Renascido das cinzas

Boy George, O astro pop mais exuberante dos anos 1980, está sóbrio, em forma e finalmente fazendo música de novo

Rob Sheffield | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 12/05/2014, às 19h19 - Atualizado às 19h25

Mudado
“Depois de todo o caos, percebi que é bom ser Boy George”, diz o cantor
Peter Yang

Boy George está sentado em uma namoradeira confortável no bar do elegante Soho Grand Hotel, em Nova York, à luz do sol em uma tarde de sábado, enquanto o DJ toca “Royals”, de Lorde. Todas as pessoas chiques neste ambiente com certeza já ouviram falar de Boy George – mas nenhuma percebe que o próprio está bem aqui. Com uma nova barba e um chapéu de lã discreto, o astro do Culture Club poderia se passar por uma pessoa comum – algo que ele nunca foi acusado de ser. “Aprendi a passar despercebido”, diz hoje, com orgulho. “Na rua, no trem – baixo a aba do chapéu e ninguém sabe que sou eu. Sempre quis o tipo de fama que viesse com um botão de desligar.”

O fato de Boy George estar sentado neste lugar já é uma conquista, depois dos altos e baixos espalhafatosos pelos quais ele passou em público. Ele cresceu em Londres como a autoproclamada ovelha rosa de uma família irlandesa católica de classe operária; atingiu fama global como o astro pop mais lindo dos anos 1980, pavoneando maquiado na MTV ao cantar sucessos como “Karma Chameleon”; e teve sucesso prolongado como DJ de boates. Então, vieram os colapsos movidos a drogas nos anos 2000, arrematados por um tempo na prisão. Agora, o improvável renascimento de Boy George aos 52 anos está completo com o primeiro álbum de músicas novas dele em 18 anos. George ficou sóbrio para valer em 2008 e parece dez anos mais jovem do que uma década atrás – faz exercícios, adotou uma dieta vegana composta majoritariamente de alimentos crus e pratica o budismo Nichiren.

Um fanático por David Bowie nos anos 1970, Boy George começou a se montar quando era muito jovem. “Nunca fui básico – colocava minha cabeça na guilhotina do estilo”, ele conta. “Aos 16 anos, andava por aí sabendo que seria perseguido e atacado por me vestir de um certo jeito – mas sentia que tinha o direito inegável de ser quem eu queria ser. Meu pai falava para revidar os golpes, mas nunca fui muito bom nisso, então desenvolvi uma língua afiada em vez de um gancho rápido de direita.”

George era um astro deslumbrantemente gay em um período no qual isso estava longe de ser corriqueiro – uma época na qual até Freddie Mercury estava dentro do armário e Elton John era casado com uma mulher. “Nos Estados Unidos, eles enviaram o primeiro single, ‘Do You Really Want to Hurt Me’, sem foto alguma, porque achavam

Ele continuou nas manchetes nos anos 2000, mas pelos motivos errados, enquanto as drogas destruíam a vida dele. Uma vez, em 2005, ligou para a polícia de Nova York às 3h da manhã para denunciar um roubo ao apartamento onde estava, no centro da cidade, mas quando os policiais apareceram não encontraram evidência de invasão – só 13 papelotes de cocaína. Em 2007, de volta a Londres, foi preso novamente – desta vez, por ter algemado um garoto de programa norueguês à parede depois de acusá-lo de roubar fotos de seu laptop. George cumpriu quatro meses por sequestro.

Todos esses problemas do passado fazem com que o cantor consiga se enxergar em um astro atual. “Consigo me identificar com o que Justin Bieber está enfrentando agora”, afirma, “mas imagino que, se fosse tentar dar algum conselho, ele riria de mim. Como eu teria rido. A qualquer um que me dissesse ‘Filho, você sabe onde isso vai acabar’, eu teria dito ‘Vai se foder – do que você sabe?’”

O excelente novo álbum de Boy George, This Is What I Do, é o primeiro desde a joia perdida Cheapness and Beauty (1995). Em baladas confessionais cheias de sentimentos, George lamenta os dias em que achava que “autodestruição era muito legal”. Também há uma cover fantástica de “Video Games”, de Lana Del Rey. “Amo a Lana”, ele afirma. “Eu a vi na TV e instantaneamente pensei: ‘É tão linda, ela deve ser terrível’, e acho que isso faz com que ela me lembre de mim.”

Nestes últimos tempos, ele também tem feito músicas com o Culture Club. “Tentamos compor há alguns anos, mas eu ainda não estava no ritmo.” Quando a banda terminou no final da década de 1980, Boy George abraçou a cultura da dance music, trabalhando como DJ nos últimos 25 anos. “Se você me perguntar o que amo dentre músicas novas, vou elogiar muito Disclosure, Breach e Thomas Schumacher”, ele conta, “mas se me perguntar sobre quem está no Top 10, não vou conseguir dizer”.

Boy George está feliz em deixar os anos autodestrutivos para trás. Ainda assim, está bem ciente de que sempre terá de lidar com a própria personalidade: “Quando conheci Keith Richards, perguntei como Mick Jagger era, e ele respondeu: ‘O Mick é um monte de caras’”, relembra. “Acho que isso se aplica a mim também – fui muitas pessoas diferentes na minha vida. Só que, depois de todo o caos que enfrentei, percebi que é bom ser Boy George. Preciso dar um pouco de amor a ele. E é o que tenho feito nos últimos seis anos.”