Pulse

P&R - Rafinha Bastos

No comando do Agora É Tarde, comediante volta a ter destaque na TV aberta

Bruna Veloso Publicado em 11/03/2014, às 08h55 - Atualizado às 09h05

Sem remorsos
Rafinha diz que problemas com a Justiça foram aprendizado
RODRIGO BELENTANI/Divulgação

Depois de algumas polêmicas envolvendo processos judiciais, desentendimentos com antigos colegas de trabalho e piadas consideradas ofensivas por uma parcela do público, Rafinha Bastos volta a uma posição de destaque na TV aberta. Substituindo Danilo Gentili no talk show Agora É Tarde, Bastos tem agora sob seu com mando um programa de formato consagrado – e um cargo bastante desejado. Pessoalmente, não se trata de “um novo momento” ou uma volta por cima, ele garante. A ideia, agora, é mesclar humor e jornalismo, tendo aí a vantagem de o programa ser gravado, o que dá a possibilidade de editar possíveis excessos. “Aprendi que existem coisas para as quais a televisão ou o Twitter talvez não sejam o melhor ambiente”, ele afirma.

A entrevista que você deu para a Rolling Stone Brasil em 2011 lhe rendeu um processo, por causa de uma piada sobre estupro. Foi o estopim para um período negativo na sua carreira?

Cara, como é que eu posso dizer que foi um período negativo, se hoje, dois anos e meio depois, eu tenho meu talk show? Será que de repente eu não teria que passar por isso por uma questão de amadurecimento meu ou da comédia? Tudo mudou muito a partir daquele momento. E qualquer pessoa que tivesse ido ao meu show, um espetáculo para 150 pessoas, poderia ter descontextualizado uma frase minha para me prejudicar. Não foi esse o objetivo da revista. O que aconteceu foi um processo muito louco de pessoas que descontextualizaram um depoimento meu que foi publicado na entrevista. A própria piada, que era absurda, estava muito contextualizada.

Você usou agora o termo “piada absurda”.É uma piada que você não faria de novo?

Essa piada foi feita em um clube de comédia, onde as pessoas pagam para assistir a um comediante falando coisas que não necessariamente são a opinião dele. Dentro daquele ambiente é tudo muito mais controlado. O que aprendi com esse processo é que existem coisas para as quais a televisão ou o Twitter talvez não sejam o melhor ambiente. O comediante tem que ter liberdade suficiente para expor os seus mais absurdos raciocínios, por mais que eles sejam ofensivos. Mas eu não quero ficar levantando a bandeira da livre comédia. Foi um processo simples, mas que me fez aprender muita coisa.

No Brasil, humor virou questão judicial?

Em alguns casos, sim. Isso não é uma opinião, é um fato. Se uma piada vira processo, o humor vira questão judicial. Mas eu venho fazendo humor há dez anos, e nesse tempo eu tive três processos judiciais. É que ficou essa percepção de que tudo que eu faço vira processo, de que eu sou um cara perseguido, de que eu sou uma vítima do sistema. Longe disso: o fato é que o que acontece comigo se torna muito público.

Agora que você tem um programa que é uma mistura de jornalismo e humor, vai de alguma maneira se policiar?

Olha, o programa é gravado, então se a gente falar “Ih, aqui passamos um pouquinho”, dá para ter um controle maior. Mas em nenhum momento surgiu essa conversa com a emissora. Um tanto daquela perseguição que houve, não só comigo, mas com outros também, passou um pouco. Os ciclos estão muito rápidos. Acho que hoje a gente está mais confortável para brincar com algumas coisas.

Houve um momento em que você foi demonizado por muita gente. Nessa época, você sentiu que ser comediante era uma profissão um tanto perigosa, delicada?

Hum... Perigoso mesmo é você subir o morro e lutar contra o tráfico de drogas. Que grande complicação pode dar para mim o fato de ter alguém que se sentiu ofendido e eu precisar pagar um processo? Isso não é a coisa mais absurda do mundo. Delicado é ter que alimentar cinco filhos com um salário mínimo. Aí vou eu dizer que ser comediante é difícil, vou me vitimizar dessa forma? Eu tenho uma vida abençoada.

Daria para se sustentar fora da TV e dos palcos só com seus canais na internet?

Sou um cara que não gasta com porra nenhuma. Meu carro é de 2004. Só moro hoje em um apartamento grande porque a minha mulher me obrigou a comprar. Eu viveria com um salário de jornalista do Rio Grande do Sul, onde eu trabalhava. É pouco se for comparado ao trabalho na televisão, claro, mas seria suficiente para pagar a minha produção e ainda sobraria para viver.