O Trabalho Compensa

Conselho aos veteranos: melhor continuar produzindo que viver da fama do passado

Miguel Sokol Publicado em 16/09/2014, às 12h29 - Atualizado às 14h34

Conselho aos veteranos: melhor continuar produzindo que viver da fama do passado.
Ilustração: Gabriel Góes

Neste duomilésimo décimo quarto abençoado mês do cachorro louco de nosso senhor, o sexagenário Tom Petty chegou ao topo das paradas norte-americanas pela primeira vez na carreira com o disco Hypnotic Eye.

Tom Petty é um dos parceiros mais emblemáticos de Dave Grohl.

Inacreditável é que ele chegou lá sem publicar selfies seminu nas redes sociais, sem pegar elevador com Jay Z, sem ceder músicas para comercial de telefone, sem fazer ponta em um blockbuster nos cinemas, sem fingir a própria aposentadoria, sem integrar o corpo de jurados de um desses reality shows que tratam música como corrida de cavalos, sem sequer falar mal desses reality shows ou falar bem da Miley Cyrus ou vice-versa. Tom Petty fez apenas o que vem fazendo nestes últimos quase 40 anos de carreira: shows e discos.

Bob Dylan através das décadas - 17 capas da Rolling Stone EUA estampadas pelo músico.

Algo semelhante já tinha acontecido com Bob Dylan, que, depois de chegar ao primeiro lugar do top 10 em 1976 com o disco Desire, só foi repetir o feito 30 anos depois com Modern Times.

Coincidência? Como o doutor Gregory House da ficção, eu não acredito nela, prefiro sintomas e diagnósticos. E o fato é que Bob Dylan, Tom Petty e mais uma penca de artistas internacionais consagrados se mantêm ativos e, mais importante, desafiando a si mesmos. Taí o Paul McCartney compondo música para videogame a essa altura do campeonato. Taí o Leonard Cohen lançando disco novo simultaneamente ao seu aniversário de 80 anos!

Galeria: as 12 músicas mais “esquisitas” de Paul McCartney.

É evidente que há gringos improdutivos ou picaretas ou os dois, mas esses não têm muito espaço por lá. É no Brasil que Marky Ramone fatura com a frágil e acomodada condição de ex-segundo baterista dos Ramones. Também é aqui que o Guns N’ Roses desembarca a cada seis meses sem material inédito na mala há seis anos. Sempre aqui. Coincidência? Duvido.

Talvez o Brasil seja mais complacente, pois, infelizmente, nós estamos acostumados a ver a acomodação precoce de grandes artistas. Você se lembra de quando é o último disco do Jorge Ben Jor? Eu também não. E dos Racionais MC’s? Gostam de dizer por aí que Lulu Santos é o maior hitmaker do país, mas qual foi a última vez que ele emplacou um hit mesmo?

Todo sintoma tem um diagnóstico e o dos nossos músicos consagrados é a síndrome de Kim Kardashian, um mal que infla o ego do artista levando ao acomodamento e consequentemente à produtividade duvidosa ou, em casos mais graves, à improdutividade total, fazendo com que o ídolo passe a viver apenas da própria fama.

A boa notícia é que os Titãs, mesmo sendo a metade do que costumavam ser (ou talvez justamente por isso, aliás), lançaram recentemente Nheengatu, um disco inspirado, pertinente, inteligente e destemido, provando que, sim, a triste síndrome tem cura. Basta um comprimido de vontade e outro de trabalho, três vezes ao dia, já que talento nós sabemos que eles todos têm.