Precursor das Ruas

Sintetizando a ideia do skate como um estilo de vida,Thronn ultrapassou barreiras inimagináveis do esporte no Brasil

Carol Nogueira Publicado em 15/08/2014, às 16h14 - Atualizado em 11/08/2015, às 18h35

Despojado
Thronn em Venice Beach, na Califórnia, em foto recente.

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De roupas pretas e dreadlocks escondidos por uma touca, o brasileiro Antônio dos Passos Júnior circula pelas ruas do bairro de Brentwood, em Los Angeles, Califórnia, como se as dominasse. Conversa rapidamente com cada um com quem esbarra pelas calçadas; é cumprimentado até por quem passa de carro. Ao contrário do que poderia se esperar, essa fama toda não tem nada a ver com o trabalho que um dia o brasileiro realizou, mas sim com a simpatia que lhe é característica. Aliás, quase ninguém por ali sabe o que ele fazia quando morava no Brasil, país que deixou há dez anos. Thronn, nome “artístico” de Passos, é venerado por quem gosta de skate em diversos lugares do mundo, mas diz que, na cidade das estrelas, não costuma falar sobre o passado.

Apesar da modéstia, ele é um dos pioneiros do skate na América do Sul. Foi o primeiro vencedor do campeonato de street de Guaratinguetá, em 1987. “Acabei virando um ícone para a geração que veio depois, assim como o Sérgio Negão era um ícone do vertical naquela época”, admite, sem pretensão. A história épica da vitória de Thronn no campeonato é contada no documentário Vida sobre Rodas, lançado em 2010. O jeito descompromissado e um tanto irresponsável do skatista ajuda a entender por que ele se tornou uma figura emblemática além da capacidade de fazer manobras. O modo como ele saiu vitorioso de Guará é um exemplo disso. Com uma torção no pé, Thronn achou que estaria fora do campeonato, e por isso não pensou duas vezes antes de ingerir uma porção de cogumelos alucinógenos que encontrou na volta da pista para o hotel. Fora de si, esqueceu a dor, passou a noite andando de skate pela via Dutra e, depois de uma madrugada em claro, resolveu disputar o prêmio. Graças a um ollie flip, uma manobra até então desconhecida para os skatistas brasileiros, Thronn ficou em primeiro lugar.

Contato inicial do garoto morador da periferia da zona sul de São Paulo com o skate aconteceu aos 7 anos. O filho dos patrões da mãe dele, que trabalhava como empregada doméstica, não deu muita atenção a uma pequena e mambembe prancha de plástico que ganhou de presente, trazida pelos pais dos Estados Unidos. Se para o menino abastado aquele era só mais um brinquedo, para Thronn, aos poucos, se tornou uma obsessão. Até hoje, ele se lembra de quando ganhou o primeiro skate de verdade, presente da mãe depois de meses de insistência. “Pra mim era a coisa mais linda”, ele diz, aos 49 anos, mas com um sorriso quase infantil. “De madeira maciça. A rodinha era amarela transparente, dava pra ver o rolamento.”

Os amigos de Thronn não gostavam do esporte. Procurando gente com a mesma fixação pelo skate, ele passou a frequentar o Parque Ibirapuera, onde começava a se formar um grupo que diariamente testava manobras no lugar. Não foi tão fácil ser aceito. “Era um grupo muito fechado. Eles eram mais velhos e profissionais, não queriam que eu fizesse parte”, conta. Thronn não se importou. “Falei: ‘Eu quero andar de skate e essa é minha galera, vocês vão ter que conviver comigo aqui’.” Foram os Ibira Boys, como eram conhecidos na época, que deram a ele o apelido pelo qual é conhecido, graças a um adesivo do filme Tron – Uma Odisséia Eletrônica (1982) que tinha colado no skate. “Eu nem sabia o que era, mas ninguém no Ibirapuera conhecia o meu nome, então começaram a me chamar assim”, ele relembra.

Se hoje é quase corriqueiro ver pré-adolescentes em campeonatos mundiais, no começo da década de 1980 era pouco comum – até porque skate não era visto como esporte, mas como uma atividade de grupos marginais. Também por isso o começo de Thronn no skate profissional foi tardio: a primeira competição só veio em 1983, quando ele tinha 18 anos. Thronn forjou um estilo próprio quando não tinha a quem recorrer em termos de inspiração. Não havia internet para copiar manobras – naquela época, o skate, parte de uma subcultura e conhecido por uma minoria, era tão embrionário que elas mal existiam.

Uma parcela considerável dos skatistas daquele tempo acompanhava um determinado padrão, enquanto Thronn não tinha padrões – seguia o instinto, levava o skate a limites inexplorados, não imaginados. Coisa que hoje lhe rende o status de lenda viva. “A participação do Thronn foi fundamental para a evolução do skate do começo ao final dos anos 1980”, resume Fábio Bolota, skatista que começou no esporte alguns anos antes de Thronn. “Ele ajudou na evolução das manobras que estavam surgindo. Dominou como poucos os ollies e ollie flips, consideradas na época as novas manobras do skate mundial. Foi inspiração pra muita gente.” O DJ Zegon, integrante do N.A.S.A. e do Tropkillaz e apaixonado por skate, resume: “Thronn foi visionário mesmo sem saber que era”.

Os prêmios de cinco, seis e até sete dígitos que são entregues atualmente aos vencedores de campeonatos como Bowl- -a-Rama passam longe da realidade vivida por Thronn nos tempos em que ele competia. E, para quem vive de skate no Brasil, o cenário não mudou muito, garante. “Os caras que andam de skate no Brasil são uns coitados, eles não conseguem sair por amor ao esporte. E os empresários se aproveitam disso”, Thronn afirma. “Quando eu

andava, ganhava no máximo R$ 3 mil por mês contando salário, patrocínio e shape que eu ganhava e vendia. Dava pra viver bem. Só que aqui o skate é milionário. Os caras chegam a pagar US$ 1,6 milhão em uma premiação de street. No Brasil, se o cara ganhar R$ 1.200 como profissional é porque está detonando.”

O fato de o cenário ser completamente diferente nos Estados Unidos o influenciou a escolher a Califórnia, o “berço do skate”, quando decidiu sair do país onde nasceu. Ele já não competia profissionalmente havia mais de uma década na época em que chegou definitivamente a solo norte-americano, em 2004. Na realidade, já não andava como antes: em 2001, quebrou o colo do fêmur, na região da virilha, ao tentar fazer uma manobra, acidente que lhe rendeu três pinos e um caminhar levemente manco. “Não consigo mais fazer manobras. Dói muito”, diz, com ar de desolação. “Ainda ando um pouco, ensino outras pessoas, mas não consigo fazer muita coisa. É triste, porque andar de skate é a coisa de que eu mais gosto na vida.”

Como quase tudo na vida de Thronn, a ida para Los Angeles não foi planejada. Quando decidiu deixar o Brasil, o skatista tinha apenas o suficiente para comprar a passagem – chegou ao aeroporto da cidade com US$ 20 no bolso. “Pensei: ‘Deus, se eu entrar lá, o resto é comigo, não esquenta a cabeça’”, ele brinca, olhando para o céu claro de Brentwood com as mãos erguidas, os dedos entrelaçados.

O dinheiro para se manter em Los Angeles começou a entrar com bicos de entregador de pizza e manobrista. Chegou a dividir apartamento com amigos, mas acabou morando por um longo tempo na própria van. “Pagava uma academia só para tomar banho”, conta. Hoje, a vida está menos turbulenta. Em setembro do ano passado, ele se casou com Amy, uma norte-americana que tem quatro filhos de um relacionamento anterior, e espera em breve começar a vender de maneira oficial uma linha de skates própria. Prestes a completar 50 anos, Thronn diz que se sente mais jovem do que uma década atrás. “Eu rejuvenesci morando aqui”, diz. As ideias, no entanto, mudaram drasticamente. Filho da contracultura e desacreditado do “sistema” quando jovem, hoje Thronn quer fazer parte dele. “Eu era petista, passei um bom tempo crendo na revolução. Mas hoje em dia acho esse pensamento meio atrasado”, afirma, sem medo de soar conservador. “Acho que não temos que nos inspirar em Cuba. Temos que nos inspirar nos países que estão indo bem, como os Estados Unidos.” Até a trilha sonora passou por alterações: Sex Pistols e Dead Kennedys dividem espaço com guitarristas como John Petrucci e Blues Saraceno – e música clássica. “Se eu te falar que a coisa que mais ouço é música clássica, você não vai acreditar. Mas gosto de Tchaikovsky, Beethoven, Brahms, Bach. Esses compositores mais manjados.”

Ainda assim, ele mostra o primeiro shape que desenhou, décadas atrás, com diversos sinais de “proibido”. “Não à TV, não ao capitalismo, não à poluição, não à polícia de choque, não às drogas injetáveis, não aos pregos (‘Os caras que não sabem andar bem de skate’)”, traduz. “Até hoje, é o shape mais atual do Brasil.” Trabalhando agora como manobrista, Thronn garante que não trocaria o passado nos primórdios do skate brasileiro por uma carreira nos dias atuais. Esse espírito avesso à ganância, de poucas ambições, também contribuiu para que ele se tornasse um ídolo. “Se eu fosse skatista profissional hoje, não estaria rico, porque eu não gostava de competir. Fui o primeiro skatista profissional a carregar a bandeira do skate for fun, dizendo não às competições”, ele afirma. Para Thronn, a história vale mais que qualquer possibilidade financeira. “Somos o alicerce disso tudo que você está vendo hoje.”

Amigos do Passado

Apesar das brigas constantes com chorão, Thronn acompanhou o Charlie Brown Jr. na estrada

Thronn foi durante muitos anos amigo íntimo de Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., morto em março de 2013, em decorrência de uma overdose de cocaína. “Eu o conheci quando ele tinha 16 anos. O Chorão ia ao Ibirapuera para ver o pessoal andar”, relembra o skatista. “Ele nos admirava. Naquela época não tinha tanta gente que andava de skate.” Anos mais tarde, Thronn passaria a acompanhar turnês da banda como cinegrafista. Mas a convivência com Chorão não era fácil – foi uma briga com o cantor, inclusive, a gota d’água para que ele decidisse se mudar de vez para os Estados Unidos. “Ele é uma pessoa muito difícil, briga com todo mundo”, diz Thronn, usando

o verbo no presente, como se Chorão ainda estivesse vivo. “Um dia a gente discutiu e eu desisti de argumentar, resolvi ir embora [do Brasil]. Era meu aniversário. Ele me deu o cartão dele e falou que eu podia beber o que eu quisesse. Fiquei muito louco e comecei a tirar foto com um monte de gente. No dia seguinte, o Champignon viu que numa das fotos tinha um cara que o Chorão falava que era inimigo dele, mas eu nem sabia”, conta. O baixista, que cometeu suicídio seis meses após a morte de Chorão, mostrou a foto para o vocalista – a dupla que vivia em harmonia em meio aos Ibira Boys nunca mais se falou depois do episódio. Thronn conta que não se arrepende de ter largado a vida com a banda. “Os caras ficaram naquela e morreram. Que pena, né. Eu fiquei muito mal quando o Chorão morreu, chorei. E depois o Champignon fez aquela besteira...”, diz. “Uns tempos antes briguei com

o Champignon no Facebook. Ele ficou bravo porque eu falei que ele estava errado em montar A Banca logo depois que o Chorão morreu, que eles deveriam ter respeitado a memória do cara e esperado um pouco. Depois vieram me culpar pela morte dele, como se eu tivesse sido o único que o criticou na época. Falei pra ele: ‘Você está cheirando muito pó, sua mente está derretendo’.” Na época em que vivia na estrada com o Charlie Brown, Thronn

relata que viu a saúde lentamente decair. “Eu era muito gordo, usava muita droga, muito álcool, fazia muita balada. Toda esquina de São Paulo tem um bar, todo bar tem um amigo bebendo, e assim ia”, afirma. Quando chegou aos Estados Unidos, descobriu que estava com diabetes tipo 2. Desde então, perdeu 15 kg. “Não uso mais drogas, estou limpo há dez anos, e mal bebo. Só uma cervejinha de vez em quando.”