O nascimento dos festivais de rock

De Mount Tam a Woodstock: um olhar sobre a época ensandecida que possibilitou a existência de eventos como Coachella e Lollapalooza

David Browne Publicado em 28/07/2014, às 12h43 - Atualizado às 15h33

<b>Lendário</b><br>
Em 18 de junho de 1967, Jimi Hendrix fez história no Monterey Pop Festival.

Ver Galeria
(4 imagens)

Como costuma acontecer com momentos importantes, foi bem discreto – dá até para dizer que foi curioso. No decorrer de dois dias, em 1967, cerca de 40 mil fãs foram até um parque estadual no alto do monte Tamalpais, ao norte de São Francisco, Estados Unidos. Chegaram a pé, de carro e em ônibus escolares fretados, acomodaram-se ao sol e fumaram maconha enquanto assistiam ao line-up de bandas que incluía The Doors, The Byrds e Captain Beefheart. Os ingressos custavam US$ 2, e um balão gigante com uma imagem de Buda recebia o público. A cada noite, o show tinha que parar ao anoitecer, porque o parque não tinha eletricidade. Era o início da era hippie, então boa parte do pessoal ainda tinha cabelos curtos e vestia camisa com colarinho. De acordo com o executivo de rádio Tom Rounds, um dos organizadores, a segurança se resumia a “guardas do parque e naturalistas falando sobre folhas de pinheiro”. Depois, uma manchete em um jornal local afirmou: “Hippies merecem elogios por bom comportamento”

Apenas nove dias antes, os Beatles tinham lançado a obra-prima Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Eles mudaram a música. Mas, à sua própria maneira, aquela reunião em Mount Tam – conhecida oficialmente como Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival – criou algo tão profundo quanto o álbum: o primeiro festival de rock de verdade.

Na era de Coachella, Bonnaroo e Lollapalooza (este último realizado desde 2012 em São Paulo, com sucesso), grandes festivais são parte integrante da paisagem pop. Mas, até o Verão do Amor, a ideia de milhares de fãs de rock reunidos em espaços abertos para ouvir um elenco variado de artistas era algo inédito. Entre 1967 e meados da década de 1970, os festivais ao ar livre se tornaram pilares de alguns dos momentos mais cruciais do rock – Jimi Hendrix colocando fogo na própria guitarra em Monterey, Sly and the Family Stone criando um clima de êxtase em Woodstock com “I Want to Take You Higher”, Bob Dylan de terno branco para sair da aposentadoria no Isle of Wight Festival, em 1969. Eles eram a concretização da ideia de uma comunidade rock and roll; os triunfos e os erros desses eventos passaram a ser lições objetivas para o festival de rock moderno.

Pelo menos em parte, o objetivo dos festivais era sanar alguns problemas dos shows de rock da década de 1960. Em uma apresentação dos Rolling Stones no Cow Palace, em São Francisco, em 1966, Tom Rounds observou, desolado,

jovens fãs (alguns com apenas 13 anos de idade) saltando cheios de animação as grades em frente ao palco e logo sendo recolhidos por seguranças e mandados de volta para o meio do público – e às vezes direto para o chão de concreto da casa de espetáculos. “A gente ouvia o som de algo sendo esmagado, e era aterrador”, relembra Rounds. “Eu me lembro de dizer a um dos meus colegas: ‘Tem que existir um jeito melhor de fazer isso. Que tal ao ar livre?’” Daí nasceu a Fantasy Fair, inicialmente um evento de arrecadação de fundos para ações beneficentes e de promoção para a estação de rádio de Rounds, a KFRC.

Mais ou menos na mesma época, Lou Adler, empresário de bandas e diretor da Dunhill Records, teve uma conversa com John Phillips e Cass Elliot, do The Mamas and the Papas, e com Paul McCartney a respeito de festivais de jazz e folk como os realizados em Newport, nos Estados Unidos. A conversa passou para como “o rock and roll não era considerado uma forma de arte do jeito que o jazz era”, diz Adler. Pouco depois, Adler e Phillips criaram um plano ambicioso: três dias de pop, rock e soul no Monterey County Fairgrounds, na Califórnia, com capacidade para 7 mil pessoas.

A dupla falou com os amigos músicos para ter ideias a respeito de quem incluir na apresentação. McCartney sugeriu Hendrix; Andrew Loog Oldham, empresário dos Stones, disse que eles deveriam contratar o The Who. Problemas de visto impediram a presença do The Kinks e de Donovan e, até hoje, ninguém sabe dizer com certeza se o Doors foi convidado ou não. Para compensar a ausência de nomes da Motown (de acordo com Adler, ninguém sabia como entrar em contato com Berry Gordy), Otis Redding foi chamado. No decorrer de três dias cheios de harmonia, músicos conviveram no backstage, comendo lagosta e filé enquanto a multidão com assentos marcados – que no final somou mais de 50 mil pessoas – assistia a tudo, de Grateful Dead a Lou Rawls. “Foi civilizado”, lembra Chris Hillman, do Byrds, que se apresentou e também caminhou pelo local com John Entwistle, do The Who. “Foi o retrato perfeito do espírito de paz e amor de meados da década de 1960.”

Também foi a primeira vez que muitas das próprias bandas puderam ver os colegas ao vivo. “Estávamos ao lado do palco e Hendrix estava mexendo as mãos como se houvesse chamas, como se fosse algum tipo de coisa espiritual estranha”, diz Grace Slick, do Jefferson Airplane. “E depois ele colocou a guitarra no chão e tocou fogo!” Lou Adler tinha ouvido dizer que o The Who poderia detonar todo o equipamento, mas, mesmo assim, saiu correndo para o palco para salvar a bateria de Keith Moon quando a banda começou a destruir os instrumentos no fim do show. “Nós sabíamos como eram as apresentações deles na Inglaterra, mas aqui foi em outro nível”, recorda Adler. “Todo mundo ficou tentando salvar algo.”

As notícias positivas a respeito de Monterey se espalharam com rapidez. Robbie Robertson, da The Band, cruzou com Brian Jones, dos Rolling Stones, que tinha saído vagando como se tivesse sido beatificado pelo festival. “Ele disse que realmente era um evento adorável e extraordinário”, conta Robertson, “e que os músicos eram fantásticos, um após o outro.” Promotores de rock novatos ouviram os mesmos relatos e, no decorrer dos dois anos seguintes, festivais com line- -ups espetaculares passaram a acontecer com certa regularidade.

Michael Lang, um promoter de 23 anos, ficou tão inspirado por Monterey que organizou o primeiro Miami Pop Festival, evento de dois dias em 1968 que foi atrapalhado pela chuva no segundo dia. Mas ele tinha planos ainda maiores. No sítio de Max Yasgur, algumas horas ao norte da cidade de Nova York, ele e os outros organizadores esperavam que cerca de 200 mil pessoas se deslocassem até lá para o Woodstock Music & Art Fair, em agosto de 1969. Apareceu o dobro desse número. O artista encarregado pelo show de abertura, o perturbado cantor e compositor Tim Hardin, mudou de ideia no último minuto (Richie Havens foi convencido a substituí- -lo e Hardin cantou à noite). O Jeff erson Airplane teve que esperar nos bastidores durante quase 12 horas antes de subir ao palco. “Não foi a precisão espetacular do Monterey Pop Festival”, afirma Grace. Ao chegar de helicóptero, Robbie Robertson viu o mar de gente. “A coisa toda parecia estonteante”, ele descreve. “Ninguém no mundo tinha feito antes um festival daquela escala.” Aqueles três dias também registraram uma overdose de heroína, 33 prisões por causa de drogas e milhares de invasores que não pagaram pelo ingresso. Sair acabou sendo mais difícil do que entrar: o carro da The Band teve de ser arrastado pela lama por um guincho. Mesmo com os contratempos, todo mundo sentiu imediatamente que a história estava acontecendo ali. Por um momento, Woodstock foi a profecia de uma nova era, ainda mais cheia de festivais no rock. Ninguém imaginava que esse período iria terminar mais cedo do que o esperado.

Em teoria, o Altamont Speedway Free Festival era a sequência lógica para Woodstock. Organizado nos arredores de São Francisco, quatro meses depois, apresentava uma escalação de bandas espetacular: Rolling Stones, Grateful Dead, CSN&Y, Santana, The Flying Burrito Brothers e Jeff erson Airplane. Por sugestão do pessoal desta última, os Hells Angels foram contratados para fazer a segurança (“A culpa foi nossa, em parte”, Grace Slick reconhece) e a coisa logo ficou violenta. Marty Balin, companheiro de Grace no Jeff erson Airplane, perdeu a consciência por alguns momentos quando levou um soco depois de mandar um Hells Angel que estava ameaçando a plateia ir se foder; Chris Hillman, do Byrds, carregando o baixo, quase foi impedido de subir ao palco por outro Hells Angel. “Os Hells Angels iam abrindo caminho no meio do público como se fossem um bando de vikings”, conta Hillman. “Dava para ver que algo iria acontecer.”

Quando o helicóptero carregando o Jefferson Airplane levantou voo de Altamont Speedway, Paul Kantner voltou-se para Grace. “Ele disse: ‘Caramba, parece que alguém foi empurrado ou esfaqueado lá embaixo’”, ela recorda. “E ele tinha razão.” Um rapaz negro de 18 anos chamado Meredith Hunter tinha corrido na direção do palco segurando uma arma e foi derrubado e esfaqueado por pelo menos um Hells Angel. Mais tarde, Alan Passaro, acusado pelo assassinato, acabou absolvido alegando legítima defesa.

Apavoradas com a ideia de outro evento como esse, comunidades locais passaram a fazer todo o possível para acabar com os festivais, algumas vezes com sucesso. A cidade de Middlefield, no estado de Connecticut, resolveu, em cima da hora, que não queria abrigar o Powder Ridge Rock Festival, e quase todos os principais nomes do evento – Janis Joplin, The Allman Brothers Band e outros – nem apareceram. Michael Lang, por exemplo, só foi organizar outro festival em 1994, o Woodstock II.

Apesar de os festivais em larga escala estarem em baixa na época, a tendência não deteve dois promotores, Jim Koplik e Shelly Finkel, que planejaram um dia de shows na pista de corrida automobilística Watkins Glen Grand Prix, no norte do estado de Nova York, no verão de 1973. De acordo com Koplik, o festival deu lucro imediatamente ao vender todos os 200 mil ingressos, graças ao line-up com The Band, Grateful Dead e Allman Brothers. Uma sala no backstage recebeu o estoque do que Koplik descreve como “uma minimontanha” de cocaína: “As bandas ficaram sabendo da droga e invadiram a sala – os Allman principalmente, porque isso significava que eles teriam mais para si”.

Sem querer, Watkins Glen acabou se transformando em um festival de dois dias quando fãs apareceram um dia antes para assistir às passagens de som. Então, no dia certo dos shows, o impensável aconteceu: muito mais gente chegou, totalizando 600 mil pessoas. “Achamos que a pior coisa seria uma situação de baderna”, diz Koplik, “então decidimos deixar todo mundo entrar [de graça].” De repente, Glen ficou maior do que Woodstock, com quase 200 mil pessoas a mais.

Apesar dos banheiros lotadíssimos e outros problemas, foi uma surpresa os shows terem ocorrido sem grandes transtornos. O evento terminou com uma rara jam com os integrantes das três bandas. Mas, para Robbie Robertson – e muitos outros do ramo –, Watkins Glen foi o último suspiro. A apresentação da The Band foi interrompida temporariamente por uma chuva torrencial. “A gente olhava para toda aquela gente empapada de lama, e parecia o purgatório”, diz Robertson. Quando Koplik e Shelly tentaram organizar uma nova edição no ano seguinte, a cidade de Watkins Glen recusou.

Os festivais iriam, mais tarde, se transformar em tradição na Europa, mas quase uma década se passou antes que mais uma iniciativa de peso fosse tomada nos Estados Unidos: os US Festivals, financiados por Steve Wozniak em 1982 e 1983. Wozniak perdeu o total de US$ 24 milhões. Os festivais de rock só seriam retomados de verdade com o Coachella, em 1999, seguido pelo Bonnaroo, três anos depois, e o Lollapalooza, que foi criado em 1991, mas só foi

reconfigurado, após anos de hiato, em 2005.

O final da primeira era de festivais de rock, quase sempre gloriosos, aconteceu em Watkins Glen. Seis anos antes, na Fantasy Fair, dois paraquedistas desceram enquanto o The 5th Dimension cantava o sucesso pop “Up, Up and Away”. Em Watkins Glen, um paraquedista que não tinha ligação com a organização do festival saltou de um avião durante a apresentação da The Band e acendeu sinalizadores – que fizeram com que ele e as roupas dele pegassem

fogo no ar. O corpo do homem foi encontrado perto dos limites do terreno.

Os sobreviventes da primeira era dos festivais olham para trás, maravilhados e cheios de lamentos. “Quando a gente é jovem, pensa: ‘Isto é só o começo, vai ficar ainda mais maravilhoso’”, diz Grace Slick, ex-Jefferson Airplane. “Bom, nem tanto.”

O Começo do Fim

O sucesso do Woodstock ajudou na derrocada dos festivais

Apesar de Altamont geralmente ser culpado pelo fim dos festivais de rock, o sucesso da marca Woodstock – com um filme que arrecadou US$ 50 milhões nas bilheterias e um álbum triplo que virou best-seller – merece responsabilidade parcial. Em busca de um novo Woodstock, os promotores enlouqueceram com os festivais durante toda a década de 1970. Mas apesar de Woodstock ter dado sorte, mesmo com pessoas sem ingresso e com o tempo chuvoso, os sucessores do evento não foram tão afortunados. Em 1970, fãs irados invadiram o Atlanta Pop Festival, o New York Pop Festival e o Strawberry Fields Festival, nos arredores de Toronto, Canadá, causando prejuízo de US$ 1 milhão aos promotores, quando mais de 90 mil fãs exigiram entrar de graça no festival. No mesmo ano, o Isle of Wight, na Inglaterra, também foi maculado por invasores e fogueiras. Os festivais resistiriam por mais algum tempo, mas o fim dessa era chegou em 1973, com a realização do festival de Watkins Glen.