Livre, Leve e Solta

Laerte refletiu, descobriu-se e mudou de vida. Agora, aos 62 anos, sonha com um mundo mais diverso

Diego Assis Publicado em 05/12/2013, às 16h56 - Atualizado às 17h00

Laerte na Rolling Stone Brasil

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A despeito do que dizem os homens sobre as mulheres, Laerte Coutinho não se atrasou para o encontro marcado em um café do bairro paulistano de Pinheiros, no início de uma tarde quente de outubro. Pelo contrário, chegou adiantada. “Já estou aqui”, me avisou por um torpedo, 45 minutos antes do horário combinado. Confundiu-se com o horário de verão, na certa, imaginei. Mulheres são geralmente avessas à tecnologia, não costumam se ligar em detalhes, como alterar a hora no celular quando chega o horário de verão... Antes que terminasse o pensamento, recebo outra mensagem. “Eu é que me liberei antes. Não precisa voar.”

Chego ao restaurante sem almoçar. À paulista, trocamos um só beijo no rosto e vou logo pedindo uma coxinha. Sentada na varanda, do lado de fora do café, Laerte veste saia e uma blusa regata de algodão cru, com rendas no decote e nas alcinhas. Usa maquiagem discreta, batom vermelho e as unhas bem pintadas. O pescoço e os pulsos estão decorados com adornos de pedras coloridas. Os cabelos, que deixa crescer há três anos, estão longos e jogados com displicência sobre o lado esquerdo do ombro – lembra um pouco aquela famosa índia dos adesivos de caminhão, que Laerte apelidou de Jurema e adotou como imagem do avatar de dois dos blogs pessoais que mantém na internet.

Preocupado que os minutos estavam contando – depois de sete meses tentando marcar o encontro, eu conseguira convencê-la a me conceder algumas horas da disputada agenda –, coloco à mesa o tablet com a pauta da entrevista e me ponho a testar o microfone. “Aqui está bom para você? Quer tentar lá dentro?”, Laerte sugeriu. De fato, o barulho de carros atrapalharia a gravação. Reacomodados no interior do café, ligo o gravador e, em um cacoete indelicado da profissão, emendo: “Diga o seu nome e a idade, por favor.”

“Eu sou Stéphane Mallarmé. Tenho cento e tantos anos...”, Laerte, 62, reage, transformando minha grosseria em piada.

Após nova troca de mesa – agora provocada pelo som ensurdecedor da cafeteira –, um pedido de abraço de fã e um novo teste do gravador, decidimos mudar o local da entrevista. “Minha tolerância a ruídos tem sido baixíssima. Como as pessoas se acostumaram a conviver com todo esse barulho?”, ela reclama, sem afetação. Cruzamos a rua em busca de silêncio.

Laerte está agora à minha frente, acomodada em um sofá de couro do restaurante do Edifício Tomie Ohtake, bebendo suco de abacaxi com capim-santo. Parece mais serena e sorridente do que em nosso último encontro, em fevereiro, quando se dizia exausta com um problema de saúde em casa – prestava assistência a uma gata de rua que fora baleada e perdera os movimentos traseiros. Resolvo não introduzir o assunto antigo para não quebrar o clima. Ao nosso lado, um casal de idosos almoça tranquilamente, sem notar a presença da celebridade que, nem tanto tempo atrás, circulava pela cidade de calças jeans, camisas masculinas, cabelos cortados rente à cabeça e a barba por fazer. E um brinquinho de argola na orelha esquerda.

Foi em setembro de 2010, em uma entrevista para a revista Bravo, que Laerte falou pela primeira vez publicamente sobre o então novo hábito de se vestir com roupas e acessórios de mulher, o crossdressing. “É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres?”, questionava-se à época.

De lá para cá, o termo crossdressing deixou o vocabulário restrito a comunidades secretas na rede e insiders do mundo gay e invadiu, sem pedir licença, a sala do brasileiro com acesso a jornais, revistas, internet e televisão aberta. De repente, todos queriam saber “o que aconteceu” com Laerte, que deu provavelmente mais entrevistas para falar sobre a tal transformação do que em toda a bem-sucedida carreira de quadrinista – são seis troféus HQ Mix, o Oscar brasileiro dos gibis, e um prêmio Ângelo Agostini de “mestre do quadrinho nacional”.


“Eu estava pouco disposta a construir outra blindagem, sabe?”, Laerte conta, já bem acostumada a referir-se a si própria no feminino – ao contrário de mim, que ainda me policiava na hora de definir os artigos e os pronomes durante o encontro. “Escolhi não viver a minha homossexualidade por décadas. Não tinha mais como não ser eu.”

Laerte já disse em entrevistas que teve a primeira relação sexual aos 17, com um homem. Vivia ainda com os pais e três irmãos em um ambiente de classe média em Alto de Pinheiros, São Paulo, e, sem coragem de enfrentar tabus, decidiu suprimir o desejo. Casou três vezes e teve três filhos. “Casei... por quê? Por pânico! Não é que eu não tenha prazer ou não tenha tido nenhum tipo de desejo por mulheres. É que eu estava vivendo um estado de negação permanente. E fui bem-sucedida durante muito tempo”, explica.

Quase 40 anos mais tarde, foi um de seus próprios personagens quem convidou Laerte para uma caminhada no lado selvagem da vida. Criado no caderno de informática da Folha de S. Paulo para tratar das desventuras do homem moderno nos primórdios da internet, Hugo Baracchini se tornou um alter ego do autor, até que, certo dia e sem maiores desculpas, resolveu se travestir. Passou batom, depilou as pernas, botou uma peruca e saiu à rua, toda vaporosa, soltando ali o balãozinho talvez mais reprimido na vida por Laerte: “Às vezes, um cara precisa se montar, ué!” Um leitor, também crossdresser, identificou o desejo na tirinha e instigou Laerte a conhecer mais sobre esse universo.

Dias depois, ele já tinha secretamente comprado calcinhas, sandálias de salto alto e vestido. Só faltava a coragem. Era 2004, e o artista atravessava um momento de profundas revisões pessoais e também profissionais. Abandonava personagens consagrados e as tiras nos jornais entravam em uma fase mais hermética ou filosófica – termo que ele refuta. “O que é filosófico? O humor é sempre uma reflexão. Nesse sentido, qualquer tira do Garfield é filosófica. Qualquer tira do Hagar propõe uma reflexão”, provoca.

À revelia de muitos fãs, que achavam que Laerte estava pirando ou apelando para o nonsense, ele entrou de cabeça na renovação das tiras diárias, buscando romper com fórmulas, traços e artifícios cômicos em que não estava mais interessado. Até que a morte do filho Diogo em um acidente de carro, aos 22 anos, o fez brecar, mais uma vez, o movimento de transformação. “Nesse momento, pensei em desistir seriamente do que estava fazendo”, conta. “Não, eu não vou fazer mais nada. Vou ficar quieto, deitado no chão, olhando para o teto, esperando a morte chegar.”

Aos poucos, Laerte foi retomando o trabalho. As experimentações nos quadrinhos continuaram e vieram acentuando-se até hoje. Mas a lingerie e os saltos altos ficariam guardados no armário por mais algum tempo.

A primeira vez em que Laerte se montou foi em 2009. O local, um salão de beleza da região do Arouche comandado por Dudda Nandez, oferece roupas, perucas, maquiagem e privacidade para os crossdressers se vestirem e se verem como pessoas do sexo oposto. “O momento em que me vi totalmente depilada na frente do espelho foi emocionante. Foi como me ver pela primeira vez. É mais do que um prazer, é quase um êxtase. Cheguei a ter ereção,” Laerte lembra, aproveitando para afastar o mito de que crossdressing e sexo não andam necessariamente de mãos dadas.


Apesar de ter se filiado ao Brazilian Crossdressers Club (BCC) e frequentado encontros, Laerte – que no grupo era conhecida como Sônia – foi se distanciando da associação à medida que passou a dispensar a clandestinidade e se sentir mais confortável em se travestir com roupas e acessórios femininos. Quando se deu conta, já não tinha mais cuecas na gaveta, frequentava a manicure regularmente para fazer as unhas, fazia a própria depilação com cera e assinalava a letra F quando tinha de preencher formulários de hospedagem no hotel. “São processos de autodescoberta, de autoaceitação. Por exemplo, não uso mais o termo crossdresser, porque ele parece localizado numa fase que não me interessa mais, que eu já passei”, diz.

No ano que vem, Laerte pretende substituir os já inseparáveis sutiãs com enchimento por um par de implantes de silicone de no máximo 400 ml. Cortar o pênis? Nem pensar. “Falar em ‘cortar o pênis’ é uma visão falocêntrica. Como se dissesse: ‘Eu tenho um pênis e vou cortá-lo’”, Laerte me dá bronca. “Não é isso. É transformar a genitália. Perceba como essa é uma visão masculinista. Você vai cortar o pênis por quê? Porque uma mulher é um ser sem pênis? Não é ser sem pênis. Os homens é que são sem vagina!”, conclui gargalhando. Masculinismos à parte, Laerte se diz satisfeita com o corpo atual, mas nega que tenha decidido fazer fotos nua por vaidade ou exibicionismo.

“Eu nunca fui vaidosa. Nem agora. Claro que gostaria de ter um puta corpinho. Mas me veja. O que é ter um puta corpinho? Outro dia, estava vendo [o filme] Xingu e as índias praticamente não têm cintura, são aqueles tronquinhos. Mas muito fortes e saudáveis. E muito felizes também. Claro que elas têm as costuras estéticas ali, mas não ligam de maneira doentia pra essas coisas como a gente vem ligando. Principalmente mulheres”, analisa. “Ao querer a vivência tida como feminina, não estou comprando o pacote todo. Não preciso de uma cintura dita feminina e quadril. Esse é o corpo que tenho e preciso estar me sentindo bem com ele.” Ela mantém os 71 kg e 94 cm de cintura e quadril à base de powerlifting e dieta equilibrada. “Já comi muita carne, mas rompi em 2003. Como peixes, mas não bichos cuja morte envolva sofrimento que me parece inadmissível, como lagostas ou caranguejos, que são enfiados vivos na panela.”

Mais do que concorrer pela capa da próxima Playboy com a ex-BBB do momento, Laerte enxerga no ensaio nu que realizou uma possibilidade de discussão estética e, por que não, política.

“Ficou bem interessante”, ela opina, sobre as mais de 2 mil poses que realizou no estúdio e que podem, a depender de negociações com editoras, virar livro ou exposição – ou as duas coisas. “Por que interessante? Porque está além do belo e do feio. Estética não é a busca do belo, é a busca do sentimento. ‘Aisthésis’ quer dizer sentir. Então, as pessoas não estão ali em busca de sentir coisas belas, mas de sentir a presença de uma coisa, de uma proposta.”

“Talvez”, Laerte continua, raciocinando cuidadosamente e parecendo escolher bem as palavras, “eu queira mostrar como pode ser o corpo de uma pessoa que se sente mulher ou que sente a liberdade de frequentar a cultura dita feminina. Nesse sentido, a foto nua é também uma proposta de discussão. Quero propor isso agora mais ou menos como as novidades gráficas e narrativas que tenho proposto nas tiras e a liberdade de expressão que tenho vivido. Isso é pessoal e é público também.”

Do partido de que biografias não devem ser censuradas, Laerte diz não se importar em mostrar a calcinha preta e até o que guarda por baixo dela nas fotos de um ensaio, mas prefere preservar parte da vida íntima, como, por exemplo, com quem está indo para a cama hoje. “Pra mim, a vivência homossexual ainda é um tabu. Não sei se será assim até o fim da vida. Eu sou um processo em movimento. Mas hoje é algo que, sim, me constrange.”

O corpo, os quadrinhos e a militância se fundem hoje em uma espécie de Laerte 2.0 arretada. Após deixar o BCC, tornou-se integrante atuante da Associação Brasileira de Transgêneros, que trabalha pela capacitação e inclusão social de travestis e transexuais. Criou novos personagens ligados ao universo LGBT, como o casal gay de meia-idade Rebolo e Fabiel, que publica na G Magazine, e o “transomem” Estênio, inspirado pelo amigo João W. Nery, primeiro transexual masculino a realizar uma operação de troca de sexo no Brasil em 1977, em pleno regime militar.


Já Hugo, aquele que ajudou a quadrinista a se jogar no armário feminino, agora atende por Muriel e segue reproduzindo nas tirinhas as experiências de Laerte e outros transgêneros em uma sociedade ainda refém de moralismos e dogmas religiosos. “O que sobrou para a direita, em termos de crescimento, é o moralismo. Porque a direita militarista está bloqueada institucionalmente. A direita econômica, agrária, foi abraçada pelas políticas do próprio governo. A grande novidade é essa direita dita religiosa, que tem crescido no embalo dessas polêmicas. Eles estão se colocando propositadamente em posições que aguçam determinados conflitos. Pra quem tem pouca política, projeto nenhum, isso significa crescer”, prega.

Festejado como um “antifeliciano”, Laerte também foi nomeada presidenta da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos e Minorias, iniciativa simbólica lançada por movimentos sociais em resposta à comissão presidida pelo deputado evangélico do PSC em Brasília. A primeira reunião ocorreu em abril, quase simultaneamente à controvertida posse de Marco Feliciano. Se na capital federal a sessão acontecia sob protestos e a portas fechadas, em São Paulo a assembleia aconteceu na Praça Roosevelt, rebatizada carinhosa e apropriadamente de Praça Rosa.

O engajamento na política reconecta Laerte com os anos 70 e 80, época em que militava no PCdoB e na imprensa sindical e em que se permitiu abraçar também o futebol, o Carnaval e a música popular. “Eu me despolitizei um pouco”, diz. “De alguma maneira, a ideia de uma sociedade sem classes, de uma transformação política e social conduzida pelo proletariado, todos esses itens da pauta do comunismo eram de uma exterioralidade que não foi suficiente pra me manter conectada ao projeto. Então pulei fora.” Hoje, Laerte é a favor das manifestações (foi à rua “contra a brutalidade” da PM na passeata de 17 de junho em São Paulo) e defende a presença de black blocs, gente com, gente sem e até gente com bandeiras equivocadas em nome da diversidade.

“O que se passou foi que me vi motivada a retomar a militância por causa de algo muito íntimo – o sentimento transgênero –, que me levou de novo a entender a ação política como necessária. Não vejo só como uma defesa da população travesti ou transgênera, mas da liberdade humana. Uma defesa das possibilidades do ser humano como um todo”, conclui Laerte, pouco antes de pedir licença para ir ao toilete (masculino? Feminino? Será que isso realmente deveria importar a essa altura?) e se despedir de mim com um forte abraço de mãe.