Pulse

O adeus do Motley Crue

Os bastidores da última turnê da banda mais insana do glam rock

Andy Greene | Tradução: J.M. Trevisan Publicado em 09/09/2014, às 15h27 - Atualizado em 16/01/2015, às 13h32

Depois do fim
O baixista Nikki Sixx planeja se dedicar à banda solo quando o Crüe acabar.
Paul Brown/Keystone Brasil

Faltam quatro horas para que o Mötley Crüe suba ao palco do Pepsi Center, em Denver, e Nikki Sixx está sentado no ônibus da banda, folheando um livro sobre as Olimpíadas de 1936 e contando vantagem sobre sua habilidade no jogo de cartas Uno. “Ontem à noite joguei com a minha esposa e minha filha até 1h da manhã”, diz o baixista, de 55 anos. “Destruo qualquer um no Uno.”

Essa declaração vem de um homem que certa vez foi declarado morto depois de uma overdose de heroína, antes de ser reanimado por uma injeção de adrenalina e compor uma música sobre a experiência (“Kickstart My Heart”). “Quando você é jovem, bebe a noite inteira, trepa com milhares de mulheres e cheira o quanto quiser”, diz Sixx. “Estou sóbrio agora. Desejo conquistar mais coisas.” O Mötley Crüe está no meio da última turnê da banda, uma sequência de datas que se encerrará em algum momento do ano que vem. Depois de se separar nos anos 1990, a formação original do Crüe voltou a se reunir em 2005 para uma série de apresentações grandiosas, desafiando aqueles que os tachavam de dinossauros esquecidos da era do metal farofa. Mas há alguns anos Sixx decidiu que era hora de pensar em um plano final. “Ninguém quer sair de cena mancando e estropiado rumo ao pôr do sol”, diz ele. “Queremos ir embora cavalgando e atirando para o alto.

” Quando o plano tomou a forma de uma turnê de despedida, promotores de shows ficaram imaginando se não se tratava apenas de uma estratégia caça-níqueis – afinal, bandas como The Who e Kiss já se despediram e voltaram para a estrada mais tarde. Para acabar com qualquer dúvida, o Mötley Crüe convocou advogados que elaboraram um contrato em que o grupo se compromete a não excursionar mais, assinado em janeiro durante uma entrevista coletiva de imprensa. “A única brecha existente é se os quatro membros concordarem em quebrar o contrato”, diz Sixx. “E não há dinheiro no mundo que me faça voltar às turnês. Tomaríamos uma chuva de ovos se fizéssemos isso.”

O show da banda é extravagante até para os padrões do Crüe: chamas são disparadas do baixo de Sixx durante “Shout at the Devil”, duas garotas seminuas serpenteiam no palco e, em um dos feitos mais extremos e audaciosos da história dos grandes shows de rock, a bateria de Tommy Lee é levantada até o teto e passeia por meio de um trilho pelo estádio inteiro, girando enquanto ele sola. Chamado Crüecifly, o aparato é um sonho antigo de Lee. “Tem sido um pouco assustador”, diz o baterista, de 51 anos. “O ponto mais alto é a 17 metros do chão. Acho que cago nas calças toda vez que aquela coisa me coloca de cabeça para baixo.”

O Mötley Crüe dominou a cena glam-metal de Los Angeles durante toda a década de 1980, inspirando uma legião de imitadores. Mas o vocalista Vince Neil deixou a banda em 1992, depois de uma série de tensões dentro do grupo (ele foi demitido ou se demitiu, dependendo de quem conta o caso). O Crüe seguiu aos trancos e barrancos com o cantor John Corabi antes de se reunir com Neil no fim de 1996, mas as relações entre eles continuavam frias. Hoje, o quarteto viaja em ônibus separados e passa pouco tempo junto fora dos palcos. “É como ter uma namorada que às vezes você não suporta”, diz Sixx. “Mas ela é a melhor trepada da sua vida e por isso você vive voltando para ela, mesmo que ela te deixe completamente maluco.”

O crüe é uma das últimas bandas clássicas ainda excursionando com a formação original, embora os integrantes estejam lutando contra várias enfermidades. Sixx tem hérnia dupla e um menisco rompido; Mick Mars sofre de uma devastadora doença na coluna há 40 anos, chamada espondilite anquilosante. “Alguns dias são um pouco piores”, diz o guitarrista, de 63 anos. “Mas não tomo analgésicos há 15 anos. Já fui por esse caminho uma vez e não quero voltar mais.” Quando a turnê de despedida acabar, Mars planeja escrever uma autobiografia e gravar um álbum solo, possivelmente com Corabi. Lee diz que seus planos são ultrassecretos (“Vocês não vão mais ouvir falar de mim depois disso”), e Sixx vai se dedicar à outra banda dele, Sixx A.M. Neil, de 53 anos, é

coproprietário do time de futebol americano Jacksonville Sharks e planeja continuar a carreira solo.

Ele está aberto à ideia de um álbum country. “A country music não é o que era há 30 anos”, diz ele (o gênero já teve seu envolvimento com o Mötley Crüe – acabou de ser lançado um álbum inteiramente country em homenagem à banda, com participação de Florida Georgia Line, entre outros).

A única ocasião capaz de fazer com que o Mötley Crüe quebre o trato firmado é se a banda for admitida no Hall da Fama do Rock and Roll e convidada para tocar na cerimônia. “Se esse dia vier, digo com toda certeza que tocaremos”, diz Neil. Mas pode demorar: o Crüe está qualificado desde 2006, mas nunca sequer foi indicado para a votação. Neil diz que não está surpreso. “Somos, abre aspas, ‘uma banda oitentista’”, declara. “Todo mundo quer se livrar dos anos 1980. Todos querem pular dos 1970 para os 1990 de uma vez.”

O grupo não anunciou nenhuma data depois de novembro, embora eles afirmem que passarão pela Europa no ano que vem para então voltar aos Estados Unidos e tocar nos lugares que faltaram na primeira passagem. Os planos exatos para o último show ainda não estão claros, mas todo mundo quer que seja em Los Angeles. “Depois de recebermos os aplausos da plateia pela última vez, vou dirigir para casa sozinho, com o rádio desligado”, afirma Sixx. “Vou abrir a porta de casa e pensar: ‘Para onde foram todos aqueles anos?’ Então, vou fechar a porta e esperar pelo próximo capítulo.”