A Hora de Escapar

Na Síria, apenas um número cresce mais rápido que o de mortos (110 mil): o de refugiados. Desde o início dos conflitos na região, mais de 2 milhões de pessoas já fugiram em busca de proteção em países vizinhos

Leandro Prazeres Publicado em 11/10/2013, às 12h01 - Atualizado às 14h17

SEM DESTINO
Crianc?as si?rias sa?o carregadas pelos pais no campo de refugiados Zaatari, na Jorda?nia, em janeiro. Superlotado, o local atualmente abriga 130 mil pessoas

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Em uma pequena sala comercial de um edifício em Al Mafraq, a cerca de 10 quilômetros da fronteira com a Síria, Hana, 15 anos, e Lana, 13, tentam superar traumas. Elas viviam em um vilarejo próximo a Daraa, no sul da Síria, quando tropas leais ao presidente Bashar al-Assad tentaram tomar o controle da região. Hoje, as irmãs são só duas dos mais de 519 mil sírios refugiados na Jordânia, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Para efeito comparativo, a Jordânia tem uma população de 6,5 milhões de habitantes. Após seis meses vivendo no país vizinho, Hana e Lana aceitaram participar de sessões de terapia oferecidas pela ONG International Rescue Committee (IRC), que oferece tratamento psicossocial para vítimas do conflito. É ali que os horrores da guerra ganham voz e lágrimas.

“Decidimos vir embora no dia em que encontramos aquela menina”, conta Salma, 35, mãe de Lana e Hana. “Ela tinha uns 5 anos e morava no nosso vilarejo. Passamos um dia inteiro procurando por ela, mas não havia rastro. No dia seguinte, encontramos o corpo, mas apenas o corpo. A cabeça havia sido decapitada. Reconhecemos ela pelas roupas.”

Para compreender o drama dos refugiados da Guerra da Síria é preciso entender a dinâmica do conflito. Em março de 2011, a onda de protestos no Oriente Médio, conhecida como Primavera Árabe, chegou à Síria, depois de destronar o presidente da Tunísia, Zine el Abdine Ben Ali, o ditador egípcio Hosni Mubarak e o ditador líbio Muamar Kadafi. Bashar al-Assad é o líder da Síria desde 2000, após a morte do pai, Hafez al-Assad, que governava o país há algumas décadas. A Síria tem 21 milhões de habitantes e é uma nação majoritariamente islâmica, com uma considerável comunidade cristã. Os dois principais grupos islâmicos são os sunitas e os xiitas, mas o país é política e economicamente controlado pela minoria alauíta (da qual Assad faz parte), uma seita islâmica derivada do xiismo, que não defende um estado islâmico. Apesar de Bashar al-Assad ter introduzido algumas reformas econômicas e políticas no início do mandato, o regime prosseguiu sempre marcado pela repressão.

Quando os protestos de 2011 começaram, a Síria rapidamente se viu dividida entre facções rebeldes e tropas leais a Assad. Hoje, o conflito é tão complexo que ameaça se espalhar por países vizinhos. O Hezbolah, grupo terrorista com participação intensa na vida política do Líbano, se aliou a Assad e tem sido um dos responsáveis pela retomada de áreas antes sob controle dos rebeldes. Os rebeldes, por sua vez, têm o apoio de jihadistas da Al Qaeda. Agravando a situação, no início de 2013 surgiram as primeiras evidências do uso de armas químicas durante o conflito. E, em agosto, um ataque com gás sarin atribuído ao regime de Assad teria matado centenas de pessoas na periferia de Damasco. As potências do Ocidente (Estados Unidos, França e Reino Unido) apoiam uma intervenção militar, mas a iniciativa é bloqueada pela Rússia e pela China, tradicionais aliadas do regime sírio. É fugindo desse conflito que mais de 2 milhões de pessoas estão procurando abrigo em nações próximas, como Líbano, Jordânia, Turquia, Egito e Iraque. E ainda há cerca de 4 milhões de pessoas desabrigadas dentro da Síria que não conseguem escapar.

A psicóloga Neda, filha de refugiados palestinos, é quem conduz a sessão de terapia da qual Hana e Lana fazem parte. O clima é festivo, com bolos confeitados, suco e cânticos. As meninas, usando a tradicional veste preta que lhes cobre o corpo, exceto o rosto, exercem a vaidade na escolha das cores dos véus – azuis, verdes, amarelos. Sentadas em roda, conversam como se o conflito não estivesse ali, a alguns quilômetros de distância, e dentro de cada uma delas.

A maioria dos refugiados sofre de alguma espécie de estresse pós-traumático causado pelas experiências vivenciadas no conflito ou pela tensão de recomeçar a vida em outro país de forma tão abrupta. “Os principais sintomas que a gente identifica são insônia, ansiedade, irritabilidade, mutismo”, explica Neda, descrevendo o processo. “Primeiro você vivencia o horror. A guerra acontece no seu quintal. Seus amigos morrem, seus parentes morrem. Você vê seu país ser destruído. Aí sua família decide deixar tudo e buscar proteção em outro lugar. A decisão é traumática. Então começa a viagem, cheia de perigos. Você enfrenta a morte de novo. E, quando chega ao local de refúgio, começa outra batalha. É preciso reiniciar a vida em um país que normalmente não quer você lá.”

À medida que a comunidade internacional não se entende sobre o que fazer diante da crise da Síria, países como a Jordânia têm lidado com parte das consequências. A nação desértica, cujas maiores fontes de renda são o turismo e o dinheiro enviado por expatriados, tem hoje o segundo maior campo de refugiados do mundo, o Zaatari. A pouco mais de uma hora de carro da capital, Amã, o local é mais um ícone da complexidade dessa guerra: para os sírios, representa uma mistura de sentimentos que vão da sensação de proteção ao sofrimento; para os jordanianos, o Zaatari é o retrato de um fardo cada vez mais difícil de carregar. Com mais de 130 mil pessoas, a área foi originalmente criada para abrigar apenas 100 famílias. “É uma espécie de reserva para o caso de um agravamento do conflito na Síria”, diz Andrew Harper, chefe da missão do Acnur na Jordânia. Atualmente a entidade está construindo outro campo, a poucos quilômetros dali, com capacidade para mais 130 mil refugiados.

De longe, ainda na estrada, é possível ver o amontoado de tendas brancas onde os refugiados se abrigam do sol. Durante o verão, a temperatura chega facilmente aos 45 0C. A umidade relativa do ar é baixíssima e o acesso a água só é feito por meio de caminhões-pipa. A área, equivalente a 777 campos de futebol, é controlada por soldados do Exército jordaniano, que não deixam ninguém entrar ou sair sem autorização. Do lado de dentro, cercas de arame farpado separam os escritórios das organizações não governamentais e as agências da ONU do restante dos abrigos. Nas pequenas avenidas criadas entre um setor e outro, a tensão é latente. Homens, mulheres e crianças tentam comercializar mercadorias contrabandeadas por jordanianos. Estima-se que haja em torno de três mil estabelecimentos comerciais no Zaatari. O vento do deserto espalha um cheiro de poeira e fritura saído das tendas onde se vende falafel e kebab.

Na medida do possível, a vida parece correr normalmente no Zaatari. Crianças vão às escolas criadas por ONGs internacionais e pelo Unicef. Doentes recebem, ainda que precariamente, atendimento de organizações como Médicos sem Fronteiras e Médicos do Mundo. “O clima está ficando cada vez mais tenso. Os refugiados estão ficando nervosos com esse confinamento e com as condições em que estão vivendo, por isso evitamos o contato direto”, ressalta uma funcionária da IRC. Há alguns meses, ela conta, uma equipe que caminhava pelo campo foi atacada por refugiados insatisfeitos com a quantidade de comida distribuída no local. “Isso está fugindo do controle”, diz.

Os ataques às equipes não são o único perigo. À noite, quando apenas a Lua ou poucos holofotes iluminam as vias, as mulheres ficam em alerta. “Sabemos que houve alguns casos de estupro”, diz Harper, do Acnur. “Não temos como controlar, embora o governo jordaniano esteja patrulhando. Mas é uma situação extrema e infelizmente esse tipo de violência acontece em quase todos os campos de refugiados de que tenho conhecimento.”

Arame farpado, cercas e soldados armados dão a Zaatari um aspecto semelhante ao de um campo de concentração. A dúvida surge: os soldados protegem os refugiados do lado de dentro ou os jordanianos do lado de fora? A tensão entre os lados é crescente e, após os ataques químicos ao redor de Damasco, a tendência é de que o êxodo seja ainda maior.

“Temos um coração grande, mas não temos pão para todos. Eles estão tomando nossos empregos, bebendo nossa água. Não temos como tolerar mais”, diz, irritado, Ismail al-Dardour, dono de um restaurante no centro velho de Amã. Recentemente, a mídia jordaniana veiculou manifestações de Ghaleb al-Zoubi, ministro do Interior da Jordânia, mostrando que a paciência do país está chegando ao limite. (A reportagem tentou contatar o ministro, que não atendeu às solicitações de entrevista.)

“Em que pese os esforços da comunidade internacional, países como a Jordânia é que estão sendo penalizados pela crise”, diz Harper. “Por mais que tentem, os recursos são escassos e insuficientes. Eles têm feito um grande trabalho.” Tais declarações diplomáticas são estratégicas. Com a economia mundial em crise, a ajuda dos tradicionais parceiros (Estados Unidos e União Europeia) está minguando. Dos US$ 4,4 bilhões que a ONU pediu em doações para lidar com a questão da Síria, apenas US$ 1,2 bilhão foi obtido até agora.

Sentados no chão frio do apartamento emprestado em que vivem, na cidade de Ramtha, Saif, 52 anos, e Amira, 41, se entreolham como se sentissem pena um do outro. Em meados de 2011, meses após o início das manifestações contra Assad, o casal retornava para casa quando jatos da força aérea síria iniciaram um ataque. Um míssil atingiu um prédio vizinho e os destroços caíram sobre a residência dos dois. Quando acordou no hospital, Saif perguntou o que havia acontecido com a perna, que doía bastante.

“Eles disseram que eu tinha perdido parte da perna esquerda. Perguntei o que havia acontecido com minha esposa. Falaram que ela estava viva, mas também ferida. Ela perdeu a mão esquerda”, conta. Assim que se recuperaram, o casal e os cinco filhos empreenderam viagem rumo à Jordânia. Hoje, vivem do que o mais velho, de 12 anos, consegue obter trabalhando como engraxate ou carregador de mercadorias. “Eu sempre trabalhei para meus filhos. Agora só comemos o que nos dão e o que meu filho consegue comprar”, fala Saif.

“Que futuro você acha que a gente pode ter?”, indaga Amira por debaixo do véu preto que lhe cobre o rosto. “A única coisa que queremos é voltar para a nossa terra, mas está cada vez mais difícil. Perdi minha mão, meu marido perdeu a perna, perdemos tudo. Nem que a guerra acabe, vai ser difícil voltar.”

Após mais de dois anos de conflito, o sentimento geral é de que estamos diante de uma crise longe de terminar. Entretanto, os acenos de uma intervenção militar norte-americana na região despertam mais dúvidas do que certezas. “A gente não sabe quem é a oposição, quem são seus líderes. Caso não haja um acordo entre oposição e governo, seria melhor que a comunidade internacional lidasse com algo que ela conhece do que com algo que ela desconhece”, diz Davide Terzi, da Organização Internacional para Migração (OIM), instituição ligada às Nações Unidas. “Mesmo se a guerra acabasse amanhã, ainda teríamos de lidar com os refugiados por muitos anos.”

Indistintos dos milhares de feridos e refugiados que a Guerra da Síria já produziu, Saif e Amira talvez sejam o mais fiel retrato do país. Amputados, jamais serão os mesmos. Assustados, relutam em voltar. Rejeitados, dependem de um milagre em uma terra tão acostumada a tragédias.