Na Terra dos Sonhos

Para Bob Burnquist, andar de skate é como fazer música: o limite está na criatividade

Lucas Reginato Publicado em 11/10/2013, às 13h30 - Atualizado às 14h16

CASEIRO
Na rampa particular no quintal de casa, em Vista (Califo?rnia)
Jamie Mosberg

Mesmo que permaneça sendo um dos maiores ícones do skate mundial, Bob Burnquist insiste em querer surpreender. No vídeo Dreamland, o esportista de 37 anos, nascido no Rio de Janeiro, mostra novidades de sua megarrampa particular, instalada no quintal da casa onde mora, na Califórnia, e faz os espectadores prenderem a respiração ao voar alto com novas manobras e até interagir com um helicóptero no ar.

O novo vídeo é bem impressionante. De onde saem essas ideias?

É o meu dia a dia. Eu acabo com um projeto desse e inicio outro – o último desse tamanho foi em 2010 e, desde então, eu não sabia necessariamente que estava fazendo este. Eu vou andando e filmando porque, na verdade, quando quero aprender algo novo, filmo. Comecei a reunir um monte de manobras e montar esse projeto – o Dreamland, filmado no quintal da minha casa e tentando uma evolução técnica da megarrampa. O tempo vai passando e você pensa: “Pronto, vou lançar agora”. Mas você sempre quer esperar um pouco porque tem mais manobra para acertar.

Nesse vídeo você utilizou um helicóptero. Como foi isso?

Eu sou piloto também: de avião desde 2005 e de helicóptero há três anos. Como estava interagindo bastante com a galera do voo, do paraquedas, acabei usando ideias com essas habilidades. Depois que virei piloto e paraquedista, tive ideias que misturaram tudo. Foi para tentar fazer algo novo e acertar um monte de manobras diferentes. O [skatista norte-americano] Danny Way também já tinha feito algo com helicóptero antes.

Até por ser um esporte relativamente novo, parece que ainda não se chegarou aos limites do skate. Ou não há limite?

Não tem limite, não tem como, porque é igual música: tem a ver com criatividade. O limite está em você, no que você entrega. O corpo humano tem uma certa fragilidade, uma realidade. Se eu cair de um prédio de dez andares, vou me quebrar inteiro. Mas, se eu colocar um paraquedas, tiver uma rampa para me receber, não me quebro – eu me divirto. A diferença é você saber qual é a realidade, entender essa fragilidade do corpo e avançar até o máximo que puder.

Você tem uma relação bastante estreita com a música. Ainda tem banda?

Não tenho tempo. Estou sempre tocando, gosto de violão clássico, bateria, percussão. Eu tive a banda Escalera com o Danny Way, chegamos a fazer 20 shows nos Estados Unidos e até abrimos para o Ziggy Marley uma vez, em Santa Mônica. Eu tocava percussão, a gente lançou o álbum, e, na verdade, isso foi como mais uma manobra nova para mim. Eu nunca tinha feito um álbum e quis fazer. Depois fazíamos os shows e conciliamos a agenda com os campeonatos, mas não consegui fazer direito nem um nem outro. Aí obviamente decidi focar na minha carreira de skate e a música ficou para quando estou em casa. Tenho uma bateria lá, e, como tenho a pista, o pessoal se reúne, anda de skate e faz um som. A minha onda ultimamente tem sido aprender as músicas do Ben Harper. Tocar e cantar – é difícil para caramba. O Ben aprendeu uma manobra e mandou o vídeo para mim, eu mandei a música para ele. A gente está nessa de eu aprender música e ele aprender manobra de skate.

É do Ben Harper a trilha sonora do Dreamland, certo?

?É, exatamente. Ele é a trilha sonora da minha vida. Sou fã há muitos anos e me relaciono muito com a música dele. Tenho essa pegada um pouco mais light, um lance mais espiritual. A música dele realmente mexe muito comigo, e casou direitinho com as manobras. O vídeo tem muito slow motion, muita imagem impressionante e devagar. Cada manobra é quase como uma prece, um agradecimento. Então, acho que coube bem juntar os dois.

Tem noção de quanto sua vida é invejada?

Tenho e sei o quanto eu sou abençoado por vivê-la. Porque eu sonhava em ter essa vida, e, se sonhava, sei que a maioria dos skatistas – se não todos – sonha. Eu vivo do skate, viajo com skate, sou profissional, tenho uma rampa. Tem o lado ruim, mas tem muito mais o bom.

Você sente orgulho do que construiu no skate?

Claro! Sou satisfeito, mas sempre quero evoluir mais. Não é que cheguei e fiquei acomodado. Lógico que a gente sente orgulho, porque sei o que é. Cada vez que passo pelo Brasil, vejo a molecada sonhando e me vejo lá atrás, naquela época quando tinha a idade deles. Toda a trajetória que percorri não é pouca coisa, e nunca tive um plano. Fui vivendo e sendo feliz em cima do skate – as coisas foram acontecendo como consequência. É emocionante e tenho orgulho de tudo.