Devagar e Sempre

Memórias de Um Caramujo aposta em um olhar descompromissado para o passado.

Lucas Brêda Publicado em 02/09/2014, às 14h48 - Atualizado às 17h45

Crescendo
(A partir da esq. no sentido horário) André Vac, Beatriz Mentone, Thomaz Huszar, Gabriel Basile e Gabriel Milliet.
Gal Oppido

Não é que eu seja contra o que é moderno/Mas você já viu o que tem no mercado?/ É tudo fabricado.” Esses versos pincelados de um diálogo imaginário entre pai e filha na faixa “Nina” carregam um pouco dos sentimentos comuns aos cinco paulistanos que formam o Memórias de Um Caramujo.

Para Gabriel Milliet, que, além de cantar e compor,toca violão, flauta e saxofone, “muito do que é feito hoje em dia com a preocupação de ser atual acaba sendo passageiro”. “Estamos em um momento em que precisamos reafirmar o que vale como tradição, e não criar uma nova revolução a cada verão”, acredita o músico. É também desse descompromisso com uma contemporaneidade efêmera que vem o nome da banda – segundo os integrantes, por se mover vagarosamente, o caramujo “assimila muitas coisas”.

Além de Milliet, o grupo é formado por André Vac, Beatriz Mentone, Gabriel Basile e Thomas Huszar, e carrega nas costas uma vasta bagagem sonora – as referências vão de Clube da Esquina a Frank Zappa. “Como [o Caramujo] surgiu em uma época em que estávamos nos descobrindo como músicos, queríamos dialogar com tudo”, conta Milliet.

Lançado em maio, Cheio de Gente, o primeiro álbum de estúdio (sucessor da compilação Ao Vivo, de 2011), conta com participação de Tim Bernardes, d’O Terno, e Charles Tixier, do Charlie & os Marretas. Além da parceria no disco, as três bandas formam, junto a outros artistas, o selo Risco. O projeto, segundo Milliet, não se deu por causa de semelhanças estéticas entre os membros; “é um jeito de incentivar a circulação da música” que fazem, visando facilitar a prensagem de discos e a organização de festivais.

Mesmo soando denso, e um tanto experimental, o Memórias de um Caramujo arrecadou mais de R$ 10 mil via financiamento coletivo para a finalização de Cheio de Gente. “Nosso som não é exatamente popular, mas eu sinto que é comunicativo”, teoriza Milliet. “Estamos buscando nos conectar com a tradição, com as coisas que já foram feitas muito bem, em vez de tentar dar um passo ousado só para ser ousado.”