Senhor dos HOLOFOTES

Como MARIO TESTINO deixou para trás as intenções de se tornar padre e passou a fazer alguns dos mais ousados retratos da moda.

Luísa Jubilut Publicado em 10/09/2014, às 16h58 - Atualizado às 17h06

Já haviam se passado 16 anos desde a última exibicão do trabalho de Mario Testino no Brasil, mas no último mês de agosto o jejum foi quebrado: 122 imagens selecionadas pelo fotógrafo chegaram a São Paulo para a exposição In Your Face, que ficará no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB-Faap) até 12 de outubro. As fotografias selecionadas tratam de comprovar algo que já é bastante difundido – Testino é capaz de retratar o que quiser, da comportada família real britânica a corpos nus emergindo do mar de Copacabana. “Quando olho para fotos que tirei, elas vêm a mim com memórias: os editores com quem trabalhei, a locação, o modelo e como me sentia”, afirma Testino.

“Mas, na hora de fazer uma seleção, preciso tentar vê-las apenas como imagens e me perguntar quais delas são as escolhas certas.”

Nascido em Lima (Peru), filho de um empresário italiano, Testino deu muitas voltas antes de voltar a atenção à fotografia. Na infância, fez planos de ser seminarista e tornar- se padre. A aspiração religiosa se dissolveu ao longo dos anos, mas a espiritualidade perdurou e se tornou uma forte influência no trabalho dele. “Fiz uma série intitulada Discípulos na qual fotografei vários membros do clero e a composição de uma igreja. Cheguei a clicar o então cardeal [Joseph] Ratzinger, que se tornaria nosso papa.” Testino ainda cursou economia, direito e relações internacionais antes de se mudar para Londres, onde realmente “tudo aconteceu”.

Ao chegar lá, em 1977, ele se livrou das amarras conservadoras e sentiu que podia se expressar como desejava. O jovem de 22 anos pintou os cabelos de rosa e foi morar em um hospital abandonado perto do Trafalgar Square. Apesar do estilo de vida nada convencional, ele se identificou com uma estética tradicional e passou a vender portfólios por 25 libras a aspirantes a modelo. Aos poucos, foi se infiltrando na moda. “Trabalho constantemente desde o começo dos anos 1980 e sinto que nunca cheguei a pensar: ‘Consegui, estou no topo’”, ele pondera. “Lembro-me da primeira imagem que publiquei na Vogue. A foto não era lá grande coisa, era do tamanho de um selo. Mas foi enorme para mim.”

Testino ganhou notoriedade para além dos meios da moda em 1997, ao ser recrutado para clicar a princesa Diana para a Vanity Fair. “Foi uma grande oportunidade, mas também extremamente triste, porque logo depois ela morreu tragicamente. Foi o último ensaio oficial, então, de certa forma, as pessoas se lembram dela a partir dessas fotos.”

A ocasião deu início a um relacionamento estável entre Testino e a realeza britânica. Mas não é só dessa aura clássica que a obra do fotógrafo é formada: o peruano explora a sexualidade humana com habilidade. Seja com a modelo Claudia Schiffer mascarada na capa da Vogue alemã, seja com os brasileiros Cauã Reymond e Grazi Massafera tomando sol nus nas páginas do livro MaRio de Janeiro Testino, uma ode à capital fluminense, o fotógrafo sempre abordou o tema. No que diz respeito ao Rio, Testino credita tudo à sensualidade da cidade. A primeira visita dele aconteceu quando ainda era adolescente. “Achei as pessoas tão livres, e eu vinha de um ambiente bem conservador”, relembra. “O contraste teve um grande impacto em mim. Tento equilibrar esse contraste e contradição no meu trabalho.”