Livre para Causar

As estratégias de combate e as piadas de Danilo Gentili, o comediante que usa a filosofia de Rocky Balboa para continuar em pé nos palcos e na TV

André Rodrigues Publicado em 29/07/2013, às 11h49 - Atualizado às 12h04

SEM FREIO De repórter inexperiente a apresentador de talk show, Danilo Gentili incomoda para fazer rir

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"É meio clichê o que vou falar, meio bobo, mas enfim…” É meia-noite de uma amena segunda-feira de maio em São Paulo, e Danilo Gentili acompanha os testes de um jogo de tabuleiro que pretende lançar ainda este ano. “É como disse Rocky Balboa: o importante não é o quão forte você bate, mas o quanto você aguenta apanhar e continuar de pé”, completa o comediante e apresentador, ao se lembrar das porradas que levou por fazer piadas relacionando King Kong a jogadores de futebol e judeus a trens de metrô. Seis pessoas estão reunidas em volta de uma mesa em uma espaçosa casa com terraço, bebendo cerveja, jogando dados e vendo como se sairiam se fossem humoristas. O jogo – chamado Rei da Comédia – foi escrito por Gentili e será ilustrado pelo artista francês Miguel Coimbra, um dos papas em sua área de atuação. Além de fazer rir, os competidores precisam ultrapassar obstáculos como processos criminais e protestos. Por isso mesmo, por achar que hoje no Brasil uma piada é sentida por muitos como um soco no estômago, Gentili pede ajuda ao mítico personagem criado por Sylvester Stallone. “Rocky é uma história sobre isso. Ele não tem talento nenhum. Ele passou da idade, não sabe lutar, não sabe porra nenhuma. Mas ele gosta do que faz e sabe apanhar. E aí, chega aonde chega.”

Assista aqui aos bastidores da sessão de fotos com o comediante Danilo Gentili.

Para o jornalismo literário, comparar um personagem qualquer com um boxeador também é uma imagem surrada. Mas o que fazer quando o chavão cai feito uma luva? Aos 33 anos, Danilo Gentili Júnior venceu muitas lutas – poucas por nocaute, é verdade. Seu estilo mistura a tenacidade do fictício Balboa com as provocações e o bailado do real Muhammad Ali. Com 1,92 m, jeito desmiolado e um andar de bêbado – elástico, mas desengonçado –, ele aposta no cansaço dos adversários. Aparentemente sem nenhuma estratégia, está de pé há diversos rounds. Saiu da sua cidade natal, Santo André, para se apresentar em shows de stand-up em São Paulo em 2005 (antes fazia diversos bicos, como empilhar caixas em shopping e trabalhar no setor de varrição da prefeitura); recebeu o convite para ser um repórter inexperiente no CQC (Custe o Que Custar), da Band, em 2008; abriu um bar de comédia em 2010; e desde 2011 tem o único “late night show” da TV brasileira minimamente parecido com os programas do gênero nos Estados Unidos. Nestes seis anos de exposição na mídia, angariou mais de 4,5 milhões de seguidores no Twitter, lançou três livros, dois DVDs de seus shows e no segundo semestre estreia nos cinemas na comédia Mato sem Cachorro, em que faz dupla com Bruno Gagliasso.

Tudo fruto de uma técnica exemplar? Ele acha que não. Gentili leva uma vantagem em relação a Rocky Balboa. “É impossível eu me planejar para contar as histórias que quero contar. O que acontece é sorte”, diz ele, sobre as ideias que tem para filmes – uma delas, já sendo roteirizada, a adaptação de seu livro Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola (“É antilei, antigoverno, é sobre ser individualmente livre”). Enquanto observamos mais uma rodada de Rei da Comédia (a cerveja acabou, o que deixa o clima mais sóbrio), ele fala sobre um dos assuntos que o irritam: a indústria cultural brasileira. “Pouquíssimas são as pessoas que podem se dar ao luxo de se programar para cumprir um planejamento nessa indústria, entre aspas, porque não existe essa indústria aqui. Indústria de entretenimento, indústria de TV, indústria de cinema. Não existe”, ele comenta e aponta satisfeito para as pessoas que agora gargalham ao concluir a última jogada. “O que existe bastante aqui é um cartel. Não estou dentro dessa mafiazinha. O que vale é ser cunhado, irmão, ex-genro. Aí fodeu.”

Horas antes, em uma padaria ao lado da casa onde mora, na região da Avenida Paulista, Gentili já tinha se referido com pesar ao modelo de financiamento do cinema brasileiro. Apaixonado por filmes, escreveu dezenas de argumentos e largaria tudo para só produzir longas. “Mas não tenho habilidade para relacionamento político nem paciência. Não quero deixar de pensar numa ideia mais lúdica para fazer relacionamento com a mulher da Ancine [Agência Nacional do Cinema]”, diz, mas faz questão de frisar que muitas distribuidoras estão tentando quebrar as regras e mudar essa situação – o próprio Gentili deverá ser o sócio-produtor de Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola. Apesar de um ou outro tropeço no português, o discurso dele é coerente, compreensível e firme – é formado em publicidade pela UniABC. Quando está nervoso, abusa dos “caralhos” e “vai tomar no cu”, mas é afável e exibe traços de timidez.

Gentili pede um café e começa a reclamar sobre o “show business” nacional (ele gosta de reforçar as aspas quando comenta sobre o mercado). Para ele, vivemos no “capitalismo caipira”, que ainda aposta no compadrio, amizades e troca de favores – e não valoriza a meritocracia e o talento. “A estrutura é muito provinciana, muito mais do que parece. Se eu ofender a pessoa errada, o cara passa a rasteira.” Ele usa uma metáfora bem conhecida, aquela que relaciona bens culturais com produtos de uma fazenda. “O próprio ator compactua com isso. Ele quer estar nesse provincianismo. Ele pensa ‘Eu sou da fazenda do coronel de cana, que é a fazenda mais forte daqui, e o coronel disse que se eu não ir nas outras, ele me dá de comer todo dia”’, brinca, enquanto faz uma voz mais grossa para imitar o tom de um sinhozinho brucutu.

Até agora, Gentili só fez tv nos domínios da família Saad, na TV Bandeirantes, no Morumbi. Em 2008, foi recrutado pela equipe que estava montando o programa CQC para fazer o teste do quadro Repórter Inexperiente. A performance dele ao entregar para a cantora Gretchen uma revista inteiramente danificada por uma intensa masturbação se tornou um clássico pop. Depois de ser reconhecido, passou a fazer reportagens no Congresso (de onde foi expulso) e em diversas cidades (apanhou e foi preso). Ainda participando do programa, começou a fazer reuniões para formatar o Agora É Tarde. Assim que foi aprovado pela direção da Band, passou a ser veiculado duas vezes por semana em um horário com índices de audiência que raramente saíam do zero alguma coisa. Dois anos depois, fica uma hora no ar de terça a sexta, está com o espaço publicitário vendido e atinge médias de 3 a 4 pontos no Ibope.


“Tenho total liberdade. Está funcionando. A gente fala que a Dilma roubou cofre, por exemplo. Eu nunca briguei por salário, sempre foi por projeto, liberdade, autonomia e equipe”, Gentili conta em uma terça-feira de junho, no camarim do talk show. O Agora É Tarde mistura entrevistas com reportagens, quadros com comediantes, comentários sobre os fatos da semana e tem no cenário a presença de Marcelo Mansfield, da banda Ultraje a Rigor e de uma assistente de palco. Enquanto beliscam quitutes, os integrantes discutem o roteiro do dia, contam piadas e tentam sacanear o apresentador.

“É forte o que foi construído, mas ao mesmo tempo é frágil. Basta o cara um dia olhar pra sua cara e...”, Gentili afirma, sobre a estabilidade da qual usufrui. Mas esse adversário fatal pode estar sem forças e pensando na aposentadoria. As coisas parecem que estão tomando outro rumo graças aos combatentes da comédia stand-up. O gênero vem exibindo grande fôlego nos últimos cinco anos. “Sou muito apaixonado por stand-up, porque ainda enxergo que um cara pode sair de casa e ganhar a vida sendo comediante”, ele diz. Gentili começou nesses palcos (“E é para esse lugar que vou voltar quando a TV acabar”), escrevendo material próprio e arriscando apresentações no Clube da Comédia Stand-Up, considerado o primeiro show do gênero no país. “Não estou dizendo que só produz comediantes geniais, mas gera pessoas que podem viver de comédia e não estão na Globo.”

Em outubro de 2010, ele abriu um bar, o Comedians, em parceria com Rafinha Bastos e o empresário Ítalo Gusso. O empreendimento deu tão certo (sorte?), que Gentili pensa em expandir para o exterior. “Tenho a ideia de abrir um bar em Orlando. Lá só tem parque de dia. À noite, o brasileiro que não fala inglês, que é o meu caso, não tem o que fazer. Se abro um comedy club para brasileiro e latino, porra, dá para fazer acordo com as operadoras de turismo. Três dias na Disney e uma noite no Comedians.”

“O papel do comediante ainda é fazer rir. Não adianta cagar regra ou fazer uma crônica do Arnaldo Jabor. A pessoa quer rir”, continua ele, sobre mais um assunto que o transforma em um sujeito sério: o papel do comediante na sociedade. “A justificativa de eu falar as minhas angústias é fazer as pessoas rirem. Senão, vou ao terapeuta ou viro colunista. A primeira coisa é fazer rir, tenho que ser cobrado por isso. Se você quiser ser transformado, vai na igreja, no cirurgião plástico, toma um ácido”, ele fala, elucidando sua profissão (ele chegou a pensar em ser pastor evangélico batista, hoje se considera “um monoteísta freelancer” e não frequenta mais a igreja). “Por isso stand-up é do caralho, porque tem, sim, por mais bosta que o comediante seja, meritocracia. Se subir lá e não fizer ninguém rir, não sobe mais. Pode ser conhecido do Boninho, do Silvio Santos… Subiu e não fez rir, ninguém segura”, prega.

Por dedicar toda uma vida ao riso dos outros, os amigos e pessoas próximas a Danilo Gentili dizem que ele trabalha 24 horas por dia. Dorme pouco (cinco, seis horas por noite), está constantemente no celular e nas redes sociais e é discreto na vida amorosa. Assim como Rocky Balboa parecia um demente nos treinamentos, Gentili passa um pouco essa imagem de “louco, obcecado, tarado por piadas”. Ele divide o apartamento com cachorros e gatos que retira das ruas – a causa animal é a única que o comove – e investe dinheiro em imóveis. Para todo esse trabalho funcionar, segundo ele, tem de existir sinceridade. “Tento ser muito fiel com o que quero falar. Sou esforçado. Acho que tenho muito medo de voltar para Santo André e ter que trabalhar”, ele ri, enquanto toma uma cerveja – apesar de dizer que não bebe – após se apresentar no palco da Virada Cultural. Estamos em uma das franjas da praça da Sé, em São Paulo, em um sábado de maio. O show de 15 minutos, segundo ele, foi uma “bosta”. Gentili transpira, olha sem rumo e é como se tivesse beijado a lona. Foi uma luta dura. “Só tem uma pessoa em quem confio: o público. A pessoa não pode ver o meu show e falar ‘Olha que inteligente’. Tem que ir no meu show e falar ‘Hahaha!’”

Com todo o tempo tomado pelo trabalho no Agora É Tarde, o humorista não conseguiu preparar um material adequado para a plateia da Virada. Mesmo assim, a multidão soltou muitos “hahahas!”. Ele pretende voltar aos palcos com piadas inéditas no próximo ano, antes das eleições. Pelo menos cumpriu com sua linha de raciocínio ao fazer piadas sobre tudo: o prefeito Fernando Haddad, Roberto Carlos (“Tem problema de TOC, quando anda faz ‘toque, toque, toque’”) e como se sentiu ao ver a mãe dele transando com o pai. Guiomar, a mãe de Danilo, estava na plateia e riu com gosto – o pai dele, técnico de máquina de escrever, morreu de ataque cardíaco e a única irmã de Gentili morreu seis meses depois, em um acidente de trânsito. Ao se lembrar da piada sobre Roberto Carlos, ele explica melhor sua filosofia: “Esses comediantes do mainstream são muito vaidosos. Para serem convidados para a primeira fila do show, mandam um abraço para o Roberto Carlos em vez de falar que ele tem perna de pau.”

Claro, nem tudo é tão simples em uma briga que envolve muitos rounds. Se a gente fosse listar os contextos, as respostas de Gentili e as réplicas de todas as suas discussões, teríamos que transformar esta edição da Rolling Stone Brasil em um especial “Gentili x Jean Wyllys, Gentili x Bruno Mazzeo, Gentili x judeus de Higienópolis” e mesmo assim, faltaria papel. “Aqui a pessoa pode fazer, mas não pode falar. Não posso falar ‘cu’ na TV. Mas, se durante o Carnaval eu quiser ir na Rede Globo e mostrar minha bunda, rebolando, tá tranquilo”, argumenta, ao lembrar dos conflitos. “Foram duas piadas pontuais em que fiz merda [a do King Kong e a dos judeus]. E é óbvio que vai acontecer de novo. E não vou me policiar por causa disso. Só queria fazer as pessoas rirem e aí falam que você é nazista e recebo e-mail dizendo que tenho de morrer, ser estuprado. Eu só queria fazer rir.” Ele já fez terapia e tomou antidepressivos por quase um ano – foi diagnosticado com distimia, um tipo de depressão –, mas por causa de problemas pessoais, nunca porque foi acusado de fazer uma piada ruim.

Ele continua a explicação sobre como decide quando é a hora de rebater: “É um lugar muito específico do meu saco que o cara tem que tocar para eu responder. É quando percebo que está indo para o discurso de merda. A questão não é falar que sou sem graça. A questão é falar que não posso fazer essas piadas. Isso me faz responder, porque fere um dos valores que mais prezo desde sempre: a liberdade de falar”. Para Danilo Gentili, só existe um tipo de piada errada: aquela da qual ninguém ri.

Ele finaliza o discurso com outra analogia, talvez mais condizente com os tempos atuais, já que o boxe perdeu glamour: “Aconteceram outras vezes. Mas é igual ao kung-fu. O cara fica dando bambuzada na sua perna até que você não sente mais”. Mas Gentili faz isso para quê? Pela nobreza de fazer os outros rirem? Ele se explica: “Tem comediante que quer ser o bobo da corte; comediante que quer falar porque quer falar; comediante que tem a pretensão de derrubar alguma coisa. Eu quero falar porque particularmente não gosto do que o governo faz, por exemplo. É sincero pra mim. Mas não é porque quero ser o Che Guevara dos comediantes. Com sinceridade, as coisas podem acontecer.” Alguém interrompe e convoca Gentili para fazer os agradecimentos finais da noite. Enquanto sobe as escadas do palco, ele dá soquinhos no ar. Se isso fosse um filme, tenho certeza de que nesse instante o tema de Rocky (a música “Gonna Fly Now”) começaria a tocar, os créditos subiriam e veríamos a palavra “Continua”.