Irmãos Remendados

O Kings of Leon já foi a maior banda do mundo – até tudo desabar. Será que os novos azarões do rock vão conseguir recuperar o posto?

Patrick Doyle | Tradução: J.M. Trevisan Publicado em 06/12/2013, às 11h32 - Atualizado às 11h38

EM FAMÍLIA
(A partir da esq.) Os quatro Followills – o baixista Jared, o baterista Nathan, o guitarrista Matthew e o vocalista Caleb – no estúdio deles, em Nashville
David McClister

‘‘Preciso de um analgésico agora”, resmunga Caleb Followill em uma voz rouca e arrastada. Em um fim de tarde de garoa fina em Londres, o líder do Kings of Leon está sentado no bar do hotel cinco estrelas onde a banda está hospedada, o rosto de lenhador cansado – ele e os companheiros estão na cidade para divulgar o recém-lançado disco Mechanical Bull. “Pulei do alto daquela porra de iate de novo.” O acidente aconteceu há algumas semanas, durante uma folga entre shows, quando a banda resolveu dar uma festa no cintilante mar Mediterrâneo. “Duas da manhã, tudo escuro, eu bêbado. Caí de bunda na água. Já faz uma semana que não consigo sentar ou ficar em pé.” Ferimentos provenientes de festas de arromba são ossos do ofício para o grupo, que volta a excursionar depois de uma pausa de dois anos, a maior em uma década. Na última vez que entraram em turnê, o Kings era a maior banda do mundo, lotando estádios apoiados por sucessos como “Use Somebody” e “Sex on Fire” de Only by the Night, (2008, vencedor do Grammy). Muitos esperavam que o seguinte, Come Around Sundown (2010), levasse o grupo mais longe. Mas o álbum vendeu pouco – 731 mil cópias, um terço do anterior. “Fiz aquele disco quase que por obrigação”, diz Caleb. A banda terminou a turnê antes do previsto, cancelando 26 datas.

Naquela tarde, os Followill (três irmãos e um primo) relaxam depois de um dia de sessões de fotos e entrevistas em um dos restaurantes favoritos deles, o badalado Scott’s. “Você vem e no fim nem precisa pedir nada”, diz o cabeludo baterista, Nathan Followill, comendo um pouco de tudo. Eles falam sobre a Inglaterra, onde a banda faz um sucesso enorme desde que o empresário deles conseguiu agendar espaço em festivais ao lado de Interpol e My Morning Jacket, em 2003. “Tocamos, e essas bandas já estabelecidas nos viram como uma ameaça – adoramos a competição”, diz Caleb. Nathan acrescenta: “Foi a primeira vez que sentimos o gostinho da devassidão do estilo de vida rock and roll”. Nos anos seguintes, os rapazes ganharam a reputação de banda mais baladeira da estrada. “Estive no olho do furacão por um tempo”, conta Nathan, relembrando certo Réveillon no meio dos anos 2000. “Eu, Caleb e Nacho” – primo dos irmãos e técnico de guitarra – “fomos a Nova York e decidimos: ‘Vamos cheirar tanta cocaína que ou vamos morrer ou vamos sobreviver e nunca mais fazer isso’. A gente se enfiou em um apartamento. Vinha um cara fazer entregas três vezes por dia. Quando voltamos para casa, nossa mãe começou a chorar, porque estávamos magros e pálidos”. Caleb para de mastigar, olhando incomodado para o irmão. “Vamos dar uma melhorada no clima, pode ser?”, ele diz.

Quando terminou Sundown, a banda se sentiu esgotada e dividida sobre a quem agradar. “Eu dizia: ‘Temos de tentar compor mais uns hits, senão vamos ficar parecendo banda de um sucesso só’”, explica o guitarrista Matthew Followill, primo dos outros três. “Era só Matthew dizer a palavra ‘rádio’ e Caleb ficava puto”, acrescenta Jared, o baixista. A turnê não foi muito melhor; os quatros viajavam em ônibus separados. “Tocamos o mesmo set list por três anos porque não queríamos nos dar o trabalho de mudar”, revela Jared. “Só nos divertíamos no palco. Todo o resto era uma merda.”

O ponto mais baixo foi em 29 de julho de 2011, durante um show em Dallas. Um jornal local descreveu que Caleb gritava com a equipe para que trouxessem toalhas e água entre as performances irregulares. Depois de 40 minutos, ele ergueu os braços e anunciou: “Estou casado com a garota mais linda do mundo. Vou para o backstage vomitar, tomar uma cerveja e volto para cantar mais três músicas”. Ele não voltou, mas Jared e Matthew, sim. “Não é nossa culpa, mesmo. É do Caleb”, disse Matthew. Jared acrescentou: “Fiquem com ódio dele, não da gente” (hoje, Jared conta que “foi exatamente isso o que o empresário nos recomendou a dizer”). O baixista também tuitou: “Não vou mentir. Há problemas bem mais sérios na nossa banda do que não beber Gatorade o suficiente.”

Caleb acordou no ônibus no dia seguinte, surpreso por estar de volta a Nashville, mandado para casa pelos empresários. “Eu não sabia que era tão sério”, diz ele. “As pessoas vão dizer que foi a bebida, mas elas não têm nem noção do quanto eu estava bebendo na época. Acho que meu corpo simplesmente desistiu e disse: ‘Você tem de parar tudo e descansar’.” Ele afirma ter ficado cego de raiva por causa dos comentários feitos pela banda. “Estava puto pra caralho”, conta. “Peguei um avião para Nova York e pensei: ‘Fodam-se eles’, você sabe como é. E isso machuca.”

Se quiser arrancar um sorriso dos rapazes do Kings, é só perguntar sobre o ano que passaram em férias. “Lembro de acordar, olhar pela janela e não conseguir parar de sorrir”, diz Matthew, que não tocou guitarra por seis meses (ele também usou esse tempo para ficar sóbrio). Nathan diz que jogou 186 rodadas de golfe; Jared conta que se masturbou assistindo ao site Tube8 por 30 dias seguidos até ficar entediado e resolver lançar um EP com o projeto paralelo Smoke and Jackal. Enquanto isso, Caleb trabalhou, secretamente, em músicas novas. “Houve uma fase de recuperação”, diz ele. “Tive de perdoá-los pelo que eu considerava uma traição. E eles tiveram de se recuperar também, de anos e anos em que fomos muito duros uns com os outros e de egos cada vez mais inflados. Eu disse: ‘Estou fazendo umas músicas. Mostro quando vocês estiverem prontos’.”

Em janeiro, os quatro se encontraram no novo estúdio deles, em Nashville, para ver se conseguiam fazer música de novo. A primeira que Caleb mostrou foi “Beautiful War”, uma balada composta na mesma semana em que escreveu “Use Somebody”. “Ficamos tipo ‘Caralho’!”, diz Nathan. Faixas como “Rock City” e a funkeada “Family Tree” vieram em seguida. Caleb – que certa vez atacou os fãs mainstream da banda e chamou “Sex on Fire” de “monte de merda” – estava empolgado como não ficava havia anos.

“Naquela época, estávamos tentando fazer algo memorável”, revela Caleb. “Agora, estou tentando fazer algo de que minha filha se orgulhe. Um dia, espero ainda estar por aqui, mas se eu não estiver, ela irá dizer: ‘Meu pai era cool pra caralho’.”