Mussum pra sempris

Morto há 20 anos, comediante d’Os Trapalhões se transforma em mito na era da internet

Marcos Lauro Publicado em 10/07/2014, às 16h54 - Atualizado em 29/07/2014, às 12h52

Carismático 

Mussum no início dos anos 1970.

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Antonio Carlos Bernardes Gomes, nascido no Rio de Janeiro em 7 de abril de 1941, tinha tudo para ser apenas mais um trabalhador humilde e de vida simples da periferia. Negro de infância pobre, ele viu a solução para sair da mesmice, inicialmente, na carreira militar, ao se alistar na Aeronáutica quando completou 18 anos. Depois, acostumado a frequentar os morros cariocas – e sempre tendo sido bem acolhido pelo círculo boêmio da Mangueira –, Gomes chegou ao samba. Mas ele é lembrado pelo público por sua face mais multimídia: o humor com o lendário grupo Os Trapalhões.

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O apelido Mussum, que virou marca inseparável do humorista, foi cunhado pelo mineiro Grande Otelo, em 1965, no início da trajetória do carioca na televisão. Em junho de 1972, anos depois de o nome ter pegado, Mussum entrou para Os Trapalhões, na TV Record, quando eles ainda atendiam por Os Insociáveis. “Eu dei a ideia para o Renato Aragão de chamar o Mussum para o programa. Nos Estados Unidos existia uma safra de humoristas negros e achei bacana adaptar para cá”, conta Dedé Santana, parceiro em Os Trapalhões. Eles se conheceram na noite paulistana, quando Mussum ainda trabalhava apenas como músico, no grupo Os Originais do Samba. Foi Jair Rodrigues que fez a ponte entre os dois.

A figura de Mussum no programa Os Trapalhões se firmou como a do malandro gozador e fã de bebida, que não aparecia na tela sem fazer menção ao popular “mé”. Essa imagem era uma meia-verdade em relação ao Mussum de fora da tela. O sujeito que falava terminando as frases com “is” era, na verdade, um profissional extremamente exigente. Em Os Originais do Samba, Mussum ganhou o apelido de “Diabo” de tanto policiar os colegas: era ele quem mantinha o grupo na linha, podando o hábito de beber antes dos shows, evitando atrasos e sempre mantendo os integrantes preocupados com o figurino. O gosto pelo álcool na vida real era notório, mas, de acordo com o biógrafo Juliano Barreto, autor de Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões (Editora LeYa), que marca os 20 anos da morte do humorista, o “mé” vinha sempre depois das obrigações.

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“Dos 13 aos 16 anos, Mussum estudou em um colégio interno muito rígido. Logo depois entrou para a Aeronáutica. Só andava bem alinhado, com o sapato lustrado e falando um português corretíssimo”, conta Barreto. Dedé Santana reforça o lado cuidadoso do colega trapalhão: “Eu ia aos shows d’Os Originais só pra ver o guarda-roupa dos caras – era coisa de primeiro mundo!”

Foi Dedé quem incentivou o amigo a investir na comédia. “No começo, ele me perguntava o que poderia fazer para virar humorista. Sem saber, ele já era humorista”, conta. Ao lado dele, Mussum lapidou, no circo, a capacidade de improvisar. Não demorou muito para pular do picadeiro para as telas de cinema. A estreia foi em O Trapalhão no Planalto dos Macacos (1974), o primeiro de uma lista de mais de 20 filmes nos quais ele atuou.

Dedé ainda hoje se emociona ao falar de Mussum. “Fomos os melhores amigos, éramos inseparáveis n’Os Trapalhões. E ele nunca me chamou de Dedé: era sempre ‘compadre’”, relembra. O lado brincalhão de Mussum, claro, também está entre as principais memórias. “Eu o via indo para a Mangueira, para as rodas de samba, com gente como Jorge Aragão e Almir Guineto. E eu era doido pra ir junto, mas ele sempre me barrava dizendo que iria passar vergonha, porque eu só tomava suco de laranja”, conta, às gargalhadas.

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Hoje, a imagem de “mumu da mangueira”, outro da longa lista de apelidos, continua viva e ubíqua: vídeos na internet, camisetas e até uma cerveja estampam o rosto do humorista. “A gente tenta controlar o que sai por aí com a imagem dele, mas é quase impossível. Agora, em um quartinho você consegue fazer centenas de camisetas para vender”, diz Augusto Gomes, um dos quatro filhos de Mussum, cada um de um relacionamento diferente.

Um dos veículos que mantêm a figura (e a linguagem) de Mussum circulando na internet é o Twitter @MussumAlive, criado em 2009 pelo técnico mecânico Leandro Santos. Começou como uma brincadeira, mas, depois que o perfil passou a crescer (tem mais de 108 mil seguidores), Santos resolveu conversar com os filhos do artista. “Sempre tive o cuidado de não explorar a imagem dele com produtos”, afirma, contando que Sandro Gomes, filho de Mussum, entendeu e aprovou a proposta do Twitter. Gomes é o responsável pela cerveja Biritis, que leva o característico sorriso do comediante no rótulo.

Sandro e o irmão Augusto concordam quando o assunto são os 20 anos da morte do pai. “Parece que não faz nem um ano. A imagem dele está muito viva, e as homenagens não param”, diz Augusto. Segundo os dois, em família Mussum mantinha um pouco do lado exigente de que não abria mão na trajetória profissional. “Em casa ele era alegre, carinhoso e conversador. Mas o estudo sempre vinha em primeiro lugar”, lembra Sandro. “Quando eu queria sair para alguma festa, ele sempre perguntava se eu tinha feito a lição de casa e como tinha me saído nas provas.”

No dia 29 de julho de 1994, aos 53 anos, Mussum pirulitou-se desta vida durante uma cirurgia de transplante de coração e deu início a um mito. O homem robusto que falava de forma engraçada e

não saía do bar ficaria na mente e na lembrança de quem cresceu com Os Trapalhões na tela ou com o grupo Os Originais do Samba no ouvido. Mais que isso: na era da internet, ele viria a alcançar um público ainda maior graças ao YouTube.

“O sorriso é a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro do Mussum”, diz Dedé. Para os fãs, parece não ser diferente. “Ele hoje é a cara dos Trapalhões. É uma figura que se vende sozinha, não depende dos outros três [Didi, Dedé e Zacarias], e o fã nem precisa ter assistido ao programa na época”, resume Leandro Santos, do @MussumAlive. Mussum, definitivamente, está vivis.