"Os Quatro Pretos Mais Perigosos do Brasil"

Sem lançar disco há 11 anos, com opiniões contraditórias e quebrando as regras do jogo, o Racionais MC’s permanece como a única voz da música a mobilizar um exército de brasileiros

André Caramante Publicado em 06/12/2013, às 11h59 - Atualizado em 11/02/2014, às 19h22

Liderança
(A partir da esq.) Edi Rock, Mano Brown, Ice Blue e KL Jay: há 25 anos, Racionais MC’s

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Olhar de Pedro Paulo Soares Pereira está fixado no horizonte do Capão Redondo, periferia sul de São Paulo. Apesar de ser primavera, o céu cinza-chumbo dá o tom àquela tarde fria de outubro. Sentado em uma cadeira plástica, com um caderno surrado apoiado na perna e contra o qual desliza o lápis mal apontado, ele está na varanda da Casa Azul, o porto seguro dele na Favela da Godoy. Ali, uma rede de proteção – invisível para quem não é da área –, formada por moradores e amigos, faz a triagem de quem, quando e como pode ter acesso a Pedro Paulo, chamado pela maioria de Brown e, pelas crianças, de “tio Brau”. Barulhos vindos da rua invadem a Blue House – como o anfitrião chama intimamente a propriedade comprada e reformada por ele com o dinheiro recebido de uma multinacional fabricante de material esportivo para gravar uma versão de “Umbabarauma” ao lado de Jorge Ben Jor – e se misturam a uma base sonora vertiginosa. Os graves pesados, interpostos com as risadas sinistras de um palhaço, partem de um computador ligado a duas pequenas caixas do modesto estúdio. Quando digo que, pelo reconhecimento do meio musical, ele poderia criar músicas no estúdio que quisesse, Pedro Paulo, 43 anos, retruca: “Estou onde quero estar, chapa”.

Duas semanas antes, ele estava no palco de uma casa noturna “de playboys”, a Royal – com Kleber Geraldo Lelis Simões, 44, Paulo Eduardo Salvador, 43, e Adivaldo Pereira Alves, 43, respectivamente DJ KL Jay, Ice Blue e Edi Rock –, cantando músicas que protestam contra tudo o que se via ali. Eles, “os quatro pretos mais perigosos do Brasil”, como sempre se autodenominam.

A justificativa veio no curto discurso antes de “1 por Amor 2 por Dinheiro”. “Vamos aos fatos. O que leva um homem a estar na rua domingo à noite? Você devia estar descansando, cara. Só há um motivo que me traz para a rua e um deles é esse aqui, ó”, declarou Brown, antes de KL Jay soltar o ruído de uma caixa registradora. Quando o questionei sobre o show, Brown foi sucinto: “Ele [Marcus Buaiz, dono da boate] não pagou pau pra mim e eu não paguei pau pra ele. Estávamos ali para fazer negócio”.

O fato é que o camisa 10 do Racionais MC’s defende hoje o trabalho do quarteto como um “produto” – para quase qualquer plateia, em quase qualquer lugar. E eles lidam com os riscos disso. “Tem de ter cuidado para não chapar. A Billie Holiday chapou. Fazia show com os brancos a venerando e sabia dos pretos enforcados por aquela plateia que a aplaudia”, divaga KL Jay, para quem o discurso ideológico continua ali, apesar da eficácia duvidosa junto àquele público. “Acho que os convencemos de que estamos certos, mas eles não assumem que estão errados [risos].”

O “show Robin Hood” (“quem tem mais paga um pouco mais para nos ver cantar; que tem menos paga menos ou nada”, diz Brown) foi a mais recente polêmica envolvendo o grupo, mas está longe de ter sido um momento tenso. Em 25 anos, eles pegaram em armas por ideologia, disseram não a uma indústria pré-estabelecida e deram um nó no modelo de sucesso. Há duas décadas, já haviam despertado discussões por terem angariado fãs bem-nascidos com Raio X Brasil (1993), que trazia “Fim de Semana no Parque” e “Homem na Estrada”. Parecem, portanto, suportar tranquilamente uma nova geração de admiradores abastados, um Lobão vociferante ou críticas por Edi Rock ter ido à Globo divulgar o trabalho solo dele.

Ao longo de 2013, fiz marcação cerrada para documentar o trabalho de Ice Blue, KL Jay, Edi Rock e Mano Brown e tentar entender por que o grupo, que não lança um álbum de inéditas há mais de uma década, ainda arrasta grandes públicos, seja na boate Royal, seja em palcos armados em chão de terra batida, como aconteceu no último dia 26, no Jardim Guacuri, extremo sul de São Paulo.

Vem daí a autodenominação dos quatro: o “perigo” está em conseguir mobilizar um gigantesco exército de brasileiros, para quem as letras batem no peito com força e sentimento de legitimidade. Sabe-se lá o que teria acontecido se tivessem participado da recente onda de protestos, dos quais se ausentaram por considerarem tudo muito nebuloso.

“Tem muita gente com muitos interesses aí”, diz Brown. “O que importa o que o Brown acha? A essa altura? Tá na mão do povo.” Para ele, o balanço das manifestações é positivo. “A gente cresceu vendo argentino fazendo panelaço e a gente, Carnaval. Agora, não. Então, é positivo. Deixou dúvidas no ar, mas é positivo.”


Durante meses de longas entrevistas, viagens e shows ao lado do quarteto e do time de apoio (12 pessoas que sempre os acompanham), percebi que há algo a mais na atmosfera do grupo. A autodenominada “Família Racionais” não se enquadra. Não tem padrão aparente, não segue a lógica nem os métodos tradicionais do showbiz e abriga pessoas de opiniões opostas em cima do palco. É tudo do jeito deles.

A trajetória do Racionais MS’s foi forjada em uma espécie de realidade paralela ao cenário musical brasileiro. Não “pagou madeira” (no dialeto das quebradas) para tocar em rádio 20 anos atrás, só contratou assessoria de imprensa recentemente (e ainda nega a maioria dos pedidos de entrevista, conta a assessora Ana Paula Alcântara), não tem site oficial (está há sete anos formulando um) e, apesar do sucesso, não formou milionários.

“Esse negócio de não sermos milionários sempre intrigou as pessoas. Ninguém entendeu essa base de primo, de ter os caras como irmãos”, diz Ice Blue. Ele conta que, anos atrás, uma gravadora lhes ofereceu contrato de R$ 4 milhões, mais apartamento no Rio de Janeiro para cada um. Oferta semelhante partiu de uma emissora de TV, que queria o grupo em sua gravadora e em seus festivais. “Não nos empolgamos achando que o dinheiro iria mudar nossa vida. Se aceitássemos, não atingiríamos o que queríamos atingir.”

O que eles queriam era chegar à mente de “50 mil manos”, empoderar negros, pobres e favelados. “O rap fez mudar muita coisa – ensinou o cara a não ter vergonha de onde mora, do cabelo, da cor, a poder falar da sua quebrada”, avalia Blue. “Hoje, você vê qualquer moleque falando que mora na favela de peito aberto, mesmo que não more.” E também disse ao negro que é preciso estudar e se cuidar, completa KL Jay. “Racionais é utilidade pública”, diz o DJ, o mais passional e radical da família.

A ideologia esteve presente desde as primeiras reuniões do quarteto, no apartamento de um alemão chamado Hans, no edifício Copan, centro de São Paulo, para gravar rap. Foi em 1988 que o produtor cultural e ativista político Milton Sales juntou duas duplas que já frequentavam separadamente a região da São Bento, antiga meca dos fãs de hip–hop na cidade, e a casa noturna Clube do Rap, na Bela Vista.

Mano Brown e Ice Blue se iniciaram na música no terreiro de candomblé frequentado pelas mães deles, também amigas de baile. “Quando meu pai, que era trompetista e pintor de parede, morreu, minha mãe chapou e a mulher do pai de santo me amamentou. A família do Brown também foi acolhida nesse terreiro”, diz Blue. Na adolescência, Brown teve um grupo de samba. “Não tem som mais redondo do que o samba”, enaltece o rapper. “Sou um ‘rapeiro’. Não sou músico. Não estudei. Sou um batuqueiro da vida, aquele cara da antiga, malandro, que fica na esquina e fala das coisas que vê na rua.”

Vieram então as equipes de baile, o rap foi à TV pela primeira vez com Thaíde & DJ Hum e surgiram os concursos de rap. Entre as influências dessa época estavam Ice-T, Run DMC, LL Cool J e Beastie Boys. Mas a que mais peso teve em Brown foi aquela que, à revelia, lhe emprestou o nome. “Eu falava: ‘Mano, com esse som aqui [ “Make It Funky” ] do James Brown dá pra sair na mão com dez caras’. A música bate diferente em cada pessoa e, em mim, batia igual ao Mike Tyson”, descreve. “Estava cheio de vontade. Pobre, feio, braço fino... só tinha maldade. É assim que nascem os grandes vilões da História.”


No concurso do Asa Branca, em Pinheiros, Brown, à época D.C. Brown (“Do Capão Brown”) e Blue estrearam no palco. Os versos já falavam de violência (“Tem polícia na parada/ Nem se liga na real/ A farda é uma jaula/ Onde só cabe um animal”) sobre uma base rápida, de um disco de Tone L?c. “Estudei a forma de se apresentar também”, diz Brown. “Com a minha inteligência mediana, percebi que tínhamos de ser uma dupla tipo irmãos, vestidos parecido. Essa combinação de roupa, batida e palavrão ganhou.”

Nas mãos de dois caras de 18 anos, os Cr$ 50 mil do prêmio duraram apenas uma noite. Para comemorar, pegaram as namoradas e foram ao Mc Donald’s da Avenida Paulista. “De madrugada, eu acordei e vi o Blue contando o dinheiro [restante], arrependido. Não sei que fome era aquela. Moleque, né? Foi a primeira vez no McDonald’s. Pegamos o ônibus elétrico e fomos para a Paulista.”

A dupla Edi Rock e KL Jay vinha da zona norte e já frequentava bailes black. Trinta anos atrás, as periferias paulistanas haviam visto o surgimento do break e de seu próprio astro dançarino. “O KL Jay já era famoso. O apelido dele era Michael, porque dançava Michael Jackson”, diz Edi Rock, com um sorriso de canto. “No baile do Acre Clube, todo mundo parava para aplaudir o Michael.” E Kleber era também DJ. Fazia dupla com Edi, que aprendeu a rimar e passou a abrir shows para Thaíde & DJ Hum e MC Jack, os grandes nomes da época. Milton Sales conhecia as duas duplas e achou que fazia todo sentido juntá-las – além de iniciar um processo de conscientização política nelas. “Ele dizia que eu tinha de usar meu talento para mudar as coisas, igual ao Bob Marley fez na Jamaica, lutar pelo oprimido. Era disciplina de esquerda. Ele e Malcolm X foram os caras que me ensinaram as coisas mais importantes de política”, afirma Brown, que conheceu o líder norte-americano por meio do trabalho do Public Enemy. “O Public Enemy veio tocar em São Paulo [em 1991] e eu invadi o show. Quando os seguranças me grudaram, o Chuck D viu e mandou me soltarem. Subi no palco e chamei o Blue, Cocão [Edi Rock] e KL Jay para cantar”, relembra.

“Quando li Malcolm X, senti que era negro mesmo”, explica Brown. “Apesar da minha pele mais clara, de o meu pai ser branco, essa é a minha vida. Levava vida de nego mesmo. Entendi que a gente era apenas uma estatística, por mais que gostasse de se sentir especial. As coisas começaram a fazer sentido. Foi um murro na cara.”

Tal mentalidade se mostrou presente desde as primeiras faixas (“Pânico na Zona Sul” e “Tempos Difíceis”), que entraram na coletânea Consciência Black (1988) e no primeiro disco do grupo, Holocausto Urbano, dois anos depois. Foi com a estreia que eles puderam largar os empregos e viver de música. “Quando o disco saiu, estávamos no Santana Samba [boate na zona norte], só com o dinheiro de voltar para casa. Era uma sexta-feira, um dia sem esperança”, lembra Blue. “De repente, veio o Serafim [da gravadora Zâmbia] com o disco na mão. Renascemos. ‘Caralho, saiu essa porra! Puta que o pariu!’ No outro dia, fomos à Telesp, compramos um monte de fichas telefônicas e botamos o [empresário] Cabelo no telefone para vender show.” A tranquilidade financeira, porém, viria sete anos depois, com o estouro de Sobrevivendo no Inferno (1997). A consciência social e política não ficaram apenas no discurso sobre os palcos. “Fight the Power”, do Public Enemy, era o hino, e fazia ligação direta com o conceito do grupo, que ganhou nome inspirado na obra de Tim Maia.

“Eu pensava: ‘Vou ser igual ao Malcolm X. Quero ser o Chuck D’. Não dei minha vida por isso, ao contrário. Eu não tinha vida. Esse barato é que me deu vida. Eu era um homem morto, pronto para ser estatística, virar número, aos 19 anos”, diz Brown, que revela ter cometido pequenos furtos na juventude. “Não tem por que mentir agora. Era uma época em que você roubava ou passava fome. Não era para ostentar. Todos os meus amigos, da mesma geração, começaram a roubar ao mesmo tempo.”

“Posso dizer que o rap me salvou. E o casamento foi minha segunda salvação. Me casei com 18 anos, em um momento em que eu estava com um pé no crime e outro fora. Minha mulher me deu um rumo”, Brown diz sobre Eliane Dias, hoje na linha de frente dos negócios do grupo, com a produtora Boogie Naipe. Com Malcolm X e o Partido dos Panteras Negras na cabeça, o Racionais decidiu se colocar pronto para a guerra. “Essa filosofia organizou nosso cérebro. Nos fez virar perigosos”, conta Brown. “Compramos armas, fomos fazer luta, resolvi ler mais, quis o carro com o motor mais potente e balas mais destrutivas. Me tornei um cara perigoso. Falava de assassinato com muita frieza. Imaginava atentados, certas vinganças. Baseado nessas ideias, iria até o fim, ‘que se foda’. Fora isso, não éramos nada. Já tinha uns 15, 16 caras na nossa banca, todo mundo esperando uma atitude nossa, que mostrássemos liderança. Já não era só um grupo de rap. Compramos revólver, aprendemos a lutar. Nos considerávamos os mais subversivos do mundo.”


Brown revela que ele e alguns dos companheiros andaram armados por muito tempo. “Esperávamos o pior, que poderíamos cruzar com os nazis, os polícias. Tínhamos essa visão de trocar [tiros] com os polícias, de igual para igual. Não achávamos que eles tinham o poder total. Queríamos destruir a autoridade deles, e morreríamos por isso. Fazíamos reuniões nos banheiros dos bailes para tramar ações. Fizemos segurança de passeata armados. Tramamos até assassinatos. Era gente que tinha de morrer porque seria simbólico”, dispara. “Não vou falar nomes. Ninguém morreu nem sofreu atentado. Estávamos em 1993, 1994. Ideias ‘mil grau’.” São dessa época também os atentados a tiros que o grupo sofreu no bairro da Restinga, em Porto Alegre (RS), e em Indaiatuba (SP). A cidade de Bauru (SP) também teve uma história trágica, com a morte de um fã em um show do grupo.

Vinte anos depois, a declaração do cantor Lobão (que disse que “o Racionais é o braço armado do PT”) serve apenas para exercitar. “O Lobão é um bunda-mole. Queria chamar a atenção. Com o monte de merda que fez, quem é ele para falar de alguém? Deveria ficar tranquilinho, fazendo o arroz-feijão dele. Ele é o quê? É de direita, de esquerda? Se posicionou?”, pergunta Blue. “Foi infeliz, quis aparecer, estava com inveja”, opina KL Jay. “Quando um de nós é ofendido, os caras [fãs] se sentem ofendidos também. Não sei se alguém já levou uma com ele, mas ele se colocou em risco quando levantou um falso contra nós”, pontua Edi Rock sobre o episódio, que acabou com o roqueiro caindo em um trote de uma rádio em que um imitador de Brown dizia estar “tudo certo” entre eles – algo de que o verdadeiro Brown discorda.

“O Lobão é o maior vacilão”, diz o rapper, que na época não quis dar entrevistas para não dar crédito à história ou ao roqueiro. A opção foi se pronunciar pelas redes sociais do grupo. “Não precisamos dos jornais ou revistas para mandar nossas ideias”, define Brown.

Longe de tudo isso, na Blue House, o lápis mal apontado constroi o próximo trabalho do Racionais MC’s – o último, Nada como um Dia Após o Outro Dia, é de 2002. A base toca repetidamente enquanto Brown se concentra e recita, para si mesmo e em voz baixa, as rimas recém-escritas de uma nova música que possivelmente estará no novo disco.

Quando digo que os fãs estão ansiosos e parecem não se contentar mais com as músicas “soltas” lançadas nos últimos anos (“Cores e Valores”, “Mente do Vilão”, “Mulher Elétrica”, “Dance, Dance”, “Mil Faces de um Homem Leal (Marighella)”, “Gangsta Boogie” e “Homem Invisível”), Brown afirma que ainda não há data para um álbum completo, mas que preparam um EP para ser lançado “em breve”.

“Pode ter até seis faixas inéditas e será para comemorar os 25 anos. Será para download. É para criar um fluxo no nosso canal e um grande tumulto na internet”, diz Blue, o mais negociador do grupo e aquele que diz “não” para quem propõe negócios vistos como pouco rentáveis aos quatro. “Ficamos 20 anos resistindo a não ser uma banda grande, correndo. Éramos a banda do ‘não tem’: não tem site, assessoria, porra nenhuma. Agora tem. Saímos dos problemas. Nós somos chatos pra caralho.”

A expressão “em breve” parece vaga, e de fato é. Na edição de dezembro de 2009 da Rolling Stone Brasil, Brown afirmou que um novo disco do quarteto seria lançado até a Copa de 2010. Mas Edi Rock, o Cocão (ou Coquinho, como é chamado pelos amigos) é mais preciso – ou menos impreciso. “Vamos entrar em estúdio em 2014. O disco levará de seis meses a um ano para ficar pronto.”

Quatro anos depois daquela primeira previsão, o que se constata é o fortalecimento dos projetos solo de cada um. “O Brown tem um disco com 22 faixas [a ser lançado]. O Edi Rock lançou um com 19 músicas. O meu sai este ano ainda, com o Helião [do RZO]”, lista Blue. Sem contar as mixtapes de KL Jay, que toca na noite de duas a quatro vezes por semana, além dos shows com os Racionais. Não raro, o trabalho individual soma para o coletivo, como foi o caso do dinheiro ganho com “Umbabarauma” e investido na Blue House. “Ofereceram um dinheiro de merda e eu meti a faca. Tentei arrancar o máximo”, conta Brown, sem revelar o valor da negociação (que teria ficado em R$ 100 mil, segundo fontes próximas).


Já a música para o filme sobre o guerrilheiro Carlos Marighella foi vendida por muito menos. “Era diferente. Não coloquei um preço. Falei: ‘Quanto vocês podem dar?’ Foram R$ 5 mil. Paguei o meu DJ e já era”, diz ele, que duas décadas antes havia lido sobre o guerrilheiro e assistiu três vezes ao documentário para compor “Mil Faces de um Homem Leal (Marighella)”.

O dinheiro, defende Brown, é um meio de melhorar a vida das pessoas, e ele tem uma forma própria de lidar com cifrões. “Não me enlameio no capitalismo. Dá para sair limpo. Tenho minha ética. Ninguém trabalha de graça para mim. Tem que pagar o pedreiro da quebrada para fazer esta casa. Todo mundo tem de ter emprego. É preciso fazer girar o dinheiro.” Ali, no sobrado azul, ele também prepara um cômodo que será uma miniboate, com globo espelhado e luzes coloridas. “É para testar a brisa das músicas feitas aqui. Ainda falta pintar na parede o símbolo do Studio 54 [famosa casa noturna de Nova York].”

Ele também estimula os parceiros a usarem a grife Fundão Roupas, mantida como fonte de renda para o herdeiro de Emerson Neguinho, amigo próximo de Brown e que morreu em um acidente de moto há mais de dez anos. Foi por um gosto pessoal de Neguinho, “símbolo da resistência de uma época”, segundo Brown, que o laranja e o preto são as cores da Fundão, sempre representada nos shows do Racionais.

Mas, desde que os cifrões começaram a aparecer, o tema ostentação é uma constante, dentro e fora do grupo. Como usufruir das conquistas do discurso contra o sistema sem se render a esse mesmo sistema?

Ice Blue se lembra bem do dia em que foi comprar uma moto, nos anos 90. Entrou em uma loja e o vendedor mal o olhou na cara. Ele simplesmente saiu e foi à loja vizinha, em que o vendedor, solícito, lhe falou o valor e as qualidades do modelo de 900 cilindradas. Blue comprou e seguiu caminho. “Quando os caras viram a moto, foi a maior briga. ‘Você tá ostentando com essa moto!’ Falei: ‘Seguinte: se a gente não estivesse no Racionais, iria roubar e teria a moto do mesmo jeito. Não iríamos morrer? Então, parou aí. Não mudou nada’.”

A cobrança do público é vista como natural, um reflexo até positivo do trabalho do Racionais. “Falamos pros caras sobre orgulho, sobre favela, sobre questionar tudo. É por isso que hoje me questionam. Mas falei que não se deve ter vergonha de ser favelado, não que se deve permanecer favelado. Não posso chancelar o cara continuar favelado. Tem de evoluir. O Nada como um Dia... já fala dessa transição, dessa conquista”, completa Blue. “O preto tem muitas coisas a buscar.”

Hoje, os quatro têm liberdade para fazerem o que bem entenderem, com a única ressalva de refletir e comunicar antes aos demais sobre cada atitude e como ela pode ou não afetar a “Família Racionais”. Recentemente, Edi Rock fez algo que o grupo execrou por 25 anos: foi à Rede Globo, nos programas de Luciano Huck e Regina Casé. Defendeu-se, divulgando uma nota em que fala de respeito e liberdade de escolha. Em agosto, quando me revelou que iria à emissora, ele argumentou que o rap não pode ter fronteiras. “Tem de aparecer. Você pode usar o espaço a seu favor. A mensagem não se corrompe. Não vou à Globo para aparecer como um bobo alegre”, diz.

Em outubro, retomamos o assunto. “Precisamos mostrar para a massa como o rap é agora”, Edi Rock explica. “Temos que fazer a mensagem chegar aonde ainda não existe celular ou internet, mas aonde a Globo chega. Tenho 43 anos e não posso mais esperar mais 25 para chegar aos lugares aonde ainda não chegamos. A maioria me apoiou na decisão e estou certo de que representei. Muita gente disse que não concordava, mas que torce pelo meu sucesso. Quem está ao meu lado quer meu bem e o bem do rap.” Brown, por sua vez, também já apareceu em fotos ao lado de Huck. Foi durante uma viagem com a mulher a Nova York, onde estiveram também com Caetano Veloso. “Ele [Caetano] me recebeu muito bem na casa dele”, diz.


Sobre a eterna rusga do grupo com a imprensa tradicional, Edi Rock é categórico: “Não gostamos de dar entrevistas, porque a mídia escrita ou televisiva distorce muitas das nossas palavras.” Revistas, sites e programas alternativos e com conteúdo voltado para a periferia têm prioridade para conseguir declarações dos quatro.

Mas nada indica que, um dia, o Racionais vá tocar na Globo. “Em 25 anos erguemos um prédio com uma puta base fodida para ir lá e colocar dinamite?”, diz KL Jay. “Não dá para compactuar com uma TV que tem a melhor qualidade, a melhor imagem e a melhor produção, mas que faz o que faz com o Brasil. Quem quiser ir, que vá e segure o seu BO.” Não é treta interna. É assim mesmo no universo paralelo dessa família, vigiada por um exército de fãs – às vezes intransigentes, mas sempre fiéis.

“Eu concordo com o fã [que não admite a ida do grupo à Globo]”, diz Brown. “Se fosse de grande utilidade, eu iria. Mas para ser estatística, não. Se fosse, perderia mais do que ganharia. Ganharia cabelo branco, encheção de saco. Se fosse para dominar o mundo, estilo Lex Luthor, aí sim [risos]. Só os vilões.” “Ninguém sabe usar a mídia melhor do que nós do Racionais”, Brown completa, sorrindo. Sobra também para o empresário e apresentador do Caldeirão. “Não sinto verdade no que ele fala”, decreta KL Jay. “Ele já propôs coisas na África, já fiz várias coisas no Projeto Criar”, ameniza Blue. “Há questões que limitam, e por isso não fecho totalmente com eles [Huck e outros famosos]. Mas conheço e falo com eles.”

As opiniões opostas também miram em Regina Casé e no Esquenta. “Ela tem nos chamado para ir lá. Regina não é aventureira. O pai dela era envolvido com causas do povo, e ela é dessa linhagem. Mas ela é de TV, e é da Globo”, diz Brown, que contemporiza sobre as críticas ao programa. “O negro não é só aquilo, mas é também aquilo. É aquilo e muito mais. Não posso dizer que ela esteja mentindo.” Nesse sentido, todos os Racionais pensam igual. Na verdade, é claro que há discordância. “A Rede Globo tem a mentalidade do Brasil: racista e preconceituosa. Não adianta passar um pano. Eu to vendo. O Esquenta é completamente estereotipado”, detona KL Jay, que conheceu Regina pessoalmente. “Ela é carismática, gente boa, mas o programa é feio, mano. As pessoas não são daquele jeito. Os pretos não são daquele jeito. É nivelar muito por baixo.”

Sobre a recente polêmica em torno da publicação de biografias no Brasil, Blue e Edi Rock têm a mesma visão: sim, há necessidade de autorização prévia do biografado ou dos familiares, caso o alvo do livro tenha morrido. “Claro que tem que ter autorização. Afinal, é a vida de uma pessoa”, diz Blue. “Se quiser falar da vida do cara no palco, firmeza, mas como biografia sempre fala de coisas íntimas, é preciso de autorização”, analisa Edi Rock. “É direito de escritores e jornalistas fazerem o livro, mas também é direito dos envolvidos autorizarem ou não.” Já Brown vê a questão como “fichinha”. “Essa questão não é prioridade para o povo. É uma causa classista dos artistas. Não quero falar de causas classistas agora.”

Esse mosaico de múltiplas parcialidades, antes de travar a convivência ou o processo de criação, põe mais peso na importância do respeito e da preservação da Família Racionais. Em vez de separar, une. Do jeito deles, como sempre – e para sempre, como dizem.

“Existe aquele prazer mórbido em falar que o Racionais está morrendo. Ao contrário. Estamos ampliando os horizontes para fazer com que o novo disco seja ainda mais pesado”, afirma Brown, que prevê um trabalho “boladão, do jeito que os caras gostam”. De protesto, de volta às origens? “Não gosto desse rótulo. Nunca saímos das nossas origens. Rótulo reacionário esse aí de ‘protesto’. Difícil classificar. Será rap brasileiro mesmo, com a cara de São Paulo, ao estilo Capão.”

E repleto de blefes. “Nos últimos tempos, tenho feito músicas estilo ‘a vida imita a arte’ e vice-versa. Obra de ficção”, conta. “Essa autoafirmação do rap, de falar de si mesmo – ‘tenho isso e aquilo’ –, é a arte do blefe. Já era assim antes: todo mundo pobre e cantando que estava com guarda-roupa cheio. O rap é a arte do blefe.”


O maior sucesso do grupo, no entanto, não foi obra de ficção. “Diário de um Detento”, de Sobrevivendo no Inferno, foi criada a partir do relato de Índio da Puma, “tipo meu primo”, diz Brown. Índio estava no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo quando, em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar matou 111 detentos no maior massacre da história do sistema prisional brasileiro, e sobreviveu para contar o que viu ao cronista-rapper.

Para o futuro e aguardado disco, já há muitas ideias no pente. “Estamos produzindo bastante, temos muita coisa escrita”, garante Blue. “Os Racionais ainda vão durar muito tempo.”

Há um ano, o Racionais MC’s conta com uma produtora. A Boogie Naipe foi um passo importante no sentido da profissionalização do rap, especialmente sob as mãos de Eliane Dias, advogada e mulher de Brown – e prima de Blue. “Quero um tratamento profissional para eles”, ela diz, com firmeza.

“Por trás do Racionais há uma equipe de mulheres fortes”, ela diz, se referindo também ao trabalho de Rosemeire de Jesus, a Meire, por anos a única funcionária do Racionais. Foi Eliane a responsável por colocar o grupo na praça Júlio Prestes na Virada Cultural 2013. A única exigência foi não ter a Polícia Militar na cara do público. “Queriam colocar o [a tropa de] Choque lá, mas eu não queria, pois sei que o público do hip-hop se entende. A galera vai para curtir”, diz. “A polícia ficou lá atrás, no fundo, e o público não via, não interagia com ela.”

O que para uns parecia loucura, para os Racionais fazia todo sentido. Ainda estava forte na memória o show em 2007 na Praça da Sé, quando houve enfrentamento entre parte do público e a PM. “Por isso, eu quis proteger os fãs. Quando há a quebra da sintonia do público com o grupo, eles não gostam”, Eliane observa. Foi no show da Virada, sem ocorrências policiais e para quase 100 mil pessoas, que Brown surpreendeu em sua “orelhada” (discurso) e, em vez de criticar a polícia pela violência de 2007, disparou: “Estive ontem de noite aqui, sou da rua, vi muita covardia no centro. Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas eu vi vários maluco ramelando, roubando. Os malandrão roubaram o Mizuno de um moleque, custa R$ 900. Quem aqui ganha isso por mês? O que eu vi ontem tá longe de ser evolução. O rap precisa de gente de caráter, não de malandrão”.

Mas Brown, assim como os companheiros, ainda luta para navegar em mares particulares de contradições. Mesmo sem atacar verbalmente a polícia durante a Virada, Brown não se conteve em outubro, no dia seguinte a uma das muitas manifestações que aconteceram no Brasil, e postou no Instagram a foto de um jovem pisoteando um carro policial, virado com as rodas para cima. “Foda-se a polícia”, ele escreveu na legenda. Em menos de uma hora, a imagem teve mais de mil “curtidas”. Depois disso, Brown apagou a foto.

Em dezembro de 2012 – ano no qual policiais militares mataram 716 pessoas no Estado de São Paulo (uma morte a cada 12h23min, um recorde da violência estatal nos últimos anos) e quando recebeu o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos –, Brown foi à tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo para condenar a violência do Estado e pediu o impeachment de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, a quem classifica como “frio”. Disse também que não se sentia à vontade naquele ambiente.


Nos shows, todas as “orelhadas” são improvisadas pelo rapper. “Sempre fico atento ao que acontece na semana do show, como está o clima na quebrada onde vamos tocar e considero isso no momento da ideia”, revela. Outra estratégia é a “arma secreta” Marquinhos Borracha, amigo de adolescência, um dos produtores do grupo e espécie de olheiro do Racionais, que vai antes ao cenário das apresentações para sentir o clima. “Se está suave, a entrada no palco é uma; se está tenso, é outra”, conta o rapper. Tchelo Martins e Sidney Ferreira, que cuidam do som dos shows, também fornecem ao grupo esse tipo de respaldo. No último ano, Jorginho, 18, filho de Brown, passou a estar ao lado de Borracha na preparação dos shows e nas pós-apresentações, quando os camarins são abertos para fãs tirarem fotos e conseguirem autógrafos. Ao acompanhar “os quatro pretos mais perigosos do Brasil”, vi o quanto é comum ver homens barbados e mulheres com filhos saírem emocionados por terem conseguido um abraço do quarteto.

É assim sempre, em todo lugar. O poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), dá uma definição sensível sobre quem são os Racionais em ação. “É catarse, momento mágico da autoestima para um cara da favela, da periferia, para o negro. Aquele momento ‘Sim, nós podemos!’ É a multidão em uma só voz, como se fosse o canto da liberdade, como se fosse o último dia de sofrimento.”

Assim ocorre a ligação direta, irrefreável, com corações e mentes de “50 mil manos”. O número está defasado, mas ainda reflete o sentimento do exército de gente que segue os quatro. Com um sorriso largo, KL Jay estima hoje ter o apoio de “5 milhões de manos”. Eles não formam uma unanimidade e não raro se enfrentam quando confrontam opiniões, inclusive sobre os próprios Racionais. Mas é melhor assim, reflete Pedro Paulo.

“A ideia do rap é fazer a molecada pensar. Tem de debater, questionar. Depois que despertamos, vamos querer combater?”