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O jogo que nunca existiu

Em 1973, o golpe militar que empossou a ditadura de Augusto Pinochet rompeu as relações entre o Chile e a União Soviética. O fato mudou os rumos da Copa de 1974 e transformou o Estádio Nacional de Santiago em um vergonhoso túmulo da história moderna

Edgardo Martolio Publicado em 11/03/2014, às 07h44 - Atualizado em 14/03/2014, às 13h55

Augusto Pinochet e Salvador Allende
AP

Em 2012, a Federação Chilena de Futebol pediu à Fifa para não jogar contra a Colômbia em 11 de setembro, no Estádio Nacional de Santiago, pelas eliminatórias para a Copa 2014. A Fifa não aceitou a petição e a partida aconteceu, mas em outro estádio da cidade, o Monumental David Arellano. Esse simples fato obriga a entender por que o dia 11 de setembro não é uma data qualquer na vida do povo chileno, assim como o Estádio Nacional não é mais considerado um simples cenário esportivo.

Em 1970, os votos do Partido Comunista, apoiando a coalizão esquerdista Unidad Popular, tiraram do poder o governo de centro-direita que comandava o Chile havia mais de uma década. Os Estados Unidos não iriam perdoar a mudança em direção ao socialism naqueles tempos de Guerra Fria. Assim, medidas político-econômicas do país do norte começaram a desestabilizar o Chile, após três quartos de século de estabilidade democrática/presidencialista (até então, uma raridade na América Latina). Em 11 de setembro de 1973, o presidente Salvador Allende (à direita, na foto) morreu durante um efetivo golpe de Estado, cuja ação durou menos de 24 horas. O militar Augusto Pinochet (à esquerda, na foto), com o apoio da CIA, tomou o controle do país para programar reformas, ressuscitar o capitalism e dizimar a população dissidente (tanto que precisou improvisar campos de concentração em lugares tão inadequados quanto o Estádio Nacional de Santiago). Allende governou o Chile por menos de mil dias; Pinochet, por 17 anos.

O golpe aconteceu durante a fase final das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Um mês antes, a seleção chilena havia ganho o direito de disputar uma repescagem intercontinental, como uma última chance de obter uma vaga no torneio. O adversário seria a União Soviética, grande parceira ideológica e comercial dos últimos anos. Por sorteio, a Fifa apontou que as seleções deveriam se enfrentar duas vezes: em 26 de setembro de 1973, no Estádio Lênin, em Moscou; e em 20 de novembro, no Estádio Nacional de Santiago.

Sem imaginar que ocorreriam mudanças tão drásticas no panorama político do país, a Federação Chilena de Futebol programou uma série de jogos preparatórios a caminho de Moscou e reservou as passagens aéreas dos jogadores para a noite de 11 de setembro. Naquele mesmo dia, Salvador Allende morreu dentro do palácio presidencial, obrigando o Chile a largar a mão esquerda soviética e agarrar a mão direita norte-americana, tudo em um piscar de olhos.

Rapidamente, a URSS passou de principal aliada do Chile à representação do pior inimigo. Pinochet não era partidário de enfrentar a União Soviética. Pessoalmente, o militar preferia ficar de fora do Mundial a se misturar com “esses russos”. Mas o general acabou sendo convencido a autorizar a viagem, porque ir à Copa seria bom “para o esporte chileno” e, caso o time tivesse uma atuação digna, também seria bom “para a imagem internacional do novo governo e uma alegria para o povo”. Quem o convenceu de modo decisivo foi o general Gustavo Leigh, chefe da Força Aérea, que por sua vez foi persuadido por seu médico pessoal, o doutor Elias Jacob, também médico do time chileno.

A seleção do Chile enfim embarcou para sua turnê futebolística. “Partimos com medo, todo mundo sabia que a maioria dos jogadores era partidária do governo de Allende, então como desapareciam vizinhos, conhecidos, amigos, temíamos que pudessem fazer alguma coisa com nossas famílias”, falou anos mais tarde o meio-campista Guillermo Páez. “Eu morava na Villa Santa Adela, perto do Aeroporto dos Cerrillos, e fui pela Estrada de Melipilla. Um militar me parou e pediu a minha identificação. Como não costumava andar com os documentos, mostrei meu crachá de jogador do Colo-Colo e da seleção, e ele me deixou ir. Há 40 anos que me pergunto: quantos outros irmãos não tinham esse crachá nem nada para mostrar e foram baleados por isso?”

Eduardo Herrera, jogador do Wanderers de Valparaíso, deu um relato semelhante: “Me deixavam passar porque era jogador da seleção, mas no trajeto me paravam umas dez vezes, cada dia e todos os santos dias, quando ia e voltava dos treinos”. Anos mais tarde, o atacante Carlos Caszely – famoso por seus gols e por ter sido um opositor veeemente do ditador Augusto Pinochet – declarou: “Lembro aquele 11 de setembro como um dos dias mais tristes da minha vida. Quando embarquei, estava triste e com medo, não por mim, mas por familiares e amigos que por minha causa poderiam ser prejudicados, perseguidos...” Caszely, que nunca escondeu as tendências de esquerda, foi o primeiro jogador a ser expulso com um cartão vermelho na história das Copas – mais precisamente na da Alemanha, em 1974.


A partida entre Chile e Urss em Moscou aconteceu exatos 15 dias após o golpe de Pinochet, diante de 60 mil pessoas que compareceram para vaiar os “novos capitalistas” da América do Sul. Não há nenhum registro audiovisual daquele empate sem gols na então hermética União Soviética. Mas os próprios atletas relatam que durante os 90 minutos, o time da casa permaneceu no ataque, enquanto o Chile ficou fechado na defesa, como havia orientado o mítico treinador Luis “Lucho” Alamos. Enfim, o apito final do árbitro carioca Armando Marques encerrou um zero a zero mais conveniente para os latino-americanos do que para os locais.

Antes do jogo, as coisas em Moscou também não foram fáceis para os atletas chilenos que pensavam como esquerdistas e eram enxergados como “embaixadores da extrema direita”. As autoridades soviéticas pareciam não se importar com a ideologia individual dos jogadores: para elas, a delegação se identificava com Pinochet, então deveria ser tratada de acordo. A delegação passou dias concentrada no Hotel Ucrânia, onde passou por situações desagradáveis . “A comida não era a que nós pedíamos; o ônibus nunca chegou na hora nem mesmo no dia em que fomos reconhecer o campo. Quando chegamos, o estádio já tinha fechado. Os jogadores tiveram de pular o muro para treinar”, declarou o cartola Alfredo Asfura. Os atletas Alberto Quintano e Pedro Fornazzari viajaram via México, pois lá atuavam, e, como chegaram três horas antes do que o restante da delegação, tiveram de esperar sentados no chão do aeroporto, na sala da KGB. O ponta-esquerda Leonardo Veliz relatou que em Moscou “fui abordado na rua por um estudante chileno da Universidade Lumumba, filho de um comunista. Eu disse a ele para se esquecer de voltar para o Chile, porque seu antecedente na URSS seria um perigo para sua integridade. Acho que salvei uma vida”.

Os jogadores chilenos lembram que a atuação de Marques foi importante, porque ele não teria se deixado influenciar pelo ambiente ou pelas vaias. O atacante Elias Figueroa, que na época jogava pelo Internacional de Porto Alegre, declarou: “Como eu já falava um pouco de português, aproveitei para lhe dizer algumas coisas, criar clima favorável. E embora ele diga que não, eu sei que me deixou ‘passar várias’, como a falta que cometi no atacante Andreassian”.

Marques, 84 anos, não pretende relembrar a partida. “Eu só fiz meu trabalho”, é tudo o que diz ao telefone. Hugo Gasc, único jornalista chileno que esteve em Moscou naquele dia, disse que o juiz foi decisivo, “porque era um anticomunista raivoso. Eu sei disso, porque falei com ele antes da partida. Marques detestava o regime comunista”. Oleg Blokhin, a estrela da seleção soviética, não quis levantar suspeitas, mas deixou dúvidas com um discreto silêncio: “Em relação ao jogo bruto da defesa chilena e ao que se disse dos excessos de Elias Figueroa, em particular, eu digo que é verdade. Mas não gostaria de comentar nada sobre o desempenho do árbitro brasileiro”.

Após o empate em Moscou, os dois times se prepararam para a partida de volta, em Santiago. Com o correr dos dias ditatoriais, o Estádio Nacional havia se transformado em um campo de concentração de trabalhos forçados ao estilo do regime nazista. Alguns detentos daquele tempo hoje lembram que durante a noite “sempre morria alguém, seja fuzilado pelos carabineiros de Pinochet, seja por suicídio”. Praticamente todos que para lá eram mandados acabavam também torturados. Assim sendo, as notícias do que acontecia no estádio correram rápido pelo mundo. Ao mesmo tempo em que surgiam as dúvidas sobre se o local da partida seria mesmo aquele, os militares confirmavam o evento, enquanto cuidavam do gramado melhor do que tratavam qualquer detento.

No dia 24 de outubro, uma comitiva da Fifa, junto ao almirante Patrício Carvajal, ministro da Defesa do Chile, inspecionou o estádio sem escutar gritos e prisioneiros ou observar qualquer fator estranho. Questionado, o órgão maior do futebol se declarou neutro e saudou a “legalidade internacional” com a simples finalidade de “não complicar” e concretizar o jogo naquele campo. Os enviados disseram ter “revisado todos os lugares” e não presenciaram nada “anormal”. O brasileiro Abílio D’Almeida, chefe da missão da Fifa, declarou em bom espanhol: “No se inquieten por la campaña informativa internacional contra Chile, con mi Brasil sucedió lo mismocuando los militares llegaron al poder; pero luego pasa”. Até aquele momento, de acordo com a Cruz Vermelha Internacional, pelo menos 30 mil chilenos haviam sofrido torturas naquele mesmo local.

Dezenove dias antes da partida, em 2 de novembro, a URSS enviou uma declaração à Fifa, rejeitando a partida, mesmo que isso implicasse na exclusão da nação do torneio: “Por considerações morais, nossos atletas não podem jogar atualmente no Estádio Nacional de Santiago, polvilhado com o sangue dos patriotas chilenos (...). A União Soviética protesta firmemente e declara que, nas atuais condições, contrárias do senso comum, recusa-se a participar do jogo eliminatório em solo chileno e responsabiliza por isso a administração da Fifa”. A resposta de um membro do Comitê Executivo da entidade foi rápida e pouco favorável: “Se o senhor [Valentin] Granatkin [presidente da Federação Soviética] disse que o Estádio Nacional está ocupado com os detentos, nós, aqui, recebemos uma carta na qual o governo chileno afirma que vários dias antes de 21 de novembro ele estará disponível para o jogo”. E assim a partida foi mantida.


A comunidade esportiva internacional também não se envolveu. Apenas Bulgária, Polônia e Alemanha Oriental – todas alinhadas à URSS – ameaçaram boicotar a Copa do ano seguinte, o que também acabaram não fazendo. Por outro lado, a Federação Chilena solicitou uma indenização econômica se a partida fosse suspensa e ainda ofereceu disputar o jogo decisive no Estádio Sausalito, em Viña del Mar. Mas, antes de alguém aceitar a proposta, o próprio Pinochet mandou desautorizar a mensagem. Obstinado, ele fazia questão que a partida fosse no Estádio Nacional “para mostrar ao mundo que não temos nada a esconder... No Estádio Nacional ou nada”. A URSS, por sua vez, declarou que aceitaria enfrentar o Chile se o jogo se realizasse em um país neutro. Sem vacilar, a Fifa se manteve firme em sua determinação.

Aos poucos, o governo chileno esvaziou o estádio, transferindo os prisioneiros para outros lugares de reclusão, especialmente no campo inaugurado na abandonada Salitrera Chacabuco, a 100 km de Antofagasta. Por fim, 48 horas antes do jogo, a arena do Estádio Nacional, onde o Brasil havia se consagrado bicampeão mundial em 1962, estava pronta para a maior farsa da história das Eliminatórias das Copas.

Dezoito mil ingressos foram vendidos. O show daquela jornada, batizado mais tarde pela imprensa chilena como “o gol mais triste do Chile”, começou com o som de bandas militares para entreter os pagantes – porque jogo não haveria. A URSS não havia desembarcado no país. Avisados, os jogadores chilenos puderam relaxar. Caszely relatou que, durante a espera no hotel antes da “partida”, muitas pessoas “se aproximavam, nos pedindo para que olhássemos no estádio se o filho, a esposa, o marido, o pai e o irmão não estavam lá... Foi muito triste”.

Mario Silberman, então vice-embaixador chileno em Moscou, relatou anos depois, após a dissolução da União Soviética: “Sempre soube que essa revanche não aconteceria, pois, dias após o primeiro jogo, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com o Chile e a embaixada foi desconectada. No mês seguinte, o consulado do Peru assumiu os negócios chilenos na URSS. Foram dias difíceis, tanto que não consegui voltar para casa por mais de um ano”.

Na tarde de 21 de novembro de 1973, a esquadra chilena entrou em campo, pronta para garantir a vaga na Copa da Alemanha: não haveria time adversário. “Era assustador pisar naquele gramado, sabendo o que havia se sucedido ali dois, três dias antes, inclusive com pessoas conhecidas de muitos de nós”, disse o jogador Véliz. O juiz (chileno) Rafael Ormazábal apitou o início do jogo: Valdes saiu com Caszely, que tocou para Véliz, que passou para Páez. Este devolve para Caszely e, conforme combinado no vestiário, o camisa 9 entregou a bola ao capitão Francisco “Chamaco” Valdes, que encarou o gol vazio e converteu. Gol de Pinochet. Como não havia nenhum soviético em campo para reiniciar a partida, o árbitro decretou o fim do jogo, com vitória para o Chile por 1 x 0.

Anos mais tarde, Oleg Blokhin desmitificou “a rara fidalguia da liderança soviética” e confessou que a decisão de não se apresentar foi dos jogadores, por questões de segurança, e que o governo soviético simplesmente concordou com eles: “Não sabíamos o que poderia acontecer com a gente; escutávamos que o Pinochet matava a todos os adversários ideológicos e nós éramos soviéticos...”

Dois meses após a encenação, a Fifa validou a vitória do Chile, mas modificou o placar final: 2 x 0. Foi assim que o Chile se classificou e a União Soviética ficou de fora do Mundial de 1974. Talvez para comemorar a absurda vitória (e justificar o ingresso pago por aquelas 18 mil pessoas), a ditadura organizou para o mesmo dia uma partida contra o Santos F.C., cujo time se encontrava no Chile (mas sem Pelé) e cobrava cachê de US$ 30 mil. O clube brasileiro venceu por 5 x 0, deixando claro que o Chile só tinha condições de vencer se não tivesse um rival na frente. De fato, na Copa de 1974, o país não ganhou nenhum jogo: perdeu um e empatou dois. No 0 x 0 contra a Austrália, inclusive, um grupo de chilenos invadiu o campo para protestar contra Pinochet. E os protestos persistem em todos os 11 de setembro seguintes, quando o povo chileno se divide entre os que choram seus desaparecidos e os que ainda defendem a memória do velho ditador.