Kiss Eterno

A estranha e conflitante saga da banda mais indestrutível de todos os tempos

Brian Hiatt Publicado em 12/05/2014, às 10h39 - Atualizado às 11h21

REIS DE NOVA YORK
(A partir da esq., de cima para baixo) Paul Stanley, Ace Frehley, Gene Simmons e Peter Criss

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A única coisa que Gene Simmons não tem no escritório da casa dele é uma máquina registradora. Ele lotou uma ala de sua mansão em Beverly Hills com produtos licenciados do Kiss, transformando o local em um santuário à sua pessoa preferida – Gene Simmons – e à banda na qual está há 40 lucrativos anos tocando baixo, cuspindo fogo, babando sangue e balançando uma língua de tamanho tão anormal que ele teve de negar que tinha feito enxerto de uma vaca azarada. Há milhares de coisas do Kiss no covil dele, transbordando de armários envidraçados: máscaras de Halloween, bustos em tamanho natural dos integrantes da banda, bonecos articulados, canecas, capacetes de moto, placas, cobertores, demoníacos Senhores Cabeça de Batata, tênis, mamadeiras, uma bola de boliche.

Em uma parede, há uma placa comemorando 100 milhões de álbuns vendidos no mundo inteiro. “Este cômodo”, diz Simmons, adicionando solenidade à voz de barítono, “não aconteceu por acidente.” Do outro lado há uma moto do Kiss, um caixão do Kiss com pintura berrante (o guitarrista Dimebag Darrell, do Pantera, foi enterrado em um), uma máquina de pinball do Kiss e um trono do Kiss entalhado com uma versão fofa da Hello Kitty com a maquiagem de demônio de Simmons. Fora do escritório, há um caça-níqueis do Kiss. “Esta máquina gera mais dinheiro do que a maioria das bandas que fazem turnês”, afirma Simmons, acariciando-a com a mão enorme.

O Kiss celebra quatro décadas de existência desafiando céticos, puristas e elitistas. Mas, apoiado por um fiel exército de fãs, com discos clássicos e performances literalmente incendiárias no currículo, como ignorar a banda? Depois de anos sendo esnobado, o quarteto finalmente entrou para o elitizado Hall da Fama do Rock and Roll, em abril. Como conceito, o grupo está acima do bem e do mal. Simmons não tem medo de afirmar que o Kiss é uma marca, não uma banda. “O Kiss é como uma barata, que vai acabar sobrevivendo a todo mundo”, diz. “É maior até do que quem esteve na banda.” E ele se inclui nessa função.

A banda ainda faz turnês, mas os únicos integrantes originais são Simmons e Paul Stanley, dois garotos judeus de Nova York que tinham em comum uma ambição clara e nenhuma tendência autodestrutiva. O baterista Peter Criss e o guitarrista Ace Frehley, que seguiram à risca o lema de “festa todo dia”, batiam carros esportivos e jogavam móveis de janelas de hotéis, foram embora há muito tempo. Às vezes, Simmons e Stanley falam sobre os antigos companheiros com um carinho distante, como se eles estivessem dentro de seus próprios caixões do Kiss, e não tendo vidas tranquilas em Nova Jersey e San Diego, respectivamente.

Por volta de 1980, a dupla demitiu o meigo e inseguro Criss, que perdeu o controle no uso de drogas. Ele é responsável pela balada “Beth”, um dos maiores hits da banda. O talentoso, mas pouco esforçado Frehley pediu as contas logo depois para seguir carreira solo. Mas nesse novo trabalho ele se empenhava mesmo era no consumo de cocaína, tranquilizantes e álcool.

Simmons e Stanley contrataram dois substitutos maquiados antes de finalmente tirarem as máscaras, em 1983. Eles já haviam começado a trabalhar em um inevitável álbum grunge quando, em 1995, Stanley e Simmons se reuniram com Frehley e Criss para um MTV Unplugged. Os renegados voltaram como funcionários assalariados. Permaneceram por seis anos de turnês loucamente bem-sucedidas, mas cheias de brigas. Hoje, Simmons e Stanley usam Tommy Thayer e Eric Singer, dois contratados confiáveis que se vestem como os personagens dos antigos membros, para desgosto considerável de Frehley e Criss, já que cada membro do Kiss havia desenhado a própria maquiagem. Criss abriu mão dos direitos de seu personagem quando saiu, enquanto Frehley licenciou os seus – diz que deve recebê-los de volta em breve.

Assim, na terra do merchandising, Kiss é sempre Kiss. É o rosto pintado de branco dos personagens característicos da banda – o Demon de Simmons, o Starchild de Stanley, o Spaceman de Frehley e o Catman de Criss – que importa, e não os homens por trás da máscara.

Em uma tarde cinzenta, Simmons, 64 anos, está vestindo blazer preto feito sob medida com um lenço vermelho no bolso, camiseta preta, calça preta de couro e botas de caubói. Executivo da cintura para cima, astro do rock da cintura para baixo. Ele tem 1,88 m de altura, com uma corpulência que ameaçou as primeiras tentativas da banda de se apresentar com fantasias. Como sempre, seu cabelo preto com textura de pelo de poodle está na altura dos ombros, em um estilo que um comediante sugeriu ter sido inspirado no Planeta dos Macacos. “É tudo meu – com muito spray”, diz, acariciando a juba. “Pode brincar com ele.”

Ele está sentado em uma cadeira executiva de couro atrás da mesa no escritório dele, que está cheia de exemplares da autobiografia Kiss and Make-up e DVDs de seu reality show, Gene Simmons Family Jewels. Atrás dele, há uma reprodução gigante de sua imagem na capa da revista de economia Private Wealth. “É difícil de as pessoas entenderem, porque estão envenenadas pela ideia de que astros do rock são burros. [Mick] Jagger é muito inteligente. Pouquíssimos outros são. Se não fosse por suas guitarras, estariam perguntando: ‘Fritas acompanham, senhor?’”

Simmons pode entrar em um modo defensive arrogante, mas há algo encantador nisso, como se ele desafiasse as pessoas a gostar dele. “Todas as bandas com credibilidade podem beijar meu rabo, com todo o respeito”, afirma, do nada, menos de três minutos depois de minha chegada à casa dele. “Os pioneiros que agora estão no Hall da Fama do Rock – não estou falando dos artistas disco ou de hip-hop, o que eles têm na cabeça? – não conseguiam soletrar a palavra ‘credibilidade’ e nunca pensaram nisso.”

Na opinião de Simmons, os valores do Kiss triunfaram. Shows feitos em estádios, do country ao rap, adotaram os antes ridicularizados truques de palco típicos da banda: pirotecnia, elevadores, músicos que “voam”. Ninguém sabe mais o que significa “ser vendido”: artistas considerados sérios, como Grateful Dead, Bruce Springsteen e Bob Dylan, oferecem quinquilharias ou já fizeram comerciais. “Todos adotam nosso jeito de fazer as coisas”, ele afirma. “Os hippies perderam. De verdade.”

Não há suvenires do Kiss à mostra na casa de Paul Stanley. “Sei muito bem o que conquistei. Então não preciso ficar mostrando. Meus amigos não precisam ver”, ele diz. Stanley mora em Beverly Hills, a cinco minutos de distância de Simmons, com três filhos pequenos e Erin, ex-advogada e esposa dele há oito anos (ele também tem um filho de 19 anos de um casamento anterior). Mas um não frequenta muito a casa do outro. A mansão de Stanley é uma estrutura em estilo mediterrâneo, com edícula para hóspedes nos fundos; ele tem terreno suficiente na propriedade para considerer implantar um vinhedo particular no local.

Stanley está sentado na sala de estar imaculada e bastante decorada, usando jeans preto e uma camiseta com gola V que expõe biceps com músculos impressionantes, além de um tufo muito familiar de pelos no peito. Mesmo sem maquiagem, aos 62 anos, ele parece o Starchild – você acha que em um piscar dos olhos o verá transformado, pronto para agitar. Mas a voz baixa não se parece com o grito balançante, de estourar tímpanos, que Stanley usa no palco. Na parede do outro lado há uma pintura de uma orbe texturizada – uma obra dele. “Já ganhei muito dinheiro vendendo arte”, conta.

A única relação duradoura do Kiss é entre Simmons e Stanley. “Sempre nos vimos como irmãos”, afirma Stanley. “Aparentemente, discordamos sobre como tratar seu irmão. A prioridade de Gene, de longe, sempre foi ele mesmo, e ele não deixa os sentimentos ou as contribuições alheias atrapalharem o caminho dele.”

O músico é simpático e amigável, e é direto ao avaliar os antigos companheiros de banda. No entanto, Segundo o que dizem Criss e Frehley, no Kiss, Stanley é uma figura semelhante ao ex-vice-presidente norte-americano Dick Cheney: o verdadeiro poder por trás de um figurão mais extravagante. “Você tem de tomar cuidado é com o Pauly”, afirma Criss. “Ele sairá deste prédio e só depois você perceberá: ‘Caralho, ele cortou minha garganta’. Ele realmente é o líder do Kiss, é quem controla o jogo – confie em mim.”

Stanley não demonstra tendência para gênio do mal durante nosso dia juntos, enquanto brinca com as filhas, fecha os olhos ao ouvir velhas faixas do Led Zeppelin tocarem no espetacular sistema de som que montou em um refúgio na edícula, mostra uma foto em que molda massa de pizza com um profissionalismo invejável e dirige por Beverly Hills em uma SUV repleta de DVDs infantis. Toda noite, afirma, agradece à esposa pela vida que têm juntos. E fala de forma indireta sobre Frehley e Criss. “Conheço duas pessoas que me demonizam”, diz. “É engraçado, porque não sei de mais ninguém que faça isso. Não posso ser responsável pelas situações ou fracassos deles, tanto quanto não posso responsabilizar ninguém pelos meus.”

Paul Stanley concorda que a proeminência de Simmons como porta-voz da banda é enganosa. “A maquiagem do Gene é o rosto do Kiss”, afirma. “É a mais forte, mas a ideia de ele ser a força motivadora por trás do grupo... só acredita nisso quem não conhece a banda.”

Assim que Frehley saiu do Kiss, coube a Simmons e Stanley manter a banda viva – e Simmons estava ocupado com outros projetos. Stanley se sentiu abandonado. Ele considera o álbum Animalize (1984) quase como um disco solo. “Pude lidar com aquilo, mas não com alguém querendo ser pago por não fazer seu trabalho. Se aquilo se aplicava a Ace e Peter, era válido para Gene também”, afirma, com algum amargor.

Nos 167 episódios do reality show de Simmons, Stanley nunca apareceu, apesar dos insistentes pedidos do companheiro. “Aquilo não era realidade”, diz, rindo. “Criar uma vida que não é verdadeira e me fazer ser parte daquilo ou para ajudar a promover algo que acho questionável... e, honestamente, perder meu tempo?”

Ao saber das queixas de Stanley contra ele, Simmons se declara culpado. “A maior sorte que tive foi conhecer Paul Stanley”, conta. “Ele me odiou quando me conheceu – me achou arrogante. Verdade! Egoísta. Verdade! Culpado. Um cara que acha que é melhor do que realmente é. Culpado. Mesmo assim, há algo na mistura entre nós. São as diferenças nas coisas que deixam aquilo mais forte.” Quando pergunto a Stanley se os dois já se sentaram para conversar e acertar as diferenças, ele parece confuso. “O que há para acertar?”, pergunta. “O fato de que nos conhecemos há mais de 40 anos significa que acertamos tudo.”

Lidar com o ego de Simmons era um desafio modesto quando comparado ao que Stanley teve de enfrentar na infância. Nascido Stanley Eisen, ele cresceu no Queens com pais distantes presos em um casamento infeliz e uma irmã mentalmente doente. Teve uma deformidade congênita chamada microtia, que o deixou surdo do ouvido direito, com “apenas um toco” onde deveria haver uma orelha. Como escreve em sua nova autobiografia, um valentão do jardim de infância o chamava de “Stanley, o Monstro de Uma Orelha”. “Se você usa uma camisa ridícula, pode mudá-la depois que as pessoas começam a te encarar. Mas gente com defeito de nascença não consegue mudar. Então você vive sob olhares constantes.” Ele lutou contra a depressão e, aos 15 anos, sem assistência dos pais, encontrou um psiquiatra que o ajudou. No começo dos anos 1980, passou por várias cirurgias, com médicos construindo uma orelha com tecido tirado da costela dele.

Tanto quanto para qualquer um da banda, a maquiagem do Kiss atendeu às necessidades psicológicas de Stanley. “Paul se inventou”, diz Simmons. “Era um moleque judeu gordinho e tinha o defeito na orelha, com problemas de autoestima. Ele inventou Paul Stanley, o nome, o visual, moldado na versão inglesa do que é um astro de rock.”

Demorou anos para a vida real de Stanley acompanhar a ilusão que ele criou no palco. Ele chegava em casa depois das turnês e se via sozinho em um sofá, um astro do rock sem ter para onde ir. “No começo, o Starchild era o Mágico de Oz”, afirma. “Era um homenzinho atrás da Cortina mexendo nos controles, mas, com o tempo, os dois se uniram e aceitaram viver como um só.”

O Kiss começou como uma banda chamada Wicked Lester, também liderada por Simmons e Stanley. Eles se conheceram através de um amigo em comum, o guitarrista Stephen Coronel, e compuseram músicas suficientes para conseguir um contrato com a Epic Records. Gravaram faixas genéricas que todos odiaram. A dupla abandonou a banda, mas não a parceria. Eles queriam algo diferente. “Sabíamos do que gostávamos”, afirma Simmons. Até egos os afastarem, Stanley e Simmons eram uma máquina de composição. “Nosso negócio sempre foi versos, refrãos, pontes”, diz Stanley.

Procurando um baterista, responderam a um anúncio nos classificados da Rolling Stone: o autor era um certo Peter Criscuola, um ítalo-americano de 26 anos, que aprendeu a tocar com o jazz e com a Motown. Simmons perguntou se ele usaria um vestido no palco. Sim, afirmou Criss, que tocava em uma banda cover no Brooklyn. Simmons e Stanley queriam uma pegada pesada, tipo Led Zeppelin, na cozinha. Mas o estilo balançado da batida de Criss os deixava mais leves – mesmo ele sendo tão instintivo que raramente tocava as músicas do mesmo jeito duas vezes.

Havia sinais imediatos de diferenças de personalidade: comendo uma pizza na primeira reunião, Criss falou que tinha um pênis de 23 cm, uma informação que seus novos colegas não sabiam como processar. “Eles tinham demitido toda a banda”, diz Criss. “Eu deveria ter desconfiado disso na hora, na primeira vez em que os vi! Só que lembro que voltei para casa e contei para minha mãe: ‘Mãe, não é meu tipo de música, mas podemos nos tornar uma banda de rock muito grande’.” Havia algo premonitório no estilo simples que eles estavam desenvolvendo. O som era uma resposta aos hippies e aos excessos do rock progressivo.

Eles fizeram testes com vários guitarristas, incluindo um esquisitão levado pela mãe ao local de ensaio da banda na East 23rd Street: ele usava um tênis laranja e outro vermelho e teve de tomar uma cerveja para se acalmar antes de encontrar o grupo. Tocou tudo o que sabia no decorrer de uma música. Seu nome era Paul Frehley. Mas não dava para ter dois Pauls na banda, então ele foi chamado de Ace (“ás”, em português), um apelido dado por amigos impressionados pela proeza dele com as mulheres. O Kiss ensaiou durante meses antes de tocar ao vivo, e um impaciente Criss ameaçou desistir. Em pouco tempo, tinham o som deles – e criaram uma imagem tão poderosa que ameaçava sufocar a música. “Não posso levar crédito por isso, nem Paul”, afirma Simmons. “Ninguém pode. Com certeza nem Ace nem Peter, que nunca pensou em nada” [essa é uma injustiça: foi Frehley quem desenhou o logotipo da banda].

“Descemos até a [loja] Woolworths”, conta Simmons, “e compramos espelhos grandes, maquiagem de palhaço – e não me lembro de pensar nada sobre isso. ‘Vamos comprar essas coisas, nos pintar e ver o que acontece.’ Na próxima hora ou duas, o que acontecesse, aconteceu, e não foi tão diferente do que se vê hoje.”

Na minha segunda visita à casa de Simmons, ele recorda a infância. “Minha mãe esteve em um campo de concentração nazista”, relembra. “Vim para os Estados Unidos aos 8 anos e não falava uma palavra de inglês.” A mãe de Simmons – de 87 anos e completamente lúcida – viu a mãe e a avó morrerem em um campo de concentração, onde foi aprisionada aos 14 anos. Saiu da Hungria para Israel aos 22, casando-se com um homem alto e bonito chamado Feri Witz, e teve Gene logo depois – batizado como Chaim. Ela teve uma relação tumultuada com o pai de Simmons, que tinha problemas para manter um emprego e deixou a família quando o filho tinha 7 anos. Logo depois, eles se mudaram para os Estados Unidos e Simmons nunca mais viu o pai. Em território norte-americano, ele ficava sozinho, enquanto a mãe trabalhava por longos turnos em uma fábrica em Williamsburg (Brooklyn). Aguentou muitas horas na escola judaica para a qual foi enviado e, até aprender a falar inglês, era cruelmente zombado por outras crianças, mesmo depois que se rebatizou como Gene Klein. O garoto amava a cultura pop norte-americana – passava horas vendo TV, filmes de monstros e lendo pilhas de quadrinhos de super-heróis. Depois que os Beatles tocaram no The Ed Sullivan Show, o rock passou ao topo da lista de interesses dele.

Simmons ignorava as emoções. “Eu me lembro do sentimento daquele garotinho, chorando de raiva, com medo”, diz. “Sem mãe, sem pai. Ela está trabalhando. Não há ninguém por perto. Ninguém para me deixar seguro ou me alimentar. Está escuro, estou com medo. Depois, não precisei de mais ninguém.” Assim que fez sucesso, começou a mandar cheques para o pai em Israel, mas se recusou a falar com ele ou responder a suas cartas. “Por que não deixei um moribundo morrer em paz? Arrogância. ‘Ele vai ver só’.” “Você é ferido. As cicatrizes saram, mas você ainda consegue vê-las. Às vezes, elas se parecem com isso”, Simmons afirma, apontando para uma imagem dele vestido como o Demônio. “Criei o Gene Simmons porque o meu outro eu não deu certo.”

Ele usou a licença que o sucesso do Kiss lhe deu para fazer sexo compulsivo (diz que transou com quase cinco mil mulheres), mas só teve o primeiro relacionamento sério em 1978, quando começou a sair com a primeira namorada de verdade – ninguém menos do que Cher, recém-saída de um casamento com Gregg Allman. Em 1984, Simmons conheceu uma modelo loira chamada Shannon Tweed na Mansão Playboy e finalmente entendeu o conceito de “amor” do qual os outros humanos falavam: estão juntos desde então e finalmente se casaram em 2011. Têm dois filhos – Nick, de 25 anos, e Sophie, de 21, que estão construindo carreira no show business.

Naquela noite na casa de Simmons, coincidentemente, Paul Stanley aparece, trazendo uma cópia de seu livro Face the Music: A Life Exposed – ele ainda não tinha deixado Simmons ler, mas me ouviu perguntar sobre isso e percebeu que estava na hora. Simmons fica feliz em vê-lo; faz tempo que Stanley não o visita. “Quer uma bebida?”, pergunta. “Tenho que ir para casa dar banho nas crianças”, responde Stanley, entregando o livro.

Simmons olha as fotos nas páginas centrais. “Ai, meu Deus”, diz, “olha esta foto do Ace e do Peter. Onde foi isso?” Stanley fala: “Uma satisfação que esses dois deveriam ter na vida é saber que, todo dia, falamos sobre eles. Não há um dia em que não lembremos de algo espantoso”. Simmons acrescenta: “Ou que não faça sentido!” E é tudo completamente desnorteante ou muito autodestrutivo, como, por exemplo, a vez em que Ace bebeu um frasco de perfume em uma limusine depois de saber que continha álcool. Ou a vez em que Criss deu um tiro na TV da casa de Simmons com um revólver calibre 38 depois de descobrir que a namorada havia dormido com um ator que apareceu na tela.

Ao me ver por um momento antes de ir embora, Stanley balança a cabeça e faz um gesto apontando para o escritório. “Aquele é o mundo em que Gene vive”, diz. “É inacreditável. E o deixa feliz.”

Parece claro que existe pelo menos uma pessoa que Simmons quer ter como amigo – e essa pessoa é Stanley. Eles estão juntos há muito tempo, e nem Simmons é egocêntrico o suficiente para achar que podem fazer turnês para sempre. “Fisicamente, não conseguirei fazer isso aos 70 e poucos anos”, afirma. Pede para que eu pegue uma jaqueta de couro com tachas que usa no palco que está pendurada em uma cadeira – deve pesar uns 11 kg. “Tenho 64 anos. Mais três turnês. Duas, se minha vida mudar de alguma forma.” Ele e Stanley conversam sobre serem substituídos por novos membros e fazer o Kiss continuar eternamente.

Enquanto Stanley volta para a família, Simmons fica na varanda na frente de casa, olhando para o jardim, onde cascatas artificiais. É tranquilo aqui, embora dentro da mansão existam armas caso ele tenha de atirar em invasores. Ele dá um suspiro e fica pensativo por um momento. “Às vezes, quando sento aqui, relaxando entre reuniões e tal, acho que Paul está certo: penso em Ace e Peter. ‘O que estão fazendo? Onde estão?’ Devem estar perto do fim. Como eles ganham dinheiro? Como pagam as contas? Peter deve estar com uns 67, 68 anos. É isso. Acabou.”

Ace frehley tem 62 anos e mora com a noiva muito mais jovem, uma cantor chamada Rachael Gordon, em um local chique perto do aeroporto em San Diego. A porta do elevador abre diretamente em seu apartamento, onde a primeira coisa que se vê é uma estátua em tamanho natural de Ace Frehley com a fantasia completa do Spaceman. Quando o verdadeiro Frehley surge, parece um pouco menos esguio do que a estátua. Ainda tem cabelo comprido e usa óculos escuros, uma camisa listrada sobre uma camiseta preta, jeans e botas de lagarto. Um crucifix brilhante e um pingente de ás de copas estão pendurados no pescoço e, no dedo, está o anel de caveira padrão entre os roqueiros.

Ele está de bom humor. “Estou feliz, saudável, trabalhando, tenho uma mulher linda”, afirma. Frehley me leva até o escritório, onde guitarras estão penduradas na parede e um monitor enorme fica na mesa, ligado a um Mac que ele usa para mexer com animação computadorizada e gravar músicas. Está trabalhando em dois novos álbuns, sucessores do sólido Anomaly (2009), que foi o primeiro dele em 20 anos. “Estou pensando em lançar uma animação e fazer a trilha sonora dela, um desenho animado espacial”, conta. “Só que eu sou preguiçoso. Ainda sou preguiçoso, senhoras e senhores! Deus me deu dons demais. Por causa das drogas e do álcool, tenho transtorno de déficit de atenção, então às vezes só fico olhando para o computador, mas tudo bem. Sabe por quê? Porque estou vivo.”

Frehley acabou de voltar de Las Vegas, onde passou alguns dias gravando e jogando em cassinos. “Perdi US$ 5 mil”, conta. “Nada demais! Isso é trocado. Não posso beber, não posso mais usar drogas, há outros vícios.” Ace Frehley é uma figura, com uma voz aguda única e uma risada alta que todos que o conhecem conseguem imitar. Antigamente, alegava ser de outro planeta. Hoje, ele está sóbrio há sete anos. O vício deixou a memória dele um pouco fraca. Ele conta sobre cair da escada em 2002, o que prejudicou ainda mais a memória e o deixou, na época, preocupado com a possibilidade de não conseguir mais tocar guitarra.

Frehley cresceu em uma família estável de classe média no Bronx. O pai era engenheiro elétrico e todos os irmãos eram músicos treinados, inteligentes e se esforçavam para entrar em uma universidade. Ele era obcecado por guitarras, mas nunca teve aulas. “Talvez esse seja um dos motivos para minha abordagem na música ser diferente”, afirma. “Page, Clapton, Hendrix, Townshend, Jeff Beck – copiei os solos deles e os distorci, esse é meu estilo.”

De todos os membros do Kiss, Frehley pode ter sido aquele que teve o maior impacto sobre outros músicos: foi o primeiro herói da guitarra para muitos instrumentistas da geração seguinte. “Ace era o fogueteiro, o dinamite da banda”, diz Mike McCready, do Pearl Jam. O status de herói da guitarra de Frehley rapidamente gerou delírios de grandeza. O guitarrista começou a se autodestruir logo no começo da carreira da banda. O Kiss estourou com o álbum duplo Alive!, disco ao vivo de megassucesso. Depois disso, o quarteto gravou Destroyer, o primeiro álbum de estúdio com produção de primeira – os LPs anteriores tinham som fraco. Eles trouxeram Bob Ezrin, mestre por trás dos sucessos de Alice Cooper. Frehley discordava de Ezrin e teve problemas em lidar com uma substância facilmente disponível. “Havia tanta cocaína no estúdio com Bob Ezrin, era insano”, lembra. “Nunca tinha experimentado, gostava de beber, mas, quando comecei a usar cocaína, passei a beber mais, e por mais tempo. Fiquei fora de controle. Chegava de ressaca ou nem aparecia.”

Frehley havia se mudado para Connecticut na época, então chegar ao estúdio em Manhattan já era um grande problema. “Musicalmente, o negócio dele era muito mais um estilo livre”, conta Ezrin. O produtor segue: “Ele era muito menos organizado e estruturado do que eu pedia para ser, e estava sentindo a pressão e o ressentimento dos outros. Na opinião deles, ele não estava fazendo sua parte, e Frehley nem sabia ao certo se tinha alguma parte”.

Logo, Frehley estava ameaçando deixar a banda. “Éramos esse grupo de rock pesado”, ele diz, “e agora tínhamos criancinhas com lancheira e bonecos na fileira da frente, e tinha de me preocupar em não falar palavrão ao microfone. Virou um circo.” O empresário Bill Aucoin veio com uma solução genial: todos gravariam discos solo e os lançariam no mesmo dia. Frehley gravou o melhor álbum dentre eles, de um hard rock elegante. Também teve o maior sucesso, “New York Groove” (Simmons alega que seu LP solo – que incluiu uma cover de “When You Wish Upon a Star”, sucesso da animação Pinóquio, da Disney – vendeu mais que o de Frehley. “Porra, Gene”, diz Frehley, rindo. “Aqueles caras estão tentando reescrever a história”).

Pouco depois, Frehley votou, “relutantemente”, com o resto da banda para demitir Criss, cujo trabalho estava se deteriorando sob a influência de pílulas e cocaína. O baterista se vingou em seu livro, dando muitos detalhes sobre a experimentação bisexual de Frehley nos anos 1970, em um aparente esforço para espantar os fãs de mente mais fechada da banda. Frehley dá de ombros. “Quando você está doidão, faz qualquer coisa. E daí? Não significa nada. Sempre fui heterossexual. Tomei todas as drogas, vivi dez vezes mais do que muita gente em uma só vida. Fiz ménage à trois e tudo o mais. Tentei ser bissexual. Não é para mim!”

Frehley saiu lentamente da banda, enquanto os outros tentaram persuadi-lo a ficar. “Estava confuso”, afirma. “Se eu tivesse continuado no grupo, eu me mataria. Voltava para casa do estúdio e queria bater meu carro em uma árvore. Abandonei um contrato de US$ 15 milhões. Isso daria US$ 100 milhões hoje, e meu advogado me olhava pensando: ‘Você está louco?’”

Frehley chamou sua autobiografia de No Regrets (“Sem Arrependimentos”) e precisou entrevistar antigos amigos para recuperar lembranças suficientes para escrevê-la. Ele atualmente trabalha em uma sequência. “O título provisório é Some Regrets (‘Alguns Arrependimentos’)”, ele brinca, enquanto joga a cabeça para trás e dá a risada característica.

Peter Criss está em casa quando toco a campainha de sua mansão em Monmouth County, Nova Jersey, à beira de uma trilha cheia de neve. Preciso esperar alguns minutos antes que Gigi, ex-modelo e esposa dele há 16 anos, chegue em casa e me deixe entrar. Aconchegado no porão usando óculos coloridos, uma camiseta azul-clara, jeans preto e meias esportivas brancas, Criss tem uma política de não atender à porta pessoalmente.

O baterista já “morreu” e foi ressuscitado pelo menos duas vezes. “Sou um gato e minhas vidas estão acabando”, diz. Ele “morreu” pela primeira vez depois que seu Porsche bateu em um poste. E pela segunda? “Ah, Deus, nem me lembro. Outra coisa estúpida.” Também sobreviveu a um câncer de mama há pouco tempo e se tornou uma espécie de defensor de outros homens com a doença.

No porão de Criss há uma bateria brilhante no canto, junto a guitarras e amplificadores para músicos visitantes, além de uma coleção modesta de suvenires do Kiss. “Fui à casa deles”, conta Criss, sentando-se na poltrona reclinável, “e tive a sensação de que não sabia no que encostar ou onde sentar. Não gosto de viver em um mostruário.”

Em algum lugar no andar de cima está a conquista mais preciosa de Criss: um troféu do People’s Choice Award por “Beth”. Criss coescreveu a música com um colega, o falecido Stan Penridge, e Ezrin a trabalhou para as sessões de Destroyer (1976). Criss tem um orgulho desesperado da música, mas Stanley alega que o baterista teve pouco a ver com sua criação. “Peter não consegue compor nada, porque não toca um instrumento”, argumenta. “O Penridge veio com [canta] ‘Beth, I hear you calling...’ e Peter não teve nada a ver com isso, porque se você escreve uma música de sucesso, deveria conseguir compor duas. É a verdade. Devastadora? É a verdade. Foi uma linha vital à qual Peter se agarrou para se validar, mas não tem base na realidade.”

“Acho que não consigo desfazer esse empate”, explica Ezrin, que recebeu originalmente uma música chamada “Beck”, que era menos solidária à mulher na letra. “Não estava lá quando ele estava trabalhando com o outro compositor.”

“Paul fala tanta besteira”, afirma Criss, “porque, como vocalista, ele nunca conseguiu escrever um grande sucesso. Eles odiavam o fato de que compus um sucesso e ganhei um People’s Choice.”

Criss cresceu em áreas difíceis do Brooklyn, onde seu estilo de tocar bateria – inspirado por Gene Krupa – era a única coisa que o salvou de uma vida criminosa. Ele ficou intimidado com a obstinação e a inteligência de Simmons e Stanley, que não faziam muito esforço para que ele se sentisse à vontade. “Se você vai me tratar como um merdinha, serei cruel”, diz. “Tive de usar meus truques. Não tinha o conhecimento que eles tinham, falavam palavras que eu não entendia. Eles literalmente me envergonhavam na frente dos outros. Depois de um tempo, você não aguenta mais.”

Ele não nega que seu trabalho estava deteriorando sob a influência de drogas, mas acha que a banda poderia ter lhe dado mais chances. Só que, como Frehley, o que realmente o atormenta é ter outra pessoa dando vida ao Catman. “Não me chateia eles terem mais dinheiro, casas maiores, carros maiores, relógios maiores”, afirma. “O que me irrita é que minha maquiagem escorreu de minhas mãos. É a cruz que eu carrego.”

Em algumas turnês, Eric Singer até cantou “Beth”, o que magoa Criss. “Quanto mais eles podem me estapear?”, pergunta. “É meu bebê. Falei para a Gigi: ‘Sabe, é como o Cavaleiro Solitário – você pode tirar a máscara e colocá-la em outra pessoa, mas essa pessoa nunca será Clayton Moore’.”

Ao contrário de Frehley, Criss permaneceu relativamente sóbrio durante a reunião da formação original, em 1996. “Queria provar aos fãs que estava bem, estava melhor, não usava mais drogas, era um novo homem.” Só que ambos reagiram mal a seu novo status de assalariados e o baterista ficou horrorizado quando Frehley, bêbado, confessou que ganhava US$ 10 mil a mais do que ele por noite. Criss começou a desenhar uma lágrima na maquiagem de gato no final das turnês.

Stanley e Simmons ressaltam que Criss ganhou milhões de dólares, mas ele afirma que essa não é a questão. “Olha a casa deles e olha a minha. Fui tratado como um vagabundo. Eles trataram minha mulher como uma vadia.” Apesar de tudo, o baterista deseja que todos possam se reunir para mais uma apresentação. “Queria que não houvesse tanta animosidade”, afirma.

Antes de eu ir embora, Criss mostra sua coleção de lembranças do Kiss. Há uma foto da banda maquiada junto aos pais dos integrantes nos anos 1970; há fileiras longas de discos de ouro e platina, além de uma placa comemorando 500 mil cópias vendidas de Alive! . Ele pega uma foto em preto e branco da banda, quatro jovens super- -heróis do rock rangendo os dentes para a câmera. “É uma ótima imagem nossa”, diz, e suspira. “O que posso dizer? Ainda amo minha banda.”

Mesmo com tantos ressentimentos acumulados ao longo dos anos, Gene Simmons, Paul Stanley, Peter Criss e Ace Frehley compareceram desarmados à 29ª cerimônia do Hall da Fama do Rock and Roll, no dia 10 de abril, no Barclays Center, em Nova York. Tom Morello, do Rage Against the Machine, louvou a banda que fez sua cabeça quando ele tinha 12 anos. Antes de chamá-los ao palco, bradou: “Vocês queriam os melhores e agora vão ter os melhores... Kiss!”. Simmons resumiu a situação: “Estamos todos humildes. Estou aqui para falar umas palavras legais sobre estes quatro cabeças de pudim que resolveram formar uma banda. E que se danem os críticos!” Stanley foi generoso. “A Peter, Ace, Gene – nós somos os quatro originais, não chegaríamos aqui se não tivéssemos começado juntos. Nós temos um grande, grande legado”, ele declarou. Se as chances de esses quatro se juntarem novamente são mínimas, a breve reunião no Hall da Fama foi, possivelmente, um desfecho adequado para esta longa e tortuosa história iniciada há 40 anos.