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Ney Matogrosso, um homem sexual

Aos 72 anos, cantor relembra momentos de uma carreira em constante movimento, determinada por doses elevadas de coragem, liberdade e pela força central de seu trabalho: o sexo

Marcus Preto Publicado em 06/12/2013, às 20h27 - Atualizado em 21/02/2014, às 19h57

Ney Matogrosso

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Sexo é o que movimenta a arte de Ney Matogrosso. Talvez por isso ele pouco envelheça. Completou 72 anos em 1º de agosto, mas esse número não diz coisa alguma a respeito da aparência física dele: Ney está bonito, elástico e jovem como era há 20 ou 30 anos. A idade também diz menos ainda sobre as ideias que lhe vêm à cabeça, sobre as palavras que saem da boca.

Sexo. Talvez venham também dessa fonte as analogias que se costumam fazer entre o trabalho de Ney e os de ícones internacionais como David Bowie e Mick Jagger – artistas tão imortais quanto ultrassexuais. Os mesmos caminhos o levam às afinidades com Caetano Veloso, outro símbolo da liberação sexual no Brasil desde os anos 1960.

2013 marca os 40 anos da estreia fonográfica de Ney Matogrosso: foi em 1973, com o primeiro álbum do Secos e Molhados, grupo do qual participou por poucos anos. No mês passado, Ney lançou Atento aos Sinais, primeiro álbum de estúdio desde 2009. O repertório intercala canções de veteranos, como Paulinho da Viola e Itamar Assumpção, ao de novatos, como Dani Black e Criolo. Como já é seu costume, o cantor testou as músicas ao vivo antes de entrar em estúdio para registrá-las. Em cena elas crescem, pois o palco é o lugar de Ney Matogrosso. O público é fiel a ele como a um primeiro amante. Ney aproveita a relação para liberar a cabeça das pessoas para transformar o país. E, sim, estamos falando de sexo.

Ney recebeu a Rolling Stone Brasil em uma tarde de segunda-feira em novembro, na cobertura onde mora no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. Quando abre a porta ele mesmo, parece a pessoa mais comum do mundo. E continua comum até a hora de posar para as fotos. Ali, ele se transforma e vira o mesmo bicho que é no palco. Horas depois, começa a relembrar e falar, também despido de qualquer amarra.

Você saiu de Mato Grosso para Brasília?

Não, eu saí de Mato Grosso com 3 anos. Morei em Recife, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Aqui fiquei dos 6 aos 13. Com 13, meu pai foi transferido no trabalho e voltamos para Mato Grosso. Com 17, vim servir no Rio e nunca mais voltei.

A Aeronáutica foi a sua carta de alforria?

Sim, era um pretexto que usei para sair de casa.

E, àquela altura, você tinha consciência de que estava usando isso de pretexto?

Claro, claro. Foi tudo premeditado quando resolvi que não ia mais ficar naquela casa. Eu não queria mais. Tinha 17 anos e meu pai me botava de castigo. “Porra, que castigo! Não quero ficar de castigo!”

Por quê? O que você fazia?

Tudo era pretexto. Mas uma vez, o enfrentei e fugi. Meu irmão veio me encontrar na metade do caminho. “Volta, porque o pai está vindo com um revólver na mão.” Eu não ia enfrentá-lo com um revólver. Voltei. Mas ali decidi que ia embora, que não ficaria mais. Como tinha 17, podia me alistar na Aeronáutica, transferir meu alistamento de Mato Grosso para o Rio de Janeiro. Premeditei tudo. E nunca mais voltei.

Foi quanto tempo na Aeronáutica?

Servi dois anos.

Você não devia ter grande vocação para recruta, tinha?

Não, mas foi bom. Foi uma experiência interessante. De repente, caí no meio de 40 homens da minha idade. E, entendendo que nada me era dado, os espaços de todo mundo tinham que ser conquistados. Parecíamos um bando de bichos, um bando de adolescentes de 17 anos. Alguém respeita alguém? Então se tratava de impor limites. “Daqui não passa.” Saí na porrada com um camarada duas vezes. Rolamos pelo chão.

Por quê?

Ele era folgado, abusado. Mexia nas minhas coisas, abria meu armário e me roubava. Eu sabia que era ele e um dia eu fui em cima.

E a sexualidade aos 17 anos...

Ai, meu filho, isso tudo rolava lá. Muita coisa louca. Éramos 40 e tínhamos que tomar banho de 20 em 20. Foi meu primeiro susto: eu não era acostumado com isso. Mas logo entendi que, se não tirasse a roupa e entrasse logo no banho com eles, aí sim ia ter um problema. Porque vi que era todo mundo bicho. E hormônios latejando, né? Éramos os 40 recrutas dentro de um quartel onde existiam mais de 500 homens. Aí, começaram a acontecer coisas.

Que coisas?

De acordar de noite e alguém pegando em mim. Acordar no escuro e ver um vulto sair correndo. Ou acordar com porra de gente em cima. Gente que se masturbava na escuridão. Logo vi que ali dentro esse assunto não era um tabu. Ele era digerido, sabe? Comecei a entender que aquilo não era um bicho de sete cabeças.

Relações sexuais entre homens.

Sim. Eu tinha como referência esse bicho de sete cabeças, mas vi muito acontecer lá dentro. Vi dois remadores desta largura se beijando. Dei um flagrante. E não era imitação de mulher – eram dois homens másculos. Contei isso pra Hebe [Camargo] e ela me disse que não podiam ser másculos. Eram sim, Hebe. Você está enganada. Ou você não está bem informada. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu vi isso. E foi uma revolução na minha cabeça. O negócio era muito para lá do que eu imaginava. E isso me deu certa tranquilidade com o assunto. Porque essa coisa já passava por mim. Não admitia, mas já passava.

Você já era tão sexual aos 17 anos?

Não era. Mas as pessoas viam alguma coisa nesse sentido em mim que eu não sabia. No quartel, falavam umas coisas pra mim que eu não entendia direito. Falavam de pele e eu dizia: “Pele, mas que pele? Que conversa é essa?” Eles eram ultrassexuais. O fato de eu ter visto isso me acalmou com relação ao assunto, mas eu não queria realizar isso com qualquer um. Tinha uma coisa na minha cabeça, um ideal romântico. Eu poderia ter realizado, mas queria que tivesse sentimento envolvido.

E não realizou?

Não. Tive uma história platônica. A gente falava sobre o assunto, mas não tinha coragem de ir adiante. Os amigos percebiam que tinha uma coisa ali, na gente. Eles sabiam que não rolava nada, mas que havia uma atenção especial um pelo outro. O máximo que aconteceu foi um beijo. Um dos meninos falou pra ele: “Duvido que vocês deem um beijo na boca”. Aí, ele disse: “Vem cá, Ney”. Aí, foi. A gente se beijou. Mas foi a única coisa que aconteceu. A gente não se tocava além disso.

Chegava a reprimir pensamento?

Reprimia tudo. Tinham me ensinado que isso tinha que ser reprimido. Mas era uma coisa que eu via que não dependia da minha vontade. Não dependia do meu querer, do meu pensamento. Era uma coisa inevitável – aquilo me chamava a atenção.

É rico que isso tenha acontecido justamente na Aeronáutica.

Mas são nesses lugares que têm toda a situação organizada. Você vai botar 40 adolescentes dormindo, tomando banho, almoçando juntos. Acha que não possibilita? Possibilita, sim. Não só homem, não. Mulher, quem for. Qualquer pessoa que fique com aquele monte de gente do mesmo sexo, preso dentro de uma situação, possibilita, sabe? Embora, oficialmente, isso seja proibido. Imagina? Estou falando de 1959.

Você já era uma pessoa livre?

Não, claro que não. Eu só fui me liberar em Brasília.

Como aconteceu?

Passei a ser dono da minha sexualidade conscientemente, sabe?

E para que isso acontecesse você teve de se apaixonar?

Sim. Porque aí disse: vou escolher com quem será. Embora, em Brasília, naquele começo era tudo misturado. Era 1961. Brasília foi inaugurada em 60, em 61 não estava pronta. Não tinha nem 50 mil moradores.

Foi fazer o que lá?

Fui porque eu tinha um primo médico. O hospital distrital de Brasília foi inaugurado e não tinha mão de obra. Eu e o irmão dele, que também morava no Rio, fomos pra trabalhar no hospital. Precisavam de técnico de laboratório para fazer lâminas de biópsia. Não tinha ninguém preparado pra fazer isso. Foi uma pessoa do Rio, deu um curso de três meses e nós ficamos fazendo isso para o hospital inteiro.

Lá, você se apaixonou? O amor dissipou a culpa que carregou até a Aeronáutica?

Já na Aeronáutica eu vi que não deveria ter culpa. Ali, vi que eu não precisava ter tanto medo da história, né? Mas determinei para mim que eu ia escolher. Já que não foi com aquele.

O platônico da Aeronáutica? Você se encontrou com ele depois?

Muitas vezes. Falávamos, porque a gente sempre falou sobre o assunto. Mas nada. Ele morreu. Depois de um tempo ele foi assassinado. Mas a gente conversava. Eu ia lá, ele encontrava comigo, ele ia para o meu apartamento. A gente ficava conversando, ele bebendo cerveja. Foi um amor na minha vida. Talvez o primeiro. Que me fez ter coragem de assumir um sentimento por uma pessoa do mesmo sexo.

Até o período dos Secos & Molhados, em 1973, você transava homem e mulher, certo?

Não, até depois. Muito pouco depois. Só que era assim: homem e mulher junto. Eu tinha um namorado e tinha uma namorada. Ficávamos os três juntos.

Parece bem divertido.

Era, era. Mas sabe o que é? As pessoas colocam um tabu em uma coisa que é divertida e é agradável, sabe? Não existia essa questão. A primeira vez que trepei na minha vida foi com mulher. Eu tinha 13 anos. Lá em Mato Grosso, na fazenda do meu avô.

Quem era?

Era uma prima distante da minha mãe. Novinha, 17 anos, bonitinha. Fiz no primeiro dia lá. Eu que quis. Eu me deitei no quarto dela, fingi que estava dormindo. Ela me viu deitado e foi deitar junto, “Ah, ele é criança”. Mas assim que ela encostou em mim...

Então, foi premeditado.

Foi. Significa que eu sempre fui de alta periculosidade. E aí, pronto. Essa história se repetiu por muito tempo. Enquanto eu passava minhas férias lá.

Nunca ninguém descobriu?

Não. E, se desconfiaram, fingiram que não sabiam e deixaram rolar.

Você é bissexual? Ou isso foi uma fase de transição?

Eu gostava de transar com mulheres. O que eu não gostava era da mentalidade.

De que parte da mentalidade?

Aquela que está sempre na intenção de um casamento. Coisa que eu achava que com homem não rolaria.

Estamos falando de liberdade de novo? De alguém que quisesse prender você.

Sim, em um casamento, em uma coisa. Não adianta. Da mesma maneira que a gente [homem] é criado pra ser escroto, elas são criadas pra casar. Não conseguem escapar disso. Eu estou falando de mulheres muito liberadas, mulheres loucas, doidonas. Quando se aproximava disso, eu tinha um pavor horroroso, não queria mais. E não queria isso nem com homem nem com mulher. Até que, muito tempo depois, eu tive uma experiência. Fui casado por 13 anos.

E por que nesse caso específico você não fugiu?

Porque achava que era preciso passar por essa experiência. Eu tinha 39 anos. E você sabe quem foi a pessoa que quebrou a minha resistência? Cazuza. Com Cazuza eu admiti, dentro de mim, a possibilidade de viver um relacionamento.

O que ele fez pra te convencer disso?

Você não sabe o que ele era na intimidade.

Você está falando de sexo?

Estou falando de mais do que sexo. Ele era o extremo oposto do que todo mundo fala dele. Era doce, amoroso, gostosinho, todo dengoso. Não tinha nada dessa coisa de maldito. Era apaixonante. Foi a única vez que fiquei com ideia fixa em alguém. Foi com Cazuza.

Foi no final dos 70?

Sim, foi em 1979 que a gente transou e que a gente namorou. Muito antes de ele ser cantor, de ser tudo. Ele era apenas filho do João Araújo.

A imagem que tenho de Cazuza é a de uma pessoa agressiva.

Mas ele não era isso na intimidade, sozinho, careta. Aquilo era loucura. O álcool o deixava daquele jeito. Mas ele não era assim. Eu fiquei louco de amor, perdido, apaixonado. Quando ele saía de perto de mim, olha que loucura, eu ficava mentalizando na minha cabeça para ele vir, para ele vir. Sabe? Muito doido. Eu saía com ele para os cantos assim, né? E as pessoas me diziam: “Ney, eu nunca te vi assim”. Eu respondia: “Mas eu nunca estive assim, mesmo”.

E ele ficou também apaixonado?

Também. Foi uma coisa. Foi assim intenso por três meses. Mas a loucura foi maior.

A loucura dele? Foi isso que separou vocês?

Foi a loucura. A loucura dele. Ele ficou três dias desaparecido. Quando apareceu na minha casa, veio com um traficante. Cazuza estava imundo, sujo, fedido. Briguei: “Você traz um traficante pra minha casa? Não quero ver você sujo, fedendo. Não quero ter um traficante na minha casa”. Ele me chamou de careta. A gente teve uma discussão. Expulsei-o, ele cuspiu em mim e eu meti porrada na cara dele.

Nesse dia, ele virou o estereótipo do Cazuza que as pessoas conhecem.

Nesse dia. Porque já estava cheirado, enlouquecido. Já andava com o traficante do lado. Mas, uma semana depois, a gente já estava entrando de mãos dadas dentro do restaurante.

Quando você diz que, a partir do Cazuza, pensou em ter uma relação duradoura, está falando desses três meses?

Três meses intensíssimos. Mas logo conheci outra pessoa depois dele – e aí foram os 13 anos. Cazuza morreu de ciúmes. Aí sabe o que ele fez? Disse que ia transar com meu namorado. Eu liberei: pode transar, não tem problema. Eu não tinha problema mesmo. As relações eram abertas. Você podia transar com quem quisesse. Avisei meu namorado: da minha parte, vocês estão liberados. Um dia, ele contou: “Ah, saí da praia com Cazuza, fomos pra casa dele e transamos”. Tudo bem.

E era tudo bem mesmo?

Tudo bem mesmo! Nenhum problema. Dias depois, encontrei com Cazuza. Ele me contou na hora: “Transei com Marquinhos”. Perguntei se tinha sido gostoso. Ele respondeu que sim. E eu: “Pois é. Você acha que eu estaria amarrado numa coisa que não fosse boa?” Pronto. Ali, continuamos amigos até o fim da vida dele. E, mesmo depois, a gente ainda namorou umas vezes, sabe? Era um momento que nem eu e nem ninguém tinha esse tipo de problema. Se viveu isso, foi possível você se relacionar, sem posse. Foi possível.

E por que isso deixou de ser possível?

Eu acho que a Aids é que cortou toda essa liberdade que se estava exercitando. O assunto regrediu muito, a coisa caminhou pra trás. Imagina: se colocou a morte no meio desse paraíso. Porque era o paraíso. Mas é preciso dizer que era para todos, não só para gays. Todo mundo podia tudo. Você podia ser um heterossexual convicto e transar com outro homem por curiosidade que ninguém ia apontar o dedo pra você.

Mesmo? Isso não é idealização do passado?

Eu estou te falando que rolava isso. As pessoas eram curiosas, realizavam. E sabe? O mundo era muito liberal. Embora houvesse uma ditadura militar, existia uma liberalidade no mundo. Tudo podia.

Você falou do heterossexual que podia experimentar. Em shows, já vi homens heterossexuais excitados com você, pegando na sua perna enquanto você dançava. O que é isso?

Eu libero isso. Não é para homem nem para mulher. É para quem queira. Adoro quando me tocam. Quando eles têm coragem de me tocar, dentro de mim eu penso: “Esse conseguiu passar por cima de um preconceito”. E deixo que me toquem. Não acho ruim. Quem quiser botar a mão em mim pode. Eu não vim ganhar ninguém. Estou aqui para desreprimir. Eu sou um desrepressor.

A homofobia está muito pior hoje do que antes. O [deputado Marco] Feliciano está conseguindo umas coisas...

[Interrompe] Está conseguindo, não. Ele já conseguiu umas coisas. Conseguiu desfazer todas essas liberdades de união entre pessoas do mesmo sexo. Conseguiu vetar. E não vão dar um fim nessa história dele? Tem que de novo o povo gritar em cima dele. Esse é um representante das trevas. Isso aí é um obstáculo à liberdade.

E ele conta com uma massa a favor dele. Ou seja: nesse sentido, o Brasil parece bem pior do que era em 1970.

Quem é contra [a união de pessoas do mesmo sexo] é porque se sente ameaçado. Um ser bem resolvido com a própria sexualidade não está nem um pouco preocupado com a minha, com a sua, com a da vizinha, com a da macaquinha. Onde há um preconceito dessa maneira há um problema reprimido.

Falando sobre o novo disco: eu imagino que o título Atento aos Sinais tenha vários significados. O que me vem à mente é a procura por novos compositores, já que boa parte do repertório é inédita.

Não era exatamente isso, era isso também. Estou atento à movimentação da humanidade no planeta. E a loucura é que, quando você ouve o disco, parece que as músicas estão falando do que aconteceu nas ruas do Rio de Janeiro em junho. Mas estou fazendo o show com esse repertório desde fevereiro.

Ele teve algo de premonitório?

Sim, das manifestações na rua. A música do Pedro Luís, “O Incêndio”, fala disso, especificamente. Mas nada tinha acontecido ainda. Então, concluo que as tais famosas antenas existem. Não falam isso?

Que os artistas têm antenas?

Antenas que captam o que vai acontecer. O mundo caminhou do jeito que tinha que caminhar e eu não estava preocupado com ele. Montei um repertório que me agradasse. Mas, depois, prestei atenção e vi que tinha essa coisa – Primavera Árabe, as manifestações no Brasil, as transformações climáticas que vivemos. Isso tudo já estava dentro do disco. E do título.

Você tem um sítio fora da cidade. O que esse lugar representa para você?

Eu estava com vontade de voltar para Mato Grosso. Para morar, mesmo. Um dia, voltando de Búzios com o Luiz Fernando Guimarães, vi da estrada uma montanha, uma floresta gigante com uma testa de cachoeira. Perguntei se tinha alguma coisa para vender naquela área e disseram que não. Passados 15 dias, voltei lá. E descobri que a propriedade estava à venda. Só não tinha sido vendida ainda porque a pessoa interessada planejava destruir tudo, fazer um condomínio de luxo e vender a água. Decidi comprar. Quando eu fui fazer o negócio, descobri que se chamava Serra Mato Grosso. O rio que passa por lá é o rio Mato Grosso. Aí, tudo fez sentido na minha cabeça.

É você voltando para casa? É o que significa?

Sim, agora! Não existe acaso. Fui fisgado para cuidar de uma coisa que estava seriamente ameaçada. É um lugar que tem três rios, as águas são puras. Qualquer rio que passe ali você pode botar a boca e beber. Comprei também metade da fazenda da frente, que era um pasto. E a mata já subiu, virou uma floresta que se esparramou pelo morro. Bastou não mexer mais nela.

Vamos retornar para o passado: como você chegou ao Secos & Molhados? Foi a cantora e compositora Luli (que depois formaria a dupla Luli e Lucina) quem te apresentou para o João Ricardo?

Foi. Eu era ator. Trabalhava com a Luli no quintal dela. Tinha chegado no Rio em 1970. Estava trabalhando em Brasília e pedi uma licença sem remuneração. Queria viver o mundo. E aí fiquei dois anos. Voltei, trabalhei mais dois anos e pedi outra licença. Voltei só para pedir demissão. Disseram que eu estava louco, que eu não pensava no futuro, na minha aposentadoria. Voltei direto para o ensaio do Secos & Molhados.

Eu comprei a biografia que o Gerson Conrad fez do grupo [Meteórico Fenômeno].

É, mas foi muito limpado pela editora, tá?

Limparam o quê? Tiraram polêmicas que poderiam dar processo?

Tiraram as polêmicas. Isso. O João Ricardo não liberou as fotos dele. O que é uma idiotice, porque não éramos uma dupla. Éramos um trio.

E na capa do livro ele não aparece. Só você e o Gerson. Você tem alguma relação com os dois?

Com o Gerson eu tenho. Com o João, não. A gente nunca mais se viu.

Alguma possibilidade de um revival, como fez, em parte, o Mutantes?

Isso não vai acontecer nunca. Já recebemos propostas milionárias da prefeitura de São Paulo para isso. Mas não tem como, impossível.

Por causa da relação de vocês?

Por questões ideológicas. Isso é passado. Isso é o meu passado. Eu estou aqui, fazendo outras coisas. Eu não estou parado, estacionado. Não há o menor sentido de eu voltar e fazer uma coisa, é impossível.

Quando o Secos & Molhados acabou, a gravadora apostava mais na carreira solo do João Ricardo do que na sua.

Diziam que ele era o líder. Apostaram nele porque acharam que ele era o compositor. Eu, sinceramente, gostaria que ele tivesse se dado melhor. Porque ele ainda está parado nessa história, né? Repetindo, ainda.

E a bossa nova? Você ficou impactado, como quase todo mundo da sua geração, quando ouviu João Gilberto pela primeira vez?

Não. A voz do João me chamou muito a atenção. Mas da bossa nova propriamente dita eu não gostei logo. Ela tinha uma coisa ideológica que vetava o passado, sabe? Tanto que os artistas da geração anterior foram ignorados rapidamente. Ninguém mais cantava em televisão porque viraram uma página da história da música brasileira. E isso me deixava contrariado. Até que veio a tropicália e Caetano Veloso cantou uma música de Vicente Celestino. Aí, sim, ele estava mais próximo da minha turma, mais próximo do meu ideal musical.

Eu me lembro de um vídeo em que você dizia que o Caetano era quem mais te impactava.

Me instigava. Desde o começo eu ficava assim, esperava os discos dos Mutantes, de Caetano, de Gal, do Gil e do Chico Buarque. Ficava ansioso. Aquilo alimentava uma coisa estética dentro de mim que eu não tinha exatamente como definir.

Depois de Caetano, quem veio instigar você?

Ele foi o único. O primeiro que vi ousando em todos os sentidos. E em termos comportamentais. Porque ninguém ousava em termos comportamentais. Roberto Carlos não ousava. Todos eram muito bonitinhos, hein? Gal gostosa, Bethânia deliciosa, todo mundo gostoso, bonito. Foi quando o sexo aflorou na música brasileira sem sofrimento. Porque antes era dor de cotovelo. Caetano era o representante disso.

Quem te viu no palco há de concordar: você é um dos maiores artistas do mundo. Se tivesse nascido na Inglaterra, poderia ter alcançado o patamar de David Bowie. Acha que ter nascido brasileiro te prejudicou artisticamente?

Não, não. Nunca tive ansiedade pelo mundo. Já fui muito e vou quando solicitado. Mas eu não tinha essa ambição. Sempre fui muito reticente. Gosto mais da Europa. Aos Estados Unidos eu já fui duas vezes, mas acho que não tenho que fazer nada lá, sabe? Na Europa, eles me respeitam. É muito louco. Meus discos vendem na Alemanha. Portugal eu vou sempre. Mas não me prejudicou não, sabe? Dentro do contexto de Brasil, a minha presença foi muito importante. E era uma coisa política, embora eu não fosse panfletário, nem de esquerda, nem de direita. Quer dizer, minha tendência foi sempre de uma esquerda mais liberal, porque eu tive a ilusão, no Secos & Molhados, de achar que a esquerda entenderia meu papel e me apoiaria.

E não apoiou?

Não. Rejeitou tanto quanto a direita. Eu me vi sozinho no mundo e falei: foda-se o mundo, vou tocar meu barco sem o apoio de ninguém. Eu não sou de turma, não sou da turma do Ceará, não sou dos baianos, não sou dos mineiros. Eu sou o bloco do eu sozinho. Vou tocar meu barco. Aliás, por que chegamos aqui?

Eu perguntei se o fato de ter nascido brasileiro prejudicou sua carreira.

Não. Mas tive a chance de ir e não aceitei. Porque não me interessava. Não é porque não falava inglês. Chegaria lá e aprenderia, mas não me interessava. Achava que no Brasil era significativo existir alguém como eu se expressando. Sempre me expressei com total liberdade, desde a primeira entrevista. Quando me perguntaram de sexo, falei de sexo. Quando fui ler, estava assim: “Sobre o amor, Ney pensa isso”. Mas eu não tinha falado sobre amor, tinha falado sobre sexo. As pessoas tinham medo de escrever o que eu falava.

E a gente já falou de sexo bastante. E o amor? Hoje você não é casado?

Não.

Pretende?

Não, eu não quero casar. Não gosto desse convívio forçado. Sabe? Até me caso, mas eu morando aqui e o colega morando lá do outro lado.

O problema é a convivência?

Eu acho que o erro está comigo. Quando você mora com alguém, tem que estar 24 horas disponível para aquela pessoa. Mas ninguém aguenta estar 24 horas com aquela pessoa sem ter o momento sozinho, eu lendo meu livro sozinho. Eu preciso. Vivo sozinho desde os 17 anos, sou viciado nisso. Não é um sofrimento pra mim. As pessoas não entendem isso.

Acham que é solidão.

Acham que é solidão, que é sofrimento. E não tem nada disso. Elas não entendem que ficar sozinho é bom. Pode ser prazeroso. Mas tem o outro lado da questão. Tem horas que fico: “Porra, podia ter alguém na minha vida”. Só como uma referência. Mas pra isso acontecer tem que ser alguém que seja de verdade, que me arrebate. Tenho meu Vênus em Virgem. Você não sabe a chatice que é ter Vênus em Virgem.

Não entendo disso.

Vênus é quem rege os atores. E em Virgem é aquele que repara na unha do dedinho do pé. O que fala sobre determinados assuntos, o que pensa. E tudo pra mim tem um peso que tenho que admirar muito pra eu me ceder.

É exigente com os detalhes?

Sou exigente com caráter, ética. Tem que ser uma pessoa honesta. Não vou ficar com alguém só pra não ficar sozinho. Melhor ficar um velho sozinho do que fazer como a maioria – arranjar uma pessoa pra não ficar sozinho na velhice. Eu optei por ficar sozinho.

Você está com 72 anos e não ficou velho.

Não, não fiquei. Não me sinto velho.

Fisicamente, você nem de longe parece ter 72. Mas eu estou falando de outros aspectos.

Está falando da cabeça. Essa coisa da velhice também passa muito por um estado mental das pessoas – aquelas que ficam lamentando que a vida era melhor lá atrás. Eu não penso assim. Posso até achar que era mais bonitinho, gostosinho, que a pele já não é mais a mesma. Mas estou preferindo agora, hoje. Como é que se vive preso ao passado? Eu não sei. Tenho necessidade de estar em contato com o momento, conectado com o agora. Estou englobando a humanidade.

E como está a sua vida agora?

Está tudo certo. Não tenho mais aquela ansiedade. Tinha muita ansiedade por sexo. Eu não dormia se não trepasse. Ainda sou muito sexualizado, mas menos do que antes. Porra, não dormir se não trepar era demais, não é não?

Mas foi essa alta carga de energia sexual que fez de você esse artista que mencionei – aquele que está no nível de David Bowie. Concorda?

O grande componente é esse. Esse é o maior estímulo.

Você já gozou no palco?

Não, gozar no palco, não. Mas tem um fenômeno que acontece comigo. Depois de certa altura, tive que botar uma coisa pra me proteger. Porque eu ficava tão excitado que minha calça ficava molhada.

Como assim?

Molhava minha calça. Ficava uma marca redondinha aqui [aponta para baixo]. E aí comecei a me proteger para isso não aparecer. Tem dias que acontece mais, às vezes não acontece e tem dias que acontece menos.

Tem a ver com algum componente específico?

Tem a ver com a minha exposição sexual, de estar mais sexualizado no palco. Não é de alguém, é uma coisa minha comigo mesmo, que libero tanto que chega nisso. Depois, as pessoas chegam no camarim e eu mostro: “Olha como o show foi bom hoje”.