Depois de investir no rock, Jared Leto volta às telas e interpreta transexual com Aids

“Ele desceu do avião usando vestido, salto alto e peruca”, conta o diretor Jean-Marc Vallée

Gavin Edwards | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 14/01/2014, às 17h02 - Atualizado em 17/01/2014, às 12h33

OPOSTOS
Leto (à esq.) e Matthew McConaughey, protagonistas de Dallas Buyers Club
ANNE MARIE FOX/FOCUS FEATURES/DIVULGAÇÃO

Jared Leto é o tipo de artista que não aceita a ideia de limites. Aos 41 anos, ele é famoso desde os tempos do governo de Bill Clinton nos Estados Unidos – estourou como o bad boy sonhador que é o interesse romântico de Claire Danes na série Minha Vida de Cão. Desde então, apareceu em mais de 20 filmes, incluindo Psicopata Americano, Clube da Luta e Réquiem para um Sonho. Só que, em 1998, lançou a banda Thirty Seconds toMars, embora soubesse que seria rotulado de superficial ou coisa pior. Cerca de seis anos depois, contra todos os conselhos de especialistas, Leto encerrou a carreira no cinema para se concentrar somente na música. “Recomendo isso a qualquer pessoa em qualquer profissão: vá buscar outra coisa”, ele diz. “Acho que isso me fez uma pessoa melhor, mas com certeza me fez também um ator melhor.”

5 Perguntas Para: Jared Leto.

O filme que fez Leto sair da aposentadoria é Clube de Compras Dallas, que estreou fazendo barulho nos Estados Unidos (estreia em 21 de fevereiro no Brasil), e ainda rendeu a ele o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. O artista faz uma transexual chamada Rayon, que se une a um caubói homofóbico e soropositivo (Matthew McConaughey, que levou o prêmio de Melhor Ator de Drama pelo papel, no Globo de Ouro) para distribuir medicamentos experimentais para a Aids na década de 1980. A abordagem de Leto foi mergulhar no personagem, desde o momento em que chegou à Louisiana para filmar: todo dia, aparecia no set já vestindo roupas femininas para só depois colocar o figurino da gravação. “Ele desceu do avião usando vestido, salto alto e peruca”, conta o diretor Jean-Marc Vallée. “A primeira semana foi esquisita, porque eu não sabia do que chamá-lo. Ela? Jared? Rayon? Só que entrei nessa. Ele era ela, e ela era legal. No final das filmagens, dei um presente de mulher: uma camiseta feminina com o Marc Bolan estampado.”

Os vencedores do Globo de Ouro 2014.

Com atuações cruas e engraçadas, Leto e McConaughey invertem totalmente o clichê hollywoodiano da drag queen atrevida que dá lições de vida (a expectativa de que ambos sejam indicados ao Oscar é grande). Mas, embora o personagem de Leto demonstre uma alegria de viver impressionante frente à morte, o ator achou o papel esgotante, emocional e fisicamente. “A única maneira de conseguir fazer o que faço é mergulhando fundo de cabeça”, afirma. “Recebo o que dou. Se você está fazendo o papel de uma transexual viciada morrendo de Aids e que fala em uma espécie de dialeto, com todas aquelas circunstâncias e condições emocionais, eu não entendo como conseguir abrir mão de tudo isso quando alguém disser ‘corta’.”

“Houve muita descoberta”, Leto acrescenta, “mas fiquei contando os dias para acabar.” O próximo papel já está a caminho? “Não li nenhum roteiro desde então”, diz, sorrindo. “Nenhum.”

Duas noites antes, o outro lado de Jared Leto está totalmente à mostra no Hollywood Bowl, em Los Angeles, onde o Thirty Seconds to Mars, que se apresentou na última edição do Rock in Rio, está fazendo um show lotado em sua cidade natal. “Acredito em vocês, Califórnia – vocês acreditam em mim?”, Leto pergunta às pessoas da plateia (aviso: eles todos acreditam).

Galeria - Rock in Rio 2013: guitarras enfim dão as caras no festival carioca.

Como o Panic! at the Disco e o The Killers, o Thirty Seconds to Mars faz sucesso nos Estados Unidos, mas é ainda maior na Europa. Depois de 11 anos, lançou quatro álbuns e vendeu 10 milhões de cópias. “Fracasso o tempo todo”, pondera Leto. “Toda vez que gravo um disco, você ouve as dez melhores músicas. Compus uma centena para o último álbum [Love Lust Faith + Dreams, de 2013]. O fracasso não é o inimigo – mas o sucesso frequentemente é.”

30 Seconds to Mars abraça o público adolescente, mas quer amadurecer.

Depois do show, Leto e a banda dão milhares de autógrafos, enquanto ele divaga sobre a própria vida. “Daqui a cinco ou seis anos, posso desaparecer”, devaneia. “Quantas pessoas você precisa amar para se sentir bem consigo mesmo? Quantas vezes precisa ficar diante de dezenas de milhares de pessoas que estão cantando suas músicas? Quantos cineastas precisam te contratar – quantos Darren Aronofsky e Oliver Stone e David Fincher e Terrence Malick precisam dizer ‘ele é suficientemente bom para mim’ antes que você seja suficientemente bom para si mesmo?”