O legado de Henfil inclui não só tiras provocadoras e pensatas políticas, mas também a reforma dos hemocentros no país

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 11/02/2014, às 10h19 - Atualizado em 13/03/2014, às 14h37

MITO DO TRAÇO
Henfil em 1983;

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“Tô vendo a esperança.” assim costumava dizer a Graúna, festejando o início do fim da ditadura militar que persistiria no Brasil até 1985. O personagem, uma ave nordestina faminta e politizada, foi uma das mais famosas criações de Henrique de Souza Filho, o Henfil, eternizado como cartunista, quadrinista, humorista e escritor. De carreira prolífica, atuou em jornais de grande circulação e na televisão, mas se notabilizou na imprensa alternativa, como o semanário O Pasquim, além de publicar histórias em revistas próprias, como o Fradim.

Se estivesse vivo, Henfil teria completado 70 anos neste mês. Em 24 anos de uma carreira iniciada em 1964, criou uma legião de heróis emblemáticos, como os frades católicos Cumprido e Baixim e a chamada “Turma da Caatinga”, que incluía, além da Graúna, o Bode Francisco Orelana e o Capitão Zeferino. Com um humor cáustico e de viés político, esses personagens faziam a crítica social de seu tempo, cada um à sua maneira. Cabia ao Baixim executar o papel do hoje tão difundido “politicamente incorreto”, com escatologia e o típico gesto de “top-top”, em contraponto ao Cumprido, o frade medroso e afeminado, que sofria bullying do primeiro. Além desses, Henfil também é pai de Ubaldo, o Paranoico, cujas situações envolviam experiências relacionadas à repressão – o medo de ser preso e a tortura – enfrentada por tantos brasileiros. Através do humor, Henfil criou o retrato perfeito da tragédia e da barbárie nacionais da época.

“Henfil sabia fazer humor político como ninguém, porque tinha um objetivo claro em seus desenhos: ‘mudar o mundo’”, afirma Ivan Cosenza de Souza, único filho do artista, fruto da relação com a psicóloga Gilda Cosenza. “Costumo dizer que poucos políticos no Brasil fizeram tanto pelo país quanto Henfil fez.” Em 2009, Ivan fundou o Instituto Henfil, com o objetivo de preservar a produção artística do pai. “Tenho uma convivência diária com o trabalho dele, muito mais do que na época em que estava vivo”, diz. O acervo conta atualmente com 15 mil originais, número que tende a aumentar, já que ainda hoje amigos antigos devolvem originais resgatados dos diversos jornais com os quais Henfil colaborou.

Sem jamais esquecer as origens mineiras (nasceu em Ribeirão das Neves, em 5 de fevereiro de 1944), Henfil utilizava seu trabalho para abordar os temas da moral religiosa – como o medo do inferno –, expandindo essas ideias para uma crítica à moral político-burguesa brasileira. A primeira aventura pelas charges aconteceu quando trabalhou na edição mineira do Jornal de Sports, em 1967, desenhando personagens que representavam os torcedores do Atlético Mineiro e do Cruzeiro. Com a boa repercussão, foi trabalhar na edição carioca do mesmo jornal, criando outros ícones ligados ao futebol local, como o flamenguista Urubu, o fluminense Póde- Arroz e o vascaíno Bacalhau, que, de tão admirados, se tornaram os mascotes não oficiais dos clubes.

Foi com a Fundação de O Pasquim, em 1969, do qual foi colaborador, que Henfil viu seu trabalho atingir uma popularidade incomum. Além das tiras, também publicou livros de crônicas, entre eles Diário de um Cucaracha (1976), Henfil na China (1980) e Diretas Já! (1984). Também se envolveu com cinema – escrevendo o roteiro e dirigindo a comédia Tanga (Deu no New York Times? ), de 1987 – e televisão, com o quadro “TV Homem”, veiculado no programa matinal TV Mulher, da Rede Globo, no qual fazia comentários corajosos sobre política e comportamento, apesar de os tempos ainda serem repressivos. Durante anos, publicou a coluna “Cartas da Mãe”, primeiro no Pasquim, depois na revista Isto É, a pretexto de se comunicar com a mãe, Dona Maria, e relatar as mazelas do país. Também colaborou com os movimentos pela democratização surgidos nos anos 1970 e 1980 e jamais se afastou da militância do então recém-formado Partido dos Trabalhadores. “Henfil legou ao Brasil uma obra de criatividade ímpar, que se mantém atual até hoje e instiga a reflexão, sem perder nenhuma piada e, nem por isso, cair no óbvio ou ser apelativo”, diz Mateus Prado, editor da ONG Henfil – Educação e Sustentabilidade, responsável pelo relançamento da obra do cartunista (leia box abaixo).

Henfil e dois de seus irmãos, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Chico Mário, eram hemofílicos e foram contaminados pelo vírus da Aids em transfusões de sangue que faziam periodicamente. A partir desta tragédia familiar, o controle das doações de sangue passou a ter um foco mais rigoroso: a Constituição de 1988 inclui o artigo 199, que proíbe a comercialização de sangue e de seus derivados. A morte de Henfil, em 4 de janeiro de 1988, gerou a campanha “Salvem o sangue do povo brasileiro”, como forma de pressionar o poder público a regulamentar a decisão, que se deu com a Lei Federal n.° 10.205, promulgada em março de 2001. “Meu pai foi a primeira pessoa pública a admitir que estava com Aids, e a denunciar o sistema de coleta de sangue vigente no Brasil”, lembra Ivan. “Infelizmente, foi por causa de morte dele que tivemos esta revolução na qualidade do sangue no Brasil.” Ou seja, não é apenas pela inigualável obra artística que o legado de Henfil continua rendendo conscientização.