O último ato de Kurt Cobain

O triunfo e a tragédia dos derradeiros meses de vida do líder do Nirvana

David Fricke | Tradução: Ana Ban Publicado em 07/04/2014, às 03h21 - Atualizado em 03/10/2014, às 17h11

“A inda consigo enxergar, com nitidez, eu na minha bateria com Krist à direita e Kurt à esquerda”, Dave Grohl diz, com a voz brilhante e os olhos expressivos. O baterista está acomodado no lounge do andar de cima do 606, estúdio dele em San Fernando Valley, em Los Angeles, enquanto descreve as gravações de In Utero: mais especificamente, o dia em meados de fevereiro de 1993 no qual ele, o baixista Krist Novoselic e o vocalista e guitarrista Kurt Cobain começaram a gravar o terceiro e último disco de estúdio da banda, ao lado do produtor Steve Albini, no Pachyderm Studio, em Minneapolis.

Três anos antes, o Nirvana era apenas um bando de guerreiros saindo em turnê em uma velha van. Mas na época do lançamento de In Utero, Cobain, o enigmático e cativante líder e compositor, era o astro mais cheio de conflitos do rock: infeliz sob os holofotes, ressentido com as pressões de ser uma celebridade, mas louco para confundir o enorme público, agora que ele tinha um.

A primeira música que o Nirvana gravou com Albini não se parecia em nada com os caprichados sucessos trabalhados em estúdio de Nevermind (1991), “Smells Like Teen Spirit” e “Come as You Are”. “Scentless Apprentice” era um delírio rápido e cru, um punhado de distorção ácida que o Nirvana tinha estreado havia pouco tempo, em shows em São Paulo e no Rio de Janeiro, no extinto festival Hollywood Rock. A banda só precisou tocar a faixa uma vez no Pachyderm. “Depois da primeira passagem, ninguém disse: ‘Precisamos fazer de novo’”, Grohl recorda. “Porque aquele foi a porra do take certo”, ele diz e estala os dedos para dar ênfase. “Puro e primitivo – foi isso o que a gente fez”, Novoselic acrescenta, soando orgulhoso. “Não foi assim tão difícil.”

Cobain tinha completado 26 anos durante as sessões de gravação, no dia 20 de fevereiro. Ele era casado com a vocalista do Hole, Courtney Love, e tinha acabado de ter uma filha com ela, Frances Bean, nascida em agosto de 1992. O vocalista também lutava contra o vício em heroína e não conseguia encontrar nem paz nem prazer no sucesso. A primeira faixa de In Utero, “Serve the Servants”, ficou famosa por abrir com Cobain declarando: “Teenage angst has paid off well/ Now I’m bored and old” (A angústia adolescente rendeu bem/ Agora eu estou entediado e velho). Uma das sobras de estúdio daquele período, lançada em uma coletânea, chamava-se “I Hate Myself and Want to Die” (Eu me odeio e quero morrer). Cobain depois afirmou que o título “não passava de uma piada”.

In Utero foi lançado no dia 14 de setembro de 1993, sete meses depois de ter sido gravado, postergado em parte devido às dúvidas de Cobain em relação ao caráter áspero do disco. Duas músicas, “Heart-Shaped Box” e “All Apologies”, foram remixadas por Scott Litt, produtor do R.E.M. Cobain achava que In Utero foi o melhor trabalho da banda. “Tem uma coisa esquisita de verdade neste álbum”, ele me disse depois do lançamento, no final de outubro, em sua última grande entrevista. “Eu nunca me senti mais confuso na vida, mas, ao mesmo tempo, nunca me senti mais satisfeito com o que fizemos.” Seis meses depois, no dia 8 de abril de 1994, Cobain foi encontrado morto na casa onde morava, em Seattle, com um tiro de espingarda desferido por ele mesmo. Tinha 27 anos.

Hoje com 48 anos, exibindo a cabeça lisa e uma barba grisalha, Krist Novoselic atua na política do estado de Washington, faz um curso de pós-graduação online em ciências sociais e continua tocando baixo, além de acordeão. Ele e Grohl permanecem próximos. Novoselic participou do mais recente álbum do Foo Fighters (Wasting Light, de 2011) e os dois gravaram com Paul McCartney para o documentário dirigido por Grohl, Sound City– a faixa que saiu daí, “Cut Me Some Slack”, ganhou o Grammy de Melhor Música de Rock no início de 2014. Em julho de 2013, Novoselic e Grohl se juntaram a McCartney no palco em Seattle e fizeram uma jam com músicas dos Beatles.

Mas o baixista reconhece que, para ele, a música “nunca mais foi igual depois do Nirvana”. Ele e Cobain se conheceram ainda jovens em Aberdeen (Washington); começaram o Nirvana em 1987 e lançaram o álbum de estreia, Bleach, dois anos depois. “Eu sonho com ele”, Novoselic diz a respeito do amigo. “É legal vê-lo no sonho: ‘E aí, tudo bem? O que está rolando?’ Mas é necessário lidar com a perda. É preciso ficar de luto e sobreviver. E suicídio é difícil. Ele foi morto – mas ele se matou. Você fica louco com o assassino, mas está tudo amarrado em uma pessoa só.”

Grohl tinha 21 anos e foi o sexto baterista do Nirvana quando entrou para a banda em 1990, a tempo de tocar em Nevermind. Sobre o derradeiro trabalho de inéditas da banda, ele fala que “é o disco mais honesto” que fez na vida. Mas as coisas não estavam bem. “Foi difícil de verdade”, Novoselic diz quando peço que descreva a vida no Nirvana no final de 1992. “Kurt estava usando muita heroína. Dave e eu, não.”

Cobain experimentou a droga quando era adolescente. Em 1991, estava viciado e mais tarde afirmaria que usava heroína para tratar de sua dor de estômago crônica. “Eu me lembro da primeira vez que ele me disse que usava”, Novoselic conta. “Eu disse a ele: ‘Você está brincando com dinamite’.” Daí, em janeiro de 1992, Nevermind chegou à primeira posição da parada de álbuns norte-americana. “Não vou colocar a culpa de tudo nas drogas”, o baixista declara a respeito da espiral descendente de Cobain. “Mas foi uma parte.”

“Tinha muita coisa acontecendo em 1992”, Grohl confirma e enumera a lista: Frances Bean nasceu; Cobain foi internado para se desintoxicar; o casamento dele com Courtney se transformou em munição para tabloides. “Era como atravessar um campo minado”, diz.

Certa tarde, algumas semanas depois do lançamento de In Utero, o telefone tocou na minha mesa na redação da Rolling Stone/. “David”, uma voz profunda e rouca disse. “Aqui é o Kurt.” Nós já tínhamos sido apresentados, em uma festa de gravadora para os integrantes do Melvins, amigos dele, em Nova York. Depois que In Utero saiu, eu insisti muito para convencer Cobain a conceder uma longa entrevista sobre o álbum, a banda e a vida dele. Eu não estava conseguindo nada – e permanecia frustrado pelo monte de matérias de capa do Nirvana em outras publicações – até receber aquela ligação. “Prometo que vou fazer isso”, Cobain disse. “Eu só quero esperar. Não quero dizer para você as mesmas coisas que estou dizendo para todo mundo.”

Ele cumpriu a promessa uma semana depois do início da turnê do Nirvana em 1993, nas primeiras horas da manhã após um show desastroso em Chicago. O som estava péssimo, eles não tocaram “Smells Like Teen Spirit” e o público vaiou quando a banda saiu do palco. Mas quando conversamos mais tarde no quarto do hotel, Cobain estava simpático, aberto e engraçado, o oposto da fama de pavio curto que carregava. “Vou acariciar o meu ego ao dizer que somos melhores do que muita banda que está por aí”, ele disse, sorrindo.

Ele também estava preocupado. Por mais orgulho que tivesse de In Utero – “Nós nos esforçamos muito para fazer um álbum inteiro de canções que sejam as melhores que nós somos capazes de fazer” –, o disco era uma encruzilhada. “Chegamos ao ponto em que as coisas estão ficando repetitivas”, ele disse a respeito do som corrosivo de power trio do Nirvana. “Não há uma coisa a almejar, não há uma coisa a se esperar.”

“É horrível dizer isso, mas não vejo esta banda durar além de mais uns dois álbuns, a menos que realmente nos esforcemos em experimentar coisas novas”, Cobain prosseguiu. “Não quero lançar mais um disco que soe igual aos três últimos.”

Ele não se deu essa chance. A vida de Cobain, depois de In Utero, vacilou entre momentos positivamente decisivos – como o Unplugged MTV, um reexame calmo e ousado das músicas de Cobain que o Nirvana gravou em apenas um take – e experiências de quase morte, entre elas uma overdose de heroína pouco antes de uma apresentação em Nova York, em julho de 1993. Cobain passou por uma desintoxicação antes da turnê seguinte, que contava com uma violoncelista, Lori Goldston, e um segundo guitarrista, Pat Smear, que tinha feito parte da banda Germs. Grohl lembra: “Essa era a época em que Kurt subia ao palco todo sorridente e de bochechas rosadas. Daí, na noite seguinte, ele se colocava na frente de 20 mil pessoas sem a menor vontade de estar lá”.

“Tudo se baseava em uma pessoa, em como essa pessoa estava se sentindo naquele dia”, lembra Jim Merlis, o assessor de imprensa do Nirvana na época. “Quando ele se sentia bem, havia euforia – como se você tivesse escapado de uma bala.” Merlis estava ao lado de Cobain quando o vocalista ligou para a mãe, Wendy, logo depois da apresentação do Unplugged. “Parecia um garotinho: ‘Mãe, você nunca vai acreditar no que acaba de acontecer’.”

“Kurt ficava amuado e fechado”, Smear reconhece – ele ainda toca com Grohl no Foo Fighters. Mas o guitarrista lembra uma conversa que teve com Cobain no aniversário de 27 anos do cantor, na Suíça, quando o Nirvana fazia turnê pela Europa no início de 1994. “Tinha a ver com como era legal ter um amigo com quem não se tinham silêncios desconfortáveis. Nossos silêncios eram confortáveis. ‘Quer ficar aqui sem fazer nada? Para mim, está bom.’”

Há uma pergunta que Novoselic se recusa a responder: sobre a última vez que conversou com Cobain. “Não foi bom. Não quero falar sobre isso.” Mas ele menciona ter ido à funerária para vê-lo. “O que ele fez consigo mesmo foi chocante. A palavra ‘chocante’ não é suficiente.”

Perto do fim de nossa entrevista em seu estúdio, Grohl descreve como se sentiu quando acordou no dia depois de o corpo de Cobain ter sido encontrado. “Eu desci a escada e fiz café. E me dei conta: ‘Kurt está morto’. Eu estava vivo. E ele tinha ido embora. Talvez esse seja o momento mais importante da minha vida, porque trouxe tudo de volta ao simples apreço de apenas estar vivo.”

“Demorei 20 anos para chegar aonde estou agora do ponto de vista emocional em relação a tudo isso”, Grohl fala. “Eu lembro daquele dia em que ele entrou no estádio no Brasil usando uma camiseta que dizia ‘I hate myself and want to die’. Por conhecer o senso de humor de Kurt, todo mundo ficou tipo: ‘Que merda de piada é essa? Onde você arrumou isso?’ E ele respondeu: ‘Eu que fiz’.”

“Claro, pensando agora, é de partir o coração. O que se pode fazer?”