Philip Seymour Hoffman 1967-2014

Ator deixa o legado de um trabalho primoroso que partiu o coração e deu socos no estômago do espectador

DAVID FEAR Publicado em 11/02/2014, às 09h41 - Atualizado em 13/03/2014, às 14h57

NO PASSADO
Hoffman já havia admitido constantes problemas com drogas
GARETH CATTERMOLE/GETTY IMAGES

Você deve tê-lo notado no papel de um estudante em Perfume de Mulher ou como o operário parceiro de John Cusack em Dinheiro, pra Que Dinheiro?. Ele pode ter te impressionado como o caçador de tempestades movido a cafeína em Twister. Mas a primeira vez que você provavelmente viu Philip Seymour Hoffman – realmente o enxergou na tela – foi em Boogie Nights – Prazer sem Limites. Ele era Scotty, um assistente de filmes pornôs nos anos 1970, um homem pouco inteligente sempre à espreita nos arredores. Há um senso de inocência e vulnerabilidade naquela atuação. O que falta ali é qualquer resquício de ego de ator. O personagem é um completo e impassível perdedor. Você quer empurrá-lo para longe e abraçá-lo ao mesmo tempo. Você não consegue tirar os olhos dele.

A trajetória de Philip Seymour Hoffman em dez filmes.

Nenhum ator contemporâneo era melhor em fazer o espectador sentir simpatia por idiotas, desajeitados e porcos, mesmo que – não, na verdade, especialmente se – ele os interpretasse colocando na mesa todas as piores qualidades deles. Mas Philip Seymour Hoffman dava um sopro de vida a qualquer personagem que pegasse para si.

Quando começou a circular a notícia de que ele havia sido encontrado morto no apartamento dele em Nova York, no domingo, 2 de fevereiro, como resultado de uma provável overdose, começou a se formar uma comoção na internet: “Por favor, que isso seja apenas um boato”; “Acho que não é um boato”; “Descanse em paz”. Mas o que ficou não foi só o choque genuíno que tomou conta do universo do Twitter, mesmo que ele já houvesse admitido um problema com drogas no passado. Foi o senso de uma perda pessoal entre os fãs – amigos atores e cinéfilos – que fez esse acontecimento parecer diferente. Hoffman não apenas fez você acreditar que ele era Truman Capote, o papel que rendeu a ele o Oscar, ou o vilão megalomaníaco de Missão: Impossível III. Ele fez você sentir uma conexão com essas pessoas, não importa o quão distantes ou fantasiosas elas fossem. Ele fez você sentir por elas, ponto final.

Se você por um acaso passou algum tempo com ele em um nível pessoal, deve pensar sobre o quão generoso e gentil Hoffman podia ser. Há uns meses, eu e um grupo de amigos estávamos em um hotel, em uma festa de um festival de cinema, quando decidimos subir até o bar no topo do prédio. Quando chegamos lá, ali estava Hoffman, sozinho, longe das celebridades e baladeiros que estavam no andar de baixo; ele estava na varanda, de calça jeans e camiseta, tirando fotos da vista com o celular. Meu amigo decidiu ir até ele para dizer o quanto amava a comédia Quero Ficar com Polly (2004), na qual Hoffman atuou. Imploramos a nosso amigo que não o importunasse; sem vergonha por causa da bebida, ele foi até lá e abordou o ator, enquanto nós nos viramos, fingindo que não tínhamos ideia do que estava acontecendo.

Hoffman agradeceu pela gentileza e começou a conversar; logo, ele veio até o resto de nós e se apresentou. Então, falou conosco por bons 20 minutos, contando histórias da companhia de teatro LAByrinth, da qual ele fez parte em meados dos anos 1990, perguntando o que havíamos achado da exibição de O Mestre, olhando os pôsteres estrangeiros do filme que tínhamos em nossos celulares (“Amei esse, preciso consegui-lo para mim”, ele disse sobre um pôster polonês particularmente artístico). Então, deu boa noite a todos e lentamente caminhou de volta para onde estava, sozinho.

Ficamos embasbacados com o papo. Um de nós se questionou se ele sempre conversava com fãs em eventos desse tipo. Outro notou que, ali em cima, isolado, Hoffman aparentava apenas estar muito, muito solitário. Todos concordamos, e descemos as escadas. Ele acenou, nós acenamos de volta. Ele então voltou a olhar para o horizonte noturno de Manhattan.