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Com a MTV brasileira sendo reformatada na TV paga, ex-VJs da emissora antiga migram para o YouTube

Carol Nogueira Publicado em 20/11/2013, às 14h15 - Atualizado às 14h15

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1. Gastão, Picolli e Araujo, do Heavy Lero;

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A MTV Brasil como conhecíamos pode até ter chegado ao fim em setembro, mas boa parte dela permanece viva – no YouTube. Há meses, ex-VJs recentes e antigos da emissora vêm criando programas para a internet, em formatos, inclusive, bastante similares aos que eram exibidos no canal desde 1990. Alguns deles até fazem o papel que a própria MTV havia deixado de cumprir já há alguns anos: o de falar sobre música.

Sob nova direção, MTV reestreia no Brasil de olho no público jovem e abandonando tradições.

É o caso do canal Heavy Lero, comandado pelo ex-VJ Gastão Moreira – que apresentou programas como o Gás Total, na década de 90 – e o jornalista Bento Araujo, editor da revista Poeira Zine. Com direção e edição de Edgard Piccoli, outro ex-VJ da emissora (onde apresentou, entre outros, o Jornal da MTV), o programa tem como pauta o rock and roll – missão que seria ingrata na televisão hoje, dominada por Naldos e Anittas, mas que parece se encaixar perfeitamente no entretenimento de nicho proporcionado pela internet. O primeiro episódio teve mais de 8 mil visualizações em uma semana. “Fazemos o programa que gostaríamos de assistir”, conta Moreira. Segundo ele, a ideia é fazer uma atração para “iniciantes e iniciados”. “Queremos ressaltar artistas interessantes, que produziram música sem prazo de validade”, afirma. “É de fã para fã. É como um fanzine em formato de vídeo”, compara Araujo. “A presença de Gastão e de Edgard também remete o público aos ‘anos dourados’ da MTV, quando a emissora tinha música como prato principal. Aliás, não só música, mas também informação de qualidade sobre música.”

Também segue pela linha de “iniciantes e iniciados” o Gato & Gata, criado por Gaía Passarelli e Chuck Hipolitho – ambos da última leva de VJs da MTV. Eclético, o canal tem de vídeos sobre grupos populares, como É o Tchan e Mamonas Assassinas, a desconhecidos, como o californiano Dog Party. Gaía enxerga a diversidade como um “statement”. “A televisão me parece uma enorme zona cinzenta, onde só vale o que nivela por baixo. Na internet, rola falar de coisas desconhecidas. Mas, ao mesmo tempo, queremos mostrar que não falamos só de Zola Jesus”, explica.

Outro canal produzido por ex-MTVs aposta no humor. É o Amada Foca, cujos esquetes são estrelados pelos comediantes Bento Ribeiro, Bruno Sutter (o Detonator, ex-Hermes & Renato), Paulinho Serra e Daniel Furlan, todos ex-Furo e/ou Comédia MTV. Os episódios têm direção de Marcelo Botta e Gabriel Di Giacomo, que também trabalharam nos humorísticos da emissora. “Queremos ter total liberdade e resgatar um humor que não existe mais na TV no Brasil”, diz Botta. O canal também deve seduzir um público mais velho do que a “geração milênio”, o alvo da “nova MTV”, gerida pela Viacom.

O interesse de patrocinadores já existe. Criado em maio, o Amada Foca já tem mais de 76 mil assinantes e acabou de ser contratado pela rede hoteleira Accor para fazer comerciais. O sucesso lembra o de outro canal de humor bem-sucedido no YouTube, o Porta dos Fundos, que também já fez esquetes bancados por empresas. “Eles foram importantes. Abriram, digamos, a porta da frente”, brinca Sutter. A ideia do Amada Foca é fazer um humor despudorado. “O bom de não estar em uma emissora é falar o que quiser sem se preocupar com processo”, diz Serra. “Fora que a internet é mais democrática, você consegue viver de 5 mil fãs.”

Se antes fazer um canal no YouTube não trazia garantias, hoje os criadores sabem que um bom trabalho pode ser recompensado. “O humor já é algo grande no YouTube no mundo. Humoristas como o Ricky Gervais têm canais próprios”, explica Federico Goldenberg, gerente de parcerias do YouTube Brasil. “Aqui, está crescendo graças ao Porta dos Fundos, que atraiu mais patrocinadores. Hoje, esses vídeos rendem tanto para a gente quanto os de música.”

Além de produto final, os vídeos no YouTube também servem como plataforma de divulgação. A maioria dos produtores pretende levá-los para outras mídias, como a TV a cabo. O Amada Foca negocia exibir os esquetes na Netflix e planeja fazer shows ao vivo. O Heavy Lero também almeja algo maior na TV. “Mas sem nunca deixar a internet”, diz Gastão Moreira. Segundo apurou a reportagem, outros canais produzidos por ex-funcionários da MTV estão sendo desenvolvidos, e devem fazer parte de uma rede criada pela Editora Abril, a ex-administradora da marca musical no Brasil.