Vai Ter Copa, Sim. Mas e Depois?

Como os problemas na organização do torneio e a atuação do Brasil dentro dos gramados podem influenciar o resultado das eleições presidenciais

Leandro Prazeres Publicado em 13/06/2014, às 14h44 - Atualizado em 13/08/2014, às 13h22

Ilustração: Lézio Júnior

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No momento em que você lê esta edição da Rolling Stone Brasil, muitos brasileiros seguram a respiração com ansiedade. Depois de sete anos repetindo o bordão “Imagina na Copa”, a tal Copa chegou. Mas não é apenas o desempenho de Neymar Jr. e companhia que está tirando o sono do país. Traumatizado pelos protestos de 2013 e desiludido pelo descompasso entre o que se esperava e o que foi entregue, o brasileiro está apreensivo. “Vai ou não vai ter Copa?” era o que nos perguntávamos há até poucos dias. Para deixar tudo mais emocionante, assim que os atletas deixarem os gramados, outros nomes entrarão em campo – desta vez para as eleições que podem acabar com a hegemonia do PT no cenário nacional ou dar mais quatro anos a Dilma Rousseff . Haja coração!

Afinal, a Copa influenciará ou não o resultado das eleições? Quem tem mais a perder e a ganhar com o maior evento esportivo do país? Reunimos um time de especialistas em política e futebol para ajudar a responder a essas perguntas. E as opiniões divergem.

Para compreender o barril de pólvora no qual o Brasil se transformou às vésperas da tão esperada Copa do Mundo, é preciso voltar a 30 de outubro de 2007, o dia em que a Fifa anunciou que o país seria o anfitrião do Mundial de 2014. Nenhuma outra nação teve tanto tempo para organizar um torneio. O então presidente Lula e os demais responsáveis pela candidatura brasileira anunciaram que o evento seria bancado, majoritariamente, com dinheiro privado; em contrapartida, os governos de cada estado iriam viabilizar obras de mobilidade urbana nas cidades-sede. Em 2009, foram escolhidas as subsedes da Copa. Em meio à euforia econômica, o Brasil era o país da moda. A crise global de 2008 teve impacto menor por aqui, e em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5%, superando o do Reino Unido no ano seguinte. O futuro havia chegado, e o “Primeiro Mundo”, destino manifesto do gigante adormecido, parecia estar logo ali na esquina. A Copa do Mundo era considerada a chance de superarmos velhos estigmas e surpreendermos.

Em 2010, o Brasil divulgou a chamada “Matriz de Responsabilidades” para a Copa, um documento que descrevia as obras que os governos deveriam fazer até o pontapé inicial da competição. A matriz garantiria, segundo o governo federal, o tão alardeado legado da Copa. Sete anos depois da comemoração inicial, a Copa imaginada durante tanto tempo será bastante diferente daquela que começou em 12 de junho de 2014 com a partida entre Brasil e Croácia.

Se o discurso oficial divulgou um evento bancado principalmente pela iniciativa privada, dentro dos prazos e com um duradouro legado de infraestrutura, o choque com a realidade é assustador. Estima-se que 85% dos gastos com o torneio sejam públicos, algo em torno de R$ 28 bilhões, o que transforma a Copa no Brasil na mais cara da história. Dos 12 estádios espalhados pelas cidades escolhidas sob critérios, digamos, pouco objetivos, nove foram construídos por governos estaduais e do Distrito Federal com a utilização de recursos públicos. Os três estádios privados (Arena da Baixada, em Curitiba, Beira Rio, em Porto Alegre, e Itaquerão, em São Paulo) foram viabilizados com financiamentos junto ao BNDES, com juros abaixo do mercado e com isenções fiscais concedidas por estados ou municípios. No total, só em estádios, os

cofres públicos desembolsaram R$ 8 bilhões.

Quando o tema é “legado”, o jogo fica ainda mais truncado. Um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo há 30 dias do início da Copa mostrou que, das 167 obras prometidas, apenas 68 (41%) estavam prontas. Outras 88 (53%) ou estavam incompletas ou não ficariam prontas para a Copa. Cidades como Manaus, onde foi prometida a construção de um veículo leve sobre trilhos e um sistema de corredores exclusivos de ônibus (BRT), não viram os projetos saírem do papel. Em Cuiabá, nem o aeroporto ficou pronto em tempo para a competição. No Rio de Janeiro, poucos dias antes da primeira partida, a prefeitura ainda tentava finalizar trechos de um corredor de ônibus que já deveria estar pronto há meses. Para arrematar, a nossa Copa “privada” (que depois virou quase toda pública) também ficou marcada por denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Augusto Nardes, presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), afirma que o órgão detectou cerca de R$ 700 milhões em contratos suspeitos. O valor dos possíveis desvios pode ser ainda maior, uma vez que o TCU só fiscaliza obras executadas com recursos federais. Como estados e prefeituras também meteram a mão no cofre, é possível que o valor seja mais alto. Em Brasília, por exemplo, o Estádio Mané Garrincha deverá custar em torno de R$ 1,7 bilhão enquanto o Tribunal de Contas do DF apura um sobrepreço de pelo menos R$ 337 milhões.

A cereja do bolo foi proporcionada há duas semanas por Joana Havelange, integrante do Comitê Organizador Local (COL), além de filha de Ricardo Teixeira e neta de João Havelange (ex-presidentes da CBF e da Fifa, respectivamente). Em uma rede social, ela admitiu que roubos foram cometidos na organização da Copa. “... O que tinha de ser gasto, roubado, já foi”, escreveu, sem entrar em detalhes.

m meio a esse emaranhado de promessas, denúncias e expectativas em relação ao tão sonhado hexacampeonato da seleção, os três principais candidatos às eleições presidenciais aproveitam para rever seus esquemas táticos. Dilma (PT), contou com o apoio de Ronaldo “Fenômeno” durante quase toda a campanha da Copa, viu seu principal garoto-propaganda virar a casaca. No final de maio, o ex-atacante declarou estar “envergonhado” com os atrasos nas obras para a Copa (ele era membro do Comitê Organizador, no entanto) e declarou apoio a Aécio Neves (PSDB), segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto. Eduardo Campos (PSB), por sua vez, tem a seu favor a artilharia sempre pesada e perigosa do deputado federal Romário (PSB-RJ), que há mais de um ano anunciou: “Vai ser a maior roubalheira da história deste país”.

Exceto pelo jornalista esportivo Juca Kfouri, todas as fontes escutadas por esta reportagem acreditam que o desempenho da seleção em campo terá alguma infl uência nas eleições. Nenhum deles diz, porém, que essa infl uência será determinante para o resultado das urnas.

Sociólogo e especialista em marketing eleitoral, Antônio Lavareda garante que o desenrolar da Copa terá, sim, impacto decisivo nas eleições presidenciais. Para ele, há pelo menos duas dimensões nas quais o torneio será compreendido pela população: a primeira é a competição em si e o desempenho do Brasil; a segunda é a maneira como a organização do evento será percebida pelas pessoas. O impacto estaria na forma como essas dimensões vão interagir. “A Copa é um grande teste de infraestrutura. Se a população ficar satisfeita com a organização e o Brasil ganhar o hexa, será uma combinação de fatores que vai favorecer a percepção da candidata Dilma”, diz Lavareda. “Se o brasileiro ficar insatisfeito com a organização, mas o Brasil ganhar, isso vai, de certa maneira, amenizar a insatisfação com relação à infraestrutura. Agora, se a população ficar insatisfeita e o Brasil perder, aí não terá como isso não afetar a candidata.”

Já Alberto Carlos Almeida, cientista político e autor dos livros A Cabeça do Brasileiro e A Cabeça do Eleitor, afirma que o resultado da Copa dentro de campo só será significativo para as eleições se o Brasil for desclassificado precocemente. “Se isso acontecer, servirá de combustível para as pessoas se sentirem mais injustiçadas com os gastos em estádios. Fora isso, não haverá infl uência. O povo brasileiro não é otário.”

Juca Kfouri é outro dos que não creem que o resultado dentro das quatro linhas vá definir o próximo presidente. “A história mostra isso pra gente”, diz, dando exemplos das Copas passadas. “Em 1958, o Brasil de Juscelino [Kubitschek] foi campeão. Ele morreu cassado. Em 1970, na ditadura, o Brasil ganhou, mas a resistência ao regime era grande. Em 1994, foi a única vez em que a seleção venceu e o candidato do governo venceu. Em 2002, o Brasil venceu, e o candidato do governo perdeu. Em 2006, o Brasil perdeu, e o candidato do governo venceu. Em 2010, perdeu de novo, e o governo venceu. O povo sabe diferenciar uma coisa da outra.”

Para o deputado Romário, no entanto, aqueles que afirmam que o desempenho da seleção não terá efeito direto nas urnas desconsideram um fator tido por ele como fundamental: “A Copa é no Brasil, parceiro”, diz o ex-jogador, campeão do mundo em 1994 e crítico de longa data da organização do evento. “Infelizmente, acho que se o Brasil ganhar, muita gente que hoje está insatisfeita e protestando pode se deixar levar pela alegria do título e se esquecer, um pouco, da indignação com relação ao que vem acontecendo. E o que aconteceu foi roubo. Esses caras deveriam estar todos na cadeia.”

Mesmo com os reforços da oposição, tudo leva a crer que os três principais candidatos à presidência vão jogar na retranca durante o período da Copa. Dilma anunciou que assistirá às partidas pela TV. Evita, assim, o risco de ouvir vaias como as de 2013, durante a abertura da Copa das Confederações. Tudo leva a crer que Aécio Neves e Eduardo Campos também não comparecerão às arenas.

“Eu, se fosse eles, não iria para os estádios. Dificilmente eles seriam ovacionados e ainda correm o risco de ser vaiados. Não têm nada a ganhar”, diz o sociólogo Lavareda, que acrescenta que, entre os três políticos, Dilma é quem tem a possibilidade de mais tomar prejuízo. “Só ela tem a perder, porque se algo der errado, a fatura vai estar no nome dela. Os candidatos de oposição, por serem menos conhecidos, só se beneficiam se ela perder, mas não tem como eles perderem algo.” “Como no Brasil a oposição é o oposto simétrico da situação, se ela perde, a oposição ganha. Mas, se ela ganha, o impacto para eles não é tão grande assim”, completa o cientista político Alberto Carlos Almeida, que afirma que não há o que a oposição possa fazer para potencializar os eventuais problemas que ocorrerão durante a Copa. “O que podia ser explorado já foi, que é [a questão do] gasto em estádios. Não acredito que o Brasil vai enfrentar grandes problemas de infraestrutura. A que existe será suficiente para o evento. Estamos no Brasil. Copa do Mundo se faz com plano B, e porque estamos no Brasil até o plano B unciona.”

Juca Kfouri também acha que a oposição terá difi culdade em capitalizar sobre um eventual fracasso na organização do torneio. “Quem vai conseguir tirar proveito disso? Essa oposição?”, diz. “O Aécio, que gastou uma enormidade com o Mineirão? O Eduardo Campos, que construiu um estádio novo em uma região onde já havia outros? Acho difícil que alguém consiga fazer isso.” Lavareda aponta outro fator que deixaria Dilma ainda mais vulnerável: “A população tem a percepção de que a Copa é um evento do governo federal. Se algo der errado em qualquer uma das cidades- -sede, a fatura vai estar no nome dela, e não necessariamente no do governador ou do prefeito. Ela é quem tem mais a perder. E você pode ter certeza de que os candidatos de oposição vão tentar capitalizar em cima disso durante as eleições”. nalisando em

perspectiva, é difícil imaginar como a vitrine na qual todo governante gostaria de se exibir se transformou em uma temida marca do pênalti. Lavareda cita James Carville, o estrategista político do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, para explicar o desenrolar dos fatos.

“É a economia”, ele crê. “O que mudou de 2007 para 2014 é a percepção de que nossa economia está lenta e que o dinheiro gasto nos estádios poderia ter sido gasto em outras coisas, notadamente na saúde, educação e segurança pública. A Copa chega exatamente no momento em que a economia não vai bem e a maioria dos brasileiros têm sentimentos negativos sobre a vida no país.” Diplomático, o sociólogo crê que o malogro da Copa pode servir como um alerta. “Ela vai lembrar os brasileiros o fato de que, embora sejamos uma das sete ou oito maiores

economias do mundo, o Brasil ainda está em um patamar muito atrasado na sua capacidade de execução de grandes objetivos e políticas públicas.”

Almeida discorda do coro que descreve a Copa verde-amarela como um fracasso iminente. “Quem diz isso vai dar com os burros n’água”, afirma. “É um erro querer medir o Brasil com uma régua germânica. Não tem como pedir padrão alemão para uma Copa no Brasil. Quem está vindo para o Brasil sabe o que vai encontrar. Esse discurso é fruto do nosso complexo de vira-lata.”

Romário, por sua vez, acrescenta que o fracasso do Brasil fora de campo não terá impacto na autoestima do brasileiro. “Fora do campo, o Brasil já perdeu essa Copa”, diz o deputado. “Era nossa chance de mostrar que a gente sabe fazer as coisas, que o Brasil não é só o país do samba, futebol e mulher bonita. Mas os governantes jogaram isso fora. Ainda assim, não acho que o brasileiro vai se sentir vira-lata por isso. Depois dos protestos de 2013, ele sabe o que tem que fazer para mostrar para esses caras que não dá para continuar como está.”

A copa ao vivo

O que veremos na telinha além dos jogos?

Se ao longo dos últimos anos a cobertura da TV aberta sobre o evento contemplou as dimensões esportivas e sociais da Copa – além de reportagens sobre o famigerado “legado” –, algo mudou nas semanas que antecederam o início da competição: foi possível notar um aumento nas reportagens focadas apenas no caráter festivo da competição. Em 2013, boa parte dos movimentos sociais ligados aos “protestos de junho” entendeu que a Globo ficou refém da grandiosidade dos fatos e noticiou os eventos à exaustão. Hoje, em círculos ligados à emissora, já se entende que o canal não irá embarcar no fervor popular tão facilmente durante a Copa. Para Luciano Maluly, professor do Departamento de Jornalismo da USP, será impossível para a Globo ignorar os protestos que deverão acontecer nas próximas semanas. “Ela não pode fazer isso, senão isso vai se voltar contra ela, como já aconteceu antes, durante as manifestações de 2013”, diz. No entanto, Maluly afirma que as emissoras não irão explorar em excesso os problemas que venham a ocorrer: “Você verá matérias, de um, dois minutos, mas difi cilmente encontrará programas debatendo o tema. Não é do interesse deles fazer isso”. A maior quantidade de fontes de informação e a popularização das mídias digitais são fatores que diminuem o poder de infl uência da maior emissora do país na Copa, mas Maluly crê que a maioria ainda

terá a Globo como a principal fonte de informação. “A maior parte da população ainda não tem os elementos necessários para problematizar o tema. A Globo, sobretudo, terá um papel importante sobre como a população perceberá a Copa no Brasil.”