Lou Reed: um barulho perfeito

“Transformar dor em beleza é a marca de um grande artista”

Bono Publicado em 08/12/2013, às 08h19 - Atualizado em 14/03/2014, às 14h31

INSPIRADOR
Reed e Bono em Nova York, em 2002
KMazur/WireImage/getty images

O mundo é mais barulhento hoje, mas não é o tipo de barulho que você quer deixar mais alto. O mundo das palavras está um pouco quieto e ficou um tanto mais mudo. O mundo da música já não é mais tão afiado.

Lou Reed tirava música de barulho. O barulho da cidade. Caminhões grandes chacoalhando em cima de buracos na rua; a respiração pesada dos metrôs, o tremor no chão; o ruído branco de Wall Street; o ruído rosa da antiga Times Square. O brilho do néon no centro, as casas de massagem e de tatuagem, os bares e as lanchonetes, as prostitutas e os tapumes que fazem a vida da cidade grande.

Nova York era para Lou Reed o que Dublin foi para James Joyce, o universo completo da escrita dele. Ele não precisava sair da cidade em busca de material, lá havia mais do que o suficiente para suas canções de amor e ódio. De Metal Machine Music a Coney Island Baby, da obra com o Velvet Underground ao trabalho com o Metallica, a cidade a que ele dedicou a vida foi a musa mais do que qualquer outra. Até Laurie Anderson entrar na vida dele, há 20 anos, você poderia ser perdoado por achar que Lou não tinha outro amor além do barulho de Nova York. Se ele achava que as pessoas eram capazes de ser burras, para Lou, os nova-iorquinos eram os mais inteligentes de todos.

A primeira vez em que estivemos juntos foi na turnê Amnesty International Conspiracy of Hope, em 1986. Ele conversava sobre barulhos de guitarra com The Edge, sobre sons de motocicleta com Larry [Mullen Jr. ], sobre James Joyce comigo e – talvez eu esteja me lembrando disso errado – de relacionamentos com Adam [Clayton]. Em uma ocasião, naquela fala arrastada perfeita, ele descreveu como ficou incomodado de ter concordado em emprestar uma de suas motos para a namorada. Ela sofreu um pequeno acidente e estragou a suspensão de um jeito que obviamente o deixou incomodado. Perguntei como a namorada dele ficou após o acidente. Ele olhou para mim, seco, e disse: “Bono, dá para substituir a namorada”.

O humor seco dele era facilmente confundido com grosseria, e Lou se deliciava com essa incompreensão. Para se registrar em hotéis, o pseudônimo dele na época era Raymond Chandler. Perguntei o que ele gostava sobre o gênio das histórias de detetive. “O humor mordaz e o caráter sucinto”, ele respondeu. Pedi a ele um exemplo: “‘Aquela loira é mais ou menos tão bonita quanto um lábio leporino’. Não dá para ficar melhor do que isso”. Ele riu alto.

Lou exemplificou a ideia da arte como descoberta da beleza em lugares inesperados. Uma das canções mais famosas dele, “Perfect Day”, fica ainda mais perfeita por ser sobre um viciado em heroína passeando no parque sob o sol quente, completamente alheio aos problemas que o levaram a seu vício. Ela já foi cantada por todo tipo de voz sincera desde que foi escrita em 1972, incluindo a minha e corais infantis. Ela nunca deixa de me dar uma dor extra quando eles cantam o último verso – “You’re going to reap just what you sow” (Você vai colher exatamente o que plantou) –, obviamente alheios ao calafrio sugerido.

Transformer foi o álbum que me ganhou quando foi lançado, em 1972. Eu e o meu melhor amigo, Guggi, passávamos horas escutando essas histórias da rua, pensando que sabíamos o que era caminhar pelo lado selvagem. Tínhamos 12 e 13 anos.

Transformação está no cerne do melhor trabalho de Lou Reed: a capacidade ou incapacidade das pessoas de se transformar. Sabemos que transformar dor em beleza é a marca de um grande artista e compreendemos que provocação é a arte do romance, mas ficamos maravilhados com a maneira como as canções de Lou Reed são leves. Balões de metal cheios de hélio, nunca pesados por seus temas, humor sempre a um passo da acidez. Magia e perda, de fato. Lou Reed foi um alquimista, transformando bases de metal em ouro, metal pesado em canções tão disciplinadas quanto se viessem do Brill Building – e vinham mesmo, porque este é o mundo onde Lou começou.

Lou nasceu de duas influências que não podem ser subestimadas. Número um: o talento de seus colegas de banda do Velvet Underground, que então influenciaram basicamente todos os grupos que tinham um pé nos anos 70 (veja a nossa própria “Running to Stand Still” para ver uma prova indiscutível). O U2 ficou fora de si de alegria quando o Velvet voltou a se reunir para fazer alguns shows no início da década de 90, incluindo alguns conosco. “Pale Blue Eyes” é a perfeição no pop.

Número dois: o escritor de contos Delmore Schwartz. Lou retomou esse assunto comigo algumas vezes e me fez ler In Dreams Begin Responsibilities (Com sonhos começam responsabilidades – eu li, e é verdade.) Ele também me deu uma coleção de ensaios, The Ego Is Always at the Wheel (O ego está sempre na direção – e está mesmo, e eu sei.) Eu dei a ele uma coleção de poemas de Seamus Heaney há um par de meses. Nossa última conversa foi um simples agradecimento.

A música é eterna. Vai continuar sendo feita, mesmo sem ele. Foi maravilhoso ver Lou reunido com Bob Ezrin nos shows Berlin: Live, de 2006, e saber que Julian Schnabel, o adorado vizinho dele, fez o cenário e as filmagens. Acho que originalmente a intenção era que fosse uma ópera-rock para o palco em vez da tela. Talvez isso aconteça agora, à medida que o mundo digerir como a perda que acabamos de sofrer é séria.

É fácil demais pensar em Lou Reed como uma criatura selvagem que colocou músicas sobre heroína nas paradas pop, como um tipo de folgado decadente da Factory de Andy Warhol. Isso não pode estar mais longe da verdade. Ele era pensativo, meditativo e extremamente disciplinado. Antes da volta da hepatite que ele pegou como usuário de drogas, Lou estava em ótimas condições físicas. Ele dava ao tai chi o crédito de seu físico ágil e de sua pele viçosa. É assim que eu vou me lembrar dele: uma figura imóvel no olho de um furacão de metal, um artista que tirava formas estranhas do vácuo disforme que é a cultura pop, um compositor extraindo melodias da dissonância que Yeats chamava de “esta maré moderna imunda” e, sim, a maior cara de legume do pop – com tanta comédia dançando em volta daqueles olhos perfurantes. Hoje o universo não está dando risada.