P&R - Rita Lee

Lançando livro com Laerte, cantora retoma as histórias criadas por ela no Twitter

Bruna Veloso Publicado em 16/12/2013, às 11h50 - Atualizado em 26/12/2013, às 14h40

Pausa

Rita diz que “Se a preguiça deixar” irá voltar a gravar
Renato Parada/Divulgação

O Twitter ficou mais triste desde que Rita Lee, há alguns meses, parou de escrever na rede social. Mas agora dá para matar a saudade dos minicontos de Rita no recém-lançado livro Storynhas (Companhia das Letras), com ilustrações de Laerte Coutinho. Considerando o humor ácido da cantora e o fato de ela raramente conceder entrevistas ao vivo ou por telefone (há anos Rita prefere se comunicar com jornalistas apenas por e-mail), há momentos em que é difícil saber o que é sério e o que é gozação em algumas das respostas a seguir. E é aí que está a graça.

No vídeo de divulgação do Storynhas, você e Laerte parecem em sintonia. Já tinham algum contato antes?

Do Los Três Amigos [trio de personagens representados e criados pelos cartunistas Laerte, Angeli e Glauco] eu tinha mais contato com o Angeli, a Rê Bordosa dele poderia ser eu, não fosse minha vida recatada. Laerte era o misterioso, eu o seguia de longe. Quando nos encontramos ao vivo na editora, foi casamento à primeira vista.

Foi divertido ver suas palavras nas imagens criadas por ele?

Foi a gota d’água para eu transbordar com a ideia, que até então não passava de um monte de historinhas que eu havia escrito no Twitter.

Então você enjoou de escrever na rede social?

Parei de tuitar porque acabou a novidade, recebia mensagens de gente genial e de terroristas. O jogo era esse, aprendi a brincar na chuva. Não levo jeito para o Facebook, gostava mesmo era daquela vomitação em 140 caracteres.

Muita gente que não tinha noção do seu bom-humor passou a conhecê-lo aí. Já pensou em dar vazão a esse seu lado em outros trabalhos?

Todos os dias psicografo à mão o que me vem à cabeça. Tenho trocentos bloquinhos e lápis espalhados, não jogo nada fora. São “Twitters” existenciais vindos sei lá de onde.

Você fez dupla mastectomia e isso acabou entrando no livro. Ter decidido passar por esse procedimento e não fazer uma reconstrução mamária foi mesmo algo fácil para você? Não mexeu com a sua autoestima?

Nunca tive peito para usar sutiã, sou do tipo magra de ruindade. Muitas mulheres da minha família tiveram câncer nos países femininos, mãe, irmã, tias, primas, avós. Me recusei a dormir com o inimigo e mandei para a guilhotina como medida de prevenção. Já faz cinco anos, estou bacana.

No ano que vem, o disco Atrás do Porto Tem uma Cidade, com o Tutti Frutti, completará 40 anos. Tem planos especiais para marcar a data?

Essas coisas de relançamentos me dão uma preguiça...

Em 2012, você decidiu deixar os palcos, mas depois disso fez shows. Por que mudou de ideia?

Minha última apresentação foi no aniversário de São Paulo, em janeiro de 2013, portanto não mudei de ideia. Fiquei direto na estrada por 50 anos sem nunca pedir apoio cultural, o que muito me orgulha. Minha vida musical no momento é compor, e se a preguiça deixar posso até pensar em gravar.

O que você acha de todo o burburinho que se seguiu ao Procure Saber? Acha válido o argumento de que é contraditória uma iniciativa como essa partindo de artistas que já tiveram eles próprios de lidar com a censura?

Não desejo a ninguém a humilhação que foi ter tido músicas proibidas pela imbecilidade da falange de Dona Solange [Hernandes, diretora do Departamento de Censura Federal nos últimos anos da ditadura no Brasil]. Amo Caetano, amo Gil. Odeio censura.

Você contaria a história da sua vida em uma autobiografia?

Não tenho no momento o menor saco para contar a história da minha vida. Caso um dia resolver, aviso ao povo que será tudo mentira.

Você sempre demonstrou não gostar de nostalgia. Mas tem alguma coisa da qual você sinta saudade, algo que te faça ficar nostálgica?

Tenho saudade de um pirulito de açúcar queimado que vendia na porta da minha escola.

Você se compara ao Ozzy Osbourne brincando, e parece levar a chegada da idade com bom humor.

Uma maneira saudável de encarar a velhice, minha e alheia, é lembrar que sempre pode ficar pior.