Amigos de Fé

Sete anos após a implosão repentina do Ira!, Nasi e Edgard Scandurra reatam a amizade de mais de 30 anos e retornam ao companheirismo de antigamente

José Julio do Espirito Santo Publicado em 07/08/2014, às 13h26 - Atualizado em 08/08/2014, às 16h58

Sinuca de bico
Scandurra e Nasi em retrato feito no mês de junho, em São Paulo.

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Com o semblante tranquilo, Nasi toma os primeiros goles de café daquela tarde de junho, enquanto espera pacientemente. Ele sai do bar na Vila Madalena, bairro boêmio na zona oeste de São Paulo, fuma um cigarro e olha em direção à rua quase deserta. Depois de discorrer brevemente sobre a agitação e o cheiro da região na época da Copa do Mundo, Nasi começa a entrevista – não respondendo a uma pergunta, mas sim fazendo ele próprio um questionamento: quer saber se eu vi o novo show do Ira! “A gente está com um pique impressionante”, ele dispara sem esconder o contentamento, antes de ouvir a resposta. “Edgard está tocando guitarra de um jeito e com uma energia que eu nunca vi na vida.”

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Bastou o vocalista do Ira! se lembrar do colega de banda para que o guitarrista despontasse na esquina. Meio esbaforido, Edgard Scandurra pede desculpas e explica que o atraso se deu por causa da visita técnica de uma empresa de TV a cabo. Coisas de astro do rock. Em poucos minutos, Nasi e Scandurra, que em 1981 deram início ao que se tornaria uma das bandas mais emblemáticas da história do rock brasileiro, se enfrentariam mais uma vez, depois de muitos embates passados. Não em um ringue, nem em um tribunal, mas em uma mesa de sinuca. Nenhum dos dois é um exímio jogador – eles não escondem o fato de não empunharem o taco tão bem quanto o microfone (ou, no caso de Scandurra, a guitarra). No final das contas, não há disputa naquela sala escura, o que fica no ar é um renovado companheirismo, de brincadeiras e papo aberto, sem muito espaço para detalhes sobre os caminhos que levaram à separação do Ira!, que os manteve afastados nos últimos sete anos.

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Semanas antes dessa partida amistosa, no show da dupla Jack & Fancy em uma loja de discos no centro da capital paulista, Scandurra permanecia sentado na mesa próxima ao palco. Animado, prestigiava o projeto capitaneado por Clemente (Inocentes) e Sandra Coutinho (As Mercenárias), amigos dele de longa data. Antes de ir embora, é também ele quem pergunta: “Você viu minha nova banda?” Com o olhar alegre, Scandurra parecia brincar. Não brincava: o Ira! é hoje, sim, uma nova banda. Além dos dois homens de frente, a atual formação do grupo tem Daniel Rocha (filho de Scandurra) no baixo, Evaristo Pádua na bateria e Johnny Boy nos teclados. “Daniel é o mais jovem, mas talvez seja o cara que conhece melhor as músicas, depois de mim e do Nasi. Ele as ouve desde a barriga da mãe, né?”, diz Scandurra, tentando conter o orgulho de tocar com o filho no Ira! (os dois também são parceiros na banda Pequeno Cidadão). Pádua já é parceiro de Nasi há pelo menos cinco anos, tendo trabalhado na carreira solo do cantor. Já Johnny Boy é um velho companheiro: participou de quase toda a gravação do álbum 7 (1996), além de ter tocado no disco de covers Isso É Amor (1999) e no sucesso MTV ao Vivo (2000).

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Nasi e Scandurra indicam que a clássica e mais duradoura formação do Ira!, com Ricardo Gaspa no baixo e André Jung na bateria, não se reativou para o retorno porque, mesmo antes da parada, já não se sustentava. Nos shows após o lançamento de Invisível DJ (2007), álbum mais recente do quarteto, parecia existir um comodismo tão latente quanto o de uma repartição pública. Dentro de uma banda de rock, isso pode significar o prenúncio do fim. “Acho que não havia muito a preocupação que a gente tem agora com o andamento das coisas, com o timing de uma música para a outra”, Scandurra explica. “Estávamos bem acomodados nos shows. Agora temos a preocupação de subir ao palco e ter uma música atrás da outra, de falar menos e tocar mais, sabe? De ter uma energia pulsante.”

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A formação anterior a essa, com Dino Nascimento no baixo e Charles Gavin na bateria, foi fundamental no estabelecimento do Ira! – na época, o nome era grafado com todas as letras maiúsculas e sem o ponto de exclamação – como uma das bandas influenciadoras do cenário underground de São Paulo. Fora do palco, no entanto, eles não pareciam pertencer à mesma turma. “Charles trabalhava muito e Dino estava estudando direto, queria entrar em faculdade”, Scandurra relembra.

“Charles também estava se afastando esteticamente da banda. A gente era muito ‘outsider’, vamos dizer assim, para usar uma palavra bonita”, Nasi brinca. “Acho que chegou um momento em que ele não conseguiu ver uma identificação de carreira.” Gavin recebeu, ao mesmo tempo, convites para ocupar o posto de baterista de duas bandas, RPM e Titãs. Firmou-se na segunda e escapou do lado zombeteiro de Nasi e Scandurra, que costumavam pegar no pé dos demais integrantes do Ira! Era quando a dupla parecia encarnar os Skrotinhos, adoráveis (e insuportáveis) personagens dos quadrinhos de Angeli. “Geralmente a gente fazia um bullying musical”, Scandurra revela. Victor Leite, baterista da segunda formação, chegou a expulsá-los da casa onde ensaiavam. “A gente gostava pra caramba de The Who, mas um dia, só para encher o saco do Victor, ficamos falando que a versão dos Sex Pistols para ‘Substitute’ era melhor do que a original do Who”, Nasi relembra. “Sabíamos que não era, mas aí começava a discussão.” A famigerada dupla achava que era tudo brincadeira, mas acabou enxotada do ensaio, carregando amplificador nas costas pelas ruas do bairro Vila Mariana, em São Paulo. Com Gavin, não era muito diferente. “A gente enchia o saco por causa da pochete dele. ‘Essa pochete… Você tá usando pochete?’ Um dia ele foi assaltado com a tal da pochete e a gente tirou o maior sarro.”

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A princípio, nem Nasi nem Scandurra conseguem se lembrar com precisão como se conheceram. Eles se recordam, no entanto, de que a fama alheia chegou aos ouvidos de cada um deles antes de quaisquer apresentações. “Edgard era popular no colégio”, Nasi relembra, deixando o companheiro ruborizado. “Ele sempre tinha a namorada dele ao lado, mas era um cara que ficava no pátio, na saída, com o violão. As pessoas sentavam em volta, cantavam músicas do Milton Nascimento.” Enquanto agradava à namorada com o repertório do Clube da Esquina, o futuro guitarrista do Ira! compartilhava sua predileção musical com poucos colegas. Em 1977, no Brasílio Machado, uma tradicional escola estadual paulistana, a palavra “punk” só entrava no vocabulário de uma minoria. “Os caras diziam: ‘Tem um cara que gosta de punk também’, falando do Nasi”, Scandurra recorda. Com certa saudade, os dois dão início a uma conversa sobre a época em que sabiam da existência um do outro, mas não se conheciam de fato. Do jorro de memórias, vem a conclusão: “Fomos apresentados no Museu da Imagem e do Som, quando passou um documentário nacional chamado O Punk na Terra do Tupiniquim”, Nasi lembra, finalmente. Segundo Scandurra, eles achavam que “ia aparecer um monte de punk, mas o filme foi decepcionante”. O dia não foi perdido. Foi o começo de uma amizade intensa, que, embora temporariamente interrompida, parece agora mais fortalecida. Ambos riem das histórias de antigamente. Nesse momento, fica difícil pensar no período de brigas que fez a banda implodir quase instantaneamente.

No dia 8 de setembro de 2007, Nasi faltou a um show do Ira! na cidade de Campestre, em Minas Gerais. A desculpa para a ausência foi um problema de saúde, mas, na realidade, a banda estava estafada. Depois de Invisível DJ, um álbum criado a fórceps, seguiu-se uma turnê. Uma briga feia entre Nasi e Airton Valadão Jr., irmão dele e empresário do Ira!, com relatadas agressões verbais e físicas, veio na sequência. Nasi de um lado, Valadão e os demais integrantes do ou-tro. A coisa acabou caminhando para os tribunais, e terminou em um acordo entre as partes. Hoje, a dupla fundadora evita pensar sobre o passado. Posando de Rui Chapéu e Carne Frita, ícones brasileiros da sinuca, Nasi e Scandurra só querem celebrar o presente. A reunião da dupla foi selada com um encontro no palco durante um show beneficente em outubro de 2013. Todo mundo entendeu o recado como a volta do Ira! Segundo Nasi, naquele momento, essa ainda não era a intenção. “A gente procurou se distanciar um pouco dessa ideia porque, na verdade, por mais que eu achasse que só o fato de a gente ter se reconciliado deixaria o clima do show bom, você sempre fica com uma dúvida: será que em cima do palco ainda tem a ver?”, afirma o vocalista. Felizmente, tinha tudo a ver – eles estão com a agenda lotada até o fim do ano. “Foi como se nada tivesse acontecido, como se nós, em cima do palco, estivéssemos acima de todas as coisas ruins pelas quais passamos.”

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“Faço o mea-culpa dos problemas por ter deixado tudo tão fora do meu controle e depois não ter tido serenidade suficiente para tentar resolver o que estava errado”, continua Nasi. Scandurra cita a falta de paciência entre os membros da banda. “Na verdade, eu quero passar uma borracha nisso tudo”, ele desconversa. “O som do Ira! é aquele que todo mundo curte, mas agora a banda é outra.” O título do primeiro álbum completo da banda, Mudança de Comportamento (1985), vem à mente. “Um dia desses, li um ditado africano que fala assim: ‘Vinte crianças não brincam juntas durante 20 anos’. Acho que nem tudo na vida segue junto. Mas eu e Edgard seguimos”, resume Nasi. “Somos duas crianças que brincaram juntas durante 20 anos. E foi assim que a coisa rolou: da melhor maneira possível.”

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Primeiro show do Ira! Teve polícia e confronto entre skinheads e punks

O Ira! já teve cinco formações diferentes. A primeira delas trazia, além de Nasi e Edgard Scandurra, Adilson Fajardo no baixo e Fábio Scattone na bateria. Essa configuração durou só até o primeiro show do grupo, realizado no campus Consolação da PUC de São Paulo. Na época, Scandurra e o baterista cumpriam o serviço militar obrigatório, e o fato de a Polícia do Exército ter aparecido e acabado com a diversão do grupo foi, naquele dia, o menor dos problemas – por pouco não houve um confronto sério entre grupos de skinheads e punks, notórios rivais.

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Além do Ira!, a banda Passeatas também estava escalada para o evento improvisado. Os shows aconteceram em um palco montado dentro de uma sala de aula, e medo era um sentimento que não passava pela cabeça dos integrantes do quarteto – afinal, bêbados costumam ter coragem de sobra. “O problema maior foi o álcool. Estava todo mundo muito doido”, lembra Scandurra. “Tomei três ‘rabos de galo’ e subi ao palco. Não me lembro de mais nada. Nasi lembra menos ainda.”