu coração está se esforçando mais. Estou cagando e andando para a minha aparência – para mim, não é nada.

Nem na tela?

Não, eu nunca uso maquiagem no programa, nunca, nem um pouquinho. Uma vez que você começa “Certo, vou fazer maquiagem e cabelo?”, isso significa que eu vou ter que ser produzido para ficar com aquela aparência todas as vezes. E isso significa que, na verdade, você não pode envelhecer. Mas eu sempre estou com uma aparência, sei lá, então isso é fácil de alcançar.

Você já disse que, diferentemente do Louie do seriado, você é bem feliz. É verdade? Quando foi que você percebeu que era feliz?

O Louie do seriado é bem feliz, e eu sou mais ou menos tão feliz quanto ele. Eu não me incomodo de me sentir triste. É uma sorte sentir tristeza. Eu tenho a mesma quantidade de felicidade e tristeza quanto qualquer pessoa. Simplesmente não me incomodo tanto com a parte da tristeza; é fantástico ter esses sentimentos. Eu sempre me senti assim. Acho que olhar para como a vida pode ser aleatória e punitiva é um privilégio. Tem tanta coisa para se olhar, tem tanta coisa para observar, e tem muito humor nisso tudo. Eu tive meus momentos tristes, eu tive alguns momentos difíceis, e tenho muitas coisas com que me sentir triste, mas estou bem feliz neste momento.