A inquebrável Katy Perry

Divórcio, lágrimas, joelhos doloridos e sonhos de um álbum acústico: por dentro da cabeça da fabricante de hits mais persistente do pop

Brian Hiatt | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 09/09/2014, às 15h01 - Atualizado às 17h23

Crescendo
Katy Perry se diverte, mas também quer ser levada a sério.
Peggy Sirota

Katy perry não sabe bem por que está chorando. Estava pegando velocidade na esteira de seu camarim imaculado, umidificado, enfeitado com flores frescas e tapete Chanel em uma arena em Newark, Nova Jersey, superando a dor nos joelhos maltratados pela coreografia, não pensando em nada em particular, e ali estavam elas: lágrimas, uma cachoeira delas. “Às vezes, a única forma de botar para fora é chorar”, diz (embora isso não seja muito frequente: “Achei que meus dutos lacrimais tivessem sido removidos há muito tempo”, acrescenta mais tarde). Algum tempo depois, Katy sai do banho e olha para um espelho rodeado por dez lâmpadas enquanto o maquiador, um jovem magro chamado Todd Delano, pinta camadas de carmim nos lábios dela.

A cantora está na 11ª data de sua turnê norte-americana, com cerca de 90 shows pela frente, um número que não gosta de ouvir. Ela é a estrela e mandachuva em praticamente todos os aspectos, do figurino às minúsculas mudanças nas harmonias dos vocais de apoio. “Cuido de muita coisa”, diz, observando o progresso da maquiagem em seu rosto em um espelho portátil da Hello Kitty. “Às vezes, fica monótono. Às vezes, fica avassalador. Muita gente quer algo de você, mas tudo bem! Isso se chama ‘troca’. Você tem um sonho, daí esse sonho se torna realidade, e o que vem junto com ele é que você dirige uma empresa. São as letras miúdas do sonho que você não sabia que estavam ali.”

“Todo dia de show, desde a hora que acordo, é só uma preparação para a noite”, conta a californiana. “É como se eu fosse uma vaca da raça Kobe. Faço acupuntura, massagem, trabalho sacrocranial, que conecta a energia pela sua coluna vertebral. Faço exercícios, alongamento. Nunca pulo essa parte.”

Katy perry é uma diva curvilínea, mas magra, com uma voz poderosa e adaptável – não artisticamente danificada como Gaga ou esquisitamente pós-moderna como Miley ou com um vivacidade estranha como Ariana Grande. Ela também é a fabricante de sucessos mais consistente dos últimos cinco anos. Seu penúltimo álbum, Teenage Dream (2010), rendeu um recorde de cinco singles no número 1 e houve mais dois, até agora, do disco mais recente dela,

Prism (2013).

Katy fará 30 anos em outubro e é famosa há seis. “Os abutres estão circulando”, afirma, rindo, embora não esteja brincando. O uso que ela fez de ícones asiáticos e de outras culturas vem sendo cada vez mais esmiuçada. O sucesso consistente que atingiu pode funcionar contra ela. “Sou uma cantora e compositora disfarçada de estrela pop”, garante, mas o domínio de Katy nas paradas (frequentemente, mas nem sempre, auxiliado por Dr. Luke e Max Martin) pode fazer com que ela se pareça mais com uma fábrica humana de hits. “Não acho que ela receba crédito suficiente pelo fato da carreira dela ter uma visão que é dela mesma”, afirma Bradford Cobb, um dos empresários. “Katy realmente elaborou os próprios discos.” A mordaz crítica cultural Camille Paglia a chamou de “uma líder de torcida ciborguemaníaca” e, sim, olhando de longe, ela pode dar a impressão de ser uma abelha-rainha, uma garota alfa. No entanto, passe alguns dias com Katy e tudo isso começa a parecer fácil demais. Para começar, é insano quão sã ela aparenta ser. Não há Neverland no futuro dela. “Não sou, tipo, uma louca que diz ‘vou morrer pelos meus fãs’”, afirma (talvez não seja uma coincidência total que esteja quase citando diretamente Lady Gaga, cujo sucesso ela eclipsou neste ciclo de álbuns). “Algumas pessoas são tão dramáticas com relação a isso que te fazem pensar: ‘Sinceramente, você não é Jesus reencarnado, é só um artista’.” A cantora visita regularmente um terapeuta, e não é só para lidar com as consequências do divórcio de Russell Brand, em 2012. “É um lugar seguro para eu trabalhar tudo que acontece dentro de mim com uma pessoa que me conhece apenas como Katheryn Hudson”, diz.

Logo, Delano acaba a maquiagem e ela se parece com Katy Perry, com cílios postiços grossos e o que ele chama de “uma boca que se afirma”. Agora há camadas entre a pele dela e o mundo. Katy dizia que não gostava de se ver sem maquiagem, o que levanta a questão: com a base, o pó facial e o blush, sente-se mais como si mesma? Ela dá de ombros. “É só uma versão exagerada de mim”, diz, com uma paciência elaborada. “Ainda sou eu. Só estou usando maquiagem! É tudo para apresentação, na verdade.”

Alguns dias antes, 15 km adiante, do outro lado do rio Hudson, ela está nos bastidores do Madison Square Garden se preparando para o segundo show no local. Na parede fora do camarim há fotos emolduradas de lendas que se apresentaram no Garden: Bruce Springsteen, David Bowie, Beyoncé e, perto da porta, a própria Katy. Na saída, ela beija a foto de Beyoncé e faz uma reverência como quem diz “não sou merecedora”.

Nas sombras profundas atrás do palco, iluminado apenas por um brilho neon das roupas de gladiador no estilo Tron dos dançarinos de apoio, a cantora forma um círculo de oração, pedindo para Cobb comandar as bênçãos da noite. “Reze alto e reze por nossa proteção”, diz Katy, que precisa disso – afinal, ela voa sobre a plateia e se equilibra sobre plataformas precárias durante a performance. O show corre bem – ela não cai. Naquele dia, Katy comemora voltando ao hotel. Ela tinge o cabelo de verde para uma sessão de fotos e depois vai dormir. Acorda por volta das 12h, como sempre, e faz 20 minutos de meditação transcendental. “Foi meu ex-marido que me apresentou isso”, conta ela, que dá a chance a toda a equipe da turnê de aprender a prática com seu professor. “Na verdade, foi a melhor coisa que tirei de toda aquela situação.” Pausa. “Ou uma das melhores. Salvou minha vida. Quando eu faço, sinto que estou

abrindo buracos no meu cérebro, tipo... como é que chamam isso? Rotas neurais.”

Chega a noite no hotel SoHo Grand. O filhote de vira-lata Butters, de 5 meses, doce e da cor exata do Chewbacca de brinquedo que carrega, está zanzando pelo chão de madeira. Ele tem um crachá de bastidores em miniatura preso à coleira. “Podemos ver o sol se pôr juntos”, diz Katy, com uma voz falsa de gatinha, indo para o terraço da suíte, que tem uma vista panorâmica de Nova York. Ela se senta em uma das poltronas macias e brancas do terraço, abre uma lata de chá verde e olha para a cidade. “Nunca fiz faculdade”, fala, dando um gole. “Nem o ensino médio. Voltaria se fosse uma opção. Só fiz o primeiro semestre do primeiro ano.” Aos 14 ou 15 anos, Katy começou a correr atrás de uma carreira na música. “Descobri tudo isso aos 9 anos e fui muito persistente”, conta. “Torturei meus pais todo dia.” Ela sorri, fazendo um gesto para o horizonte. “Até agora, parece

que vai dar certo. Todo esse sonho.”

O que não quer dizer que ela esteja satisfeita. “Estou em um nível, mas estou tentando passar para outro nível”, afirma. “Acho que seria um nível seguro. Em que as pessoas diriam: ‘Posso confiar que essa pessoa está lançando música interessante’. Só quero ficar por aí, sabe? Quero ter uma carreira. Abri uma gravadora, o que meio que faz uma transição para eu ser chefe e CEO e ter uma empresa. Merda de adulto mesmo” (ela se corrige: “coisa”). “Chega de botar a pontinha do dedo no lago do pop. É hora de mergulhar!”

Também há outro sonho, uma espécie de plano B que parece mais importante para ela. Katy começou a carreira como uma cantora/compositora (cristã, inicialmente) que tocava violão e, algum dia, quer voltar a isso. “Isso sempre

está pronto para aparecer”, revela. “Sempre está no radar. Se não quiser mais ficar dançando, sei que um dia farei um álbum acústico. Nem sempre vou caber no figurino, mas sempre vou conseguir segurar o violão.” Esse plano é bastante mencionado. Com gelo nos joelhos depois do show de Newark, ela proclama que seu próximo disco vai “ser acústico”, mas a verdade é que isso pode demorar um pouco. “Sabe, ela me disse que faria um álbum acústico antes de Prism”, conta Cobb, “só que quando não houver mais desafios, o disco acústico será o desafio”.

Recentemente, Katy passou um tempo com Madonna, que também ainda não gravou um álbum acústico. “Você tem de realmente provar que é uma pessoa autêntica, e de confiança, para estar no círculo de amigos dela”, conta. “O que entendo totalmente. Você tem mesmo de proteger seu coração quando está nesse tipo de nível. Não dá para ter gente estranha que quer sugar seu sangue à sua volta. Porque todo mundo quer puxar seu saco. Você tem de ficar perguntando: ‘Quais são seus motivos? Por que está aqui? O que quer de mim?’”

Em Newark, Katy está terminando um enpiorcontro com fãs quando aparece um menino doce e magrinho. “Você tem 7 anos e é fã da Katy Perry?”, ela pergunta, se agachando. Ela autografa um pôster para ele. “Há quanto tempo quer fazer isso? Muito tempo?

“Mais do que isso!”, ele responde. O garoto está ali com a família e percebo que seu pai está usando um broche da Fundação Make- -A-Wish, que concede a realização de um desejo a crianças com doenças graves. “Ele conhece todas as suas músicas”, conta o pai a Katy.

Enquanto a cantora chama a família do menino para tirar fotos, olha para um de seus empresários, o normalmente estoico Ngoc Hoang, que está segurando as lágrimas. Ela sorri para o garoto. “Já volto!”, diz, com uma voz animada e forçada, e corre para sair da sala antes que ele possa vê-la chorar. No camarim, recebe informações sobre o fã – ele pode precisar de um transplante de coração, mas está estável. “Não sei bem em que condição estão”, diz, fungando, “então sempre penso no enpior. É cruel conhecer uma criança do Make-A-Wish antes de um show, toda maquiada!” Ela desaba na cadeira – Delano precisa refazer os olhos.

O gosto de katy para homens, a cantora reconhece, pode ser problemático. Conta que ela e John Mayer eram muito parecidos – “Conversávamos bastante” –, mas para antes de explicar o que deu errado. “Algumas pessoas são, sabe... algumas pessoas realmente...”. Se interrompe. “Não vou falar sobre isso.”

Passamos para a questão da suposta insensibilidade cultural dela. Katy tem sido criticada por ter múmias com bumbum grande dançando na turnê (um crítico as chamou de “caricaturas hipersexualizadas do corpo de mulheres negras”); vestir-se de gueixa no American Music Awards e de comediante judia no clipe de “Birthday”; e por incluir uma cena rápida no clipe de “Dark Horse” em que um rapaz usando um pingente escrito “Alá” se desintegra (ela alterou essa).

“Quanto ao negócio da múmia, eu me baseei em cirurgias plásticas. Veja alguém como Kim Kardashian ou Coco, a mulher do Ice T. Elas não são afro- -americanas. Na verdade, é uma representação de nossa cultura querendo ser plástica, é por isso que há bandagens e são múmias.” Ela não se desculpa e mantém as dançarinas no show.

“As pessoas gostam de criar personagens”, divaga. “Há vilões e heróis e garotas burras ou inteligentes, ou espertas, modernas – e elas criam esses personagens como na novela. Adoro isso. Ainda não sei qual é meu personagem. Também tenho essa pessoa independente dentro de mim – sei que não sou a estrela-pop-tonta e não sou a garota cool- -hipster. Estou em algum lugar bem no meio.” Então, a história de Katy só está começando? Ela fica anormalmente solene, ponderando. “Cabe a Deus”, afirma, “e se vou conseguir continuar verdadeira a mim mesma”.

Carreira Em Evolução

A jornada de Katy Perry em cinco músicas, de cantora e compositora cristã a peso pesado do pop

TRUST IN ME | 2001

O álbum cristão da adolescente Katy Hudson era repleto de rock alternativo ao estilo do Cranberries, com vocais estridentes e citações sutis sobre Jesus.

I KISSED A GIRL | 2008

Katy nunca se preocupou se seu primeiro sucesso seria o único. “Sabia que me levaria para onde eu queria estar, mas sabia que não estava lançando a única coisa que tinha. Havia um plano.”

CALIFORNIA GURLS | 2010

A Era Katy Perry das rádios pop começou pra valer com a primeira das cinco faixas de Teenage Dream a chegar ao número um (só Bad, de Michael Jackson, levou tantos sucessos ao topo).

FIREWORK | 2010

Para o primeiro hino legítimo, Katy procurou colaboradores de Beyoncé. “Ela sabia que precisava de alguém com um som diferente”, diz o empresário Bradford Cobb.

DARKHORSE | 2013

Após o sucesso de “E.T.”, com influências de hip-hop (e Kanye West no remix), Katy cantou sobre uma batida cheia de sintetizadores e conseguiu fazer uma de suas maiores músicas.