Edi Rock defende ida à Globo e ressalta que veio do rap de raiz

“Eu assisto à Rede Globo todos os dias, todo mundo assiste. Eu acho que falta um dos Racionais lá”, afirma o rapper

André Caramante Publicado em 15/11/2013, às 13h11 - Atualizado às 13h12

Edi Rock
Rui Mendes

Não é exatamente novidade Edi Rock (batizado Adivaldo porque o pai, baiano, queria que o único filho fosse diferente) fazer um trabalho solo. Ele, que neste ano lançou o disco Contra Nós Ninguém Será, iniciou a carreira musical sozinho, com a faixa “Tempos Difíceis”, na mesma coletânea em que o Racionais MC’s estreou com “Pânico na Zona Sul”.

O Racionais MC's estampa a capa da edição de aniversário da Rolling Stone Brasil. Leia aqui.

Na capa de Consciência Black - Vol.1 (1988), uma das primeiras compilações de rap nacional, Edi Rock aparece sozinho em uma foto; Mano Brown, Ice Blue e KL Jay, em outra. Com esse arranjo, o nome Racionais MC’s ficou sobre ambas as imagens.

“Mano, queria mesmo era gravar a minha música. Não podia deixar o meu som fora daquele disco. Era meu sonho de moleque”, diz Edi Rock, que já havia sido dançarino de break, sócio de KL Jay na equipe de som Bill Black, pagodeiro, sambista da escola Acadêmicos do Tucuruvi e office-boy, tudo antes de também ver um show do rapper norte-americano Kool Moe Dee e decidir que fazer rap seria sua profissão.

Era 1988 e Milton Sales, o responsável por juntar as duplas das zonas norte e sul de São Paulo que deram origem ao Racionais, os levava em seu Fiat 147 para a avenida Paulista e, em frente ao prédio da TV Gazeta, armava picapes, amplificador e caixas de som para fazê-los rimar em pleno horário de almoço. “O Milton ligava lá na Gazeta e os caras desciam correndo para nos filmar”, lembra Edi Rock, sorrindo. O mesmo pocket show também acontecia na rua 24 de Maio, centro de São Paulo, em frente ao prédio Grandes Galerias, point paulistano do hip-hop até hoje.

“Mas pensei em desistir muitas vezes. Ainda mais porque o meu grupo de pagode, o Doce Delírio, estava perto de gravar um disco e eu não queria pagar aquele veneno do rap. O Milton não nos deixou desanimar e por isso estamos juntos até hoje, 25 anos depois”, diz Edi Rock, que faz questão de ainda lutar contra problemas como o racismo, por exemplo. “Racismo é crime e ninguém que sofre esse tipo de crime, sem nenhum tipo de trocadilho, pode deixar passar em branco, tem mais é que denunciar mesmo. O racismo precisa acabar no Brasil”, declara o rapper, também chamado de “a voz forte da Zona Norte”.

Quando o Racionais conseguiu extrapolar a fronteira da periferia de São Paulo com o lançamento de Raio X Brasil (1993), disco com os hinos “Fim de Semana no Parque” e “Homem na Estrada”, veio o revés que abalou as estruturas de Edi Rock.

Era madrugada de 14 de outubro de 1994, período em que o Racionais fazia até seis shows em uma noite (o daquela seria no Aeroanta, à época uma famosa casa noturna da zona oeste paulistana), quando Edi Rock bateu seu Opala contra uma Kombi com oito pessoas da mesma família na marginal Pinheiros, perto do shopping Eldorado. O motorista da Kombi, Ozias de Oliveira, 21, morreu pouco depois de ter sido socorrido no Hospital das Clínicas. A mulher dele, Regina Vera Nascimento Oliveira, 17, grávida de dois meses, foi hospitalizada sem ferimentos graves.

“Aquele acidente foi um puxão de orelha para eu voltar para a realidade. Estava fora do chão, me achava demais, me achava o cara, que podia tirar a minha onda como quisesse. Era uma época em que era irresponsável”, ele relembra. “Aí a gente paga por nossos erros. Paguei pelo meu erro, comigo mesmo também. Foi perdida uma vida e a vida não é uma brincadeira. Hoje, sei que é importante curtir com sabedoria. A vida ensina a experiência, pelo amor ou pela dor. Levei isso por uns dois ou três anos. Continuei vendo a família [da vítima] nas audiências judiciais, me coloquei no lugar deles. Eram pessoas pobres de verdade e eles perderam o chefe da família, que iria ser pai.”

Edi Rock foi condenado a indenizar a família da vítima. “Mas a vida de uma pessoa não se resume a um valor”, reflete. “Paguei com o dinheiro que o grupo arrecadava com shows e me emprestava”, conta ele, pai de duas filhas universitárias, de 21 e 19 anos. A partir da morte de Ozias, o rapper fez o rap “A Vítima”, que está no álbum Nada Como Um dia Após o Outro Dia (2002).

Em 1999, já com o Racionais como sucesso nacional e ainda sob o impacto de Sobrevivendo no Inferno em todo o Brasil, Edi Rock lançou o EP Rapaz Comum II, com seis faixas – três com vocais e três com os respectivos instrumentais.

O novo Contra Nós Ninguém Será tem 23 faixas e 38 participações especiais, dentre elas Seu Jorge (na hipnótica “That’s My Way”), Marcelo Falcão e Alexandre Carlo (no reggae-rap “Abrem-se Os Caminhos”). Os parceiros de sempre também estão lá. Ice Blue e KL Jay participam em “Tá Na Chuva” e Mano Brown, ao lado de Helião e Lino Krizz, está em “Homem Invisível”, autêntico rap de raiz. “Não é fácil classificar meu disco, mas posso dizer que ele é a mistura de alguns dos meus gostos musicais com o rap de raiz, que é de onde vim”, diz Edi Rock.

Em uma conversa em agosto, Edi Rock adiantara que iria à TV Globo e que achava muito difícil que o Racionais vá à emissora um dia. “Muitos dos ‘nãos’ que nós dissemos ao longo desses anos foram importantes para manter a solidez e o respeito que o grupo tem hoje. Racionais é um grupo, eu sou eu, Edi Rock, do jeito que fui e do jeito que sou, seguro a minha onda. Não preciso mais mostrar nada para ninguém. A não ser meu trabalho, a minha mensagem, sem fronteiras. Vou apavorar [na Globo] e será a revolução do rap, tem que ir nela e em todas. A minha mensagem não será vendida, estou indo para mostrar minha ideia, não sou corruptível, não estou levando milhões”, diz o rapper, que foi ao “Caldeirão do Huck” e ao “Esquenta”.

Quando digo que Adivaldo se formou Edi Rock sem a TV Globo, o rapper respondeu “não” e riu. “Eu assisto à Rede Globo todos os dias, todo mundo assiste. Eu acho que falta um de nós [do Racionais] lá”, disse o rapper, que também citou o Altas Horas, de Serginho Groisman, como um outro bom programa para mostrar seus raps ao Brasil.

“Quero curtir/ Quero viver / Quero amar/ Pilotando minha caranga prata, sim, eu vou colar/ Da Norte à Leste/ Da Sul à Oeste/ Na paz investe/ Rap é um teste, ninguém se mexe/ Eu quero cash/ Minha gata, uísque, flash/ Consciência, não se avexe/ Quem rege a orquestra é o maestro chamado John Neschling/ E.D.I., igualzim, faz o som de preto ficar gravão e tocar assim, pra você e pra mim/ Pro bang não chegar ao fim/ Uma gangue sem sangue/ Do sul ao irmãos do Mangue/ Onde quer que eu ande com os parceiros ou mesmo sozinho/ Eu trago a paz, muito amor e luz pelo caminho”, canta Edi Rock em sua “Gangstar”, um dos exemplos possíveis sobre como o rapper rima a vida hoje.

Leia perfis dos outros integrantes do Racionais MC's nos textos relacionados abaixo.