O maior lançamento de todos os tempos

Os bastidores do parto longo e doloroso – e da propagação impressionante – de Songs of Innocence

Andy Greene | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 13/10/2014, às 15h33 - Atualizado em 24/10/2014, às 15h55

Para algumas pessoas, foi a mais grandiosa estreia de um álbum em todos os tempos: no começo de setembro, o novo disco do U2, Songs of Innocence, apareceu de repente nas bibliotecas de 500 milhões de usuários do iTunes. “Uau”, disse Bono no palco, durante a entrevista coletiva de imprensa da Apple na qual a novidade foi anunciada. “Isto é satisfação imediata. Aconteceu mesmo?”

O lançamento do disco pode ter sido quase instantâneo, mas o processo de gravação foi o mais longo do U2 – durante cinco anos, a banda gravou cerca de 100 músicas. Para aumentar a pressão, os integrantes estavam saindo do álbum No Line on the Horizon (2009), que gerou a turnê mais bem- -sucedida de todos os tempos, mas teve mau desempenho comercial pelos padrões do quarteto. “Pensei comigo mesmo: ‘Por que alguém precisaria de um novo disco do U2? Há muitos deles disponíveis’”, afirma Bono. “Depois, quis fazer uma pergunta mais difícil: ‘Por que desejaríamos fazer um novo disco?’”

A banda começou a trabalhar com o produtor Brian Burton, mais conhecido como Danger Mouse, e quase concluiu um álbum inteiro antes de começar tudo de novo. “Os experimentos daquela época foram desavergonhadamente livres e isentos de qualquer julgamento crítico”, conta The Edge. “À medida que as músicas foram ganhando foco, dava para ver que algumas qualidades características do nosso trabalho não estavam representadas.”

Um dos principais conselheiros dos integrantes nesse momento foi Jimmy Iovine, ex-chefe da Interscope Records. “Quando eles tocaram as músicas para mim da primeira vez, não ouvi faixas que incluiriam pessoas que não são fãs do U2”, ele diz. “Ouvi letras e ideias que poderiam [atingir a quem não é fã], mas não canções.”

Iovine aconselhou o grupo a cavar mais fundo. “Fui direto com eles. Falei: ‘Para fazer o álbum que querem, vocês têm de ir a um lugar onde não vivem agora. E isso machuca. É escuro e doloroso, mas é preciso ir até lá. Conseguem se colocar de volta onde estavam aos 25 ou 35 anos e o mundo vinha na direção de vocês a 150 km por hora e vocês não davam a mínima?’”

Para chegar a esse ponto, Bono começou a compor canções sobre sua adolescência difícil em Dublin e as bandas que mudaram a vida dele, mais notavelmente The Clash e Ramones. “Voltei e comecei a ouvir tudo aquilo que nos fez começar uma banda de rock”, afirma o vocalista. “Isso nos deu um motivo para existir novamente.”

O resultado é o conjunto mais pessoal de canções que o U2 já lançou. “Iris (Hold Me Close)” é um tributo comovente à falecida mãe de Bono. “Ela caiu no funeral do próprio pai e nunca mais falei com ela”, ele relembra. “Depois da tristeza, vem a raiva, e canalizei isso para a música.” “Song for Someone” é sobre se apaixonar pela esposa, Ali, que o cantor e compositor conheceu quando tinha apenas 13 anos, e “Cedarwood Road” é uma lembrança da rua em que viveu durante a infância. “O disco inteiro é sobre primeiras jornadas”, diz Bono. “Geograficamente, espiritualmente, sexualmente. E isso é difícil, mas fui até lá. Fomos até lá.”

O vocalista conta que Danger Mouse ajudou a banda a manter a simplicidade das coisas. “Ele tem uma elegância natural e não se impressiona com fogos de artifício emocionais”, afirma, acrescentando mais tarde: “Queríamos que o álbum tivesse músicas que se mantivessem bem quando tocadas ao violão ou piano, não dependendo das atmosferas de Edge, Adam e Larry ou da dinâmica de como tocar”. O colaborador de longa data Flood, que trabalha com a banda desde The Joshua Tree (1987), estava à mão para “jogar um ácido na água nos momentos certos”, segundo o cantor e compositor. No último ano, enquanto Danger Mouse dava a atenção para o duo dele, o Broken Bells, o U2 trouxe o guru do OneRepublic, Ryan Tedder, e o produtor de Adele, Paul Epworth. “Eles estavam igualmente viciados na noção antiga de ‘composição’”, revela Bono. “São necessárias muitas pessoas para fazer um disco do U2. Sempre precisamos de todas as mãos à obra.”

Com o final das gravações em vista, a banda se voltou para uma questão quase tão séria quanto: como gerar um grande impacto cultural no nível do U2 em um momento no qual as vendas de discos estão em baixa recorde e as rádios rock estão diminuindo. “Queríamos alcançar o máximo de gente possível”, relata o empresário do U2, Guy Oseary. “Fizemos várias reuniões para ter ideias. A Apple tem centenas de milhões de contas do iTunes – dar o álbum de graça simplesmente fez sentido.”

Há relatos de que a Apple aceitou pagar US$ 100 milhões ou mais em marketing, o que uma fonte próxima à banda acredita ser incorreto. “Não tenho ideia de onde tiraram esse número. Acho que está errado”, afirma. A quantia que a empresa pagou diretamente ao grupo continua sendo um segredo ainda maior (“Houve um pagamento feito à gravadora pela Apple” é tudo o que Oseary diz).

Talvez previsivelmente, considerando que o álbum saiu para meio bilhão de pessoas, a reação a Songs of Innocence tem sido bastante variada – de encantamento e curiosidade (“Nunca fui exatamente um grande fã, mas esse Songs of Innocence é bem massa”, escreveu um usuário do Twitter) ao espanto (“Ou alguém invadiu o meu iTunes ou estou comprando discos do U2 enquanto durmo”, postou outro) e até raiva. Depois do lançamento, a Apple recebeu tantas reclamações que disponibilizou uma ferramenta de software que permitia aos usuários apagar o álbum de suas contas no iCloud. Só que a equipe da banda aponta para o fato de que 17 dos discos do U2 apareceram no top 100 do iTunes nos dias seguintes ao lançamento digital. “Não há muito rock atualmente”, afirma Iovine. “Então, o que eles estavam tentando fazer é desafiar a gravidade, e você deve usar qualquer ferramenta que puder para fazer isso.”

O iTunes vai parar de dar ...Innocence em 14 de outubro, quando a edição física chegar às lojas com faixas bônus e versões acústicas das músicas (que, segundo Bono, são para “tentar provar o argumento” dele sobre a composição se sustentar sem grandes recursos sonoros). Também há um sucessor, chamado Songs of Experience, em andamento; Bono diz que já existem quase dez faixas separadas para ele. “Bem no começo, ficou óbvio que estávamos trabalhando em dois álbuns diferentes”, conta The Edge. “A maioria das músicas inacabadas são dignas de fazer parte de Songs of Experience e algumas já são tão boas quanto ou melhores do que qualquer coisa em Songs of Innocence. Será lançado quando ficar pronto.”

Planos específicos para uma turnê não foram feitos, mas a banda deve pegar a estrada no ano que vem. “A turnê ainda está na fase de planejamento”, desconversa The Edge. “É cedo demais para descrever como será. Acho que começaremos pequeno. Com certeza não dá para ser maior do que a última turnê.”

Enquanto isso, ninguém da banda pede desculpas por mirar longe no lançamento de ...Innocence. “A esta altura, 7% do planeta tem o álbum”, lembra Oseary. “Pode ser grande demais, mas gostamos de pensar grande.” Bono, quando questionado sobre a reação ao disco, responde de forma ainda mais simples: “Se não o quiser, apague”.

João Barone, Paralamas do Sucesso

Estou realmente impressionado com a repercussão. A gente vê uma banda superpopular sendo projetada de uma maneira extremada, com uma ação como essa de conseguir distribuir um disco gratuitamente – e até forçadamente – para quem gosta e não gosta de U2. Tem muita gente olhando para esse fato sob vários prismas, mas acho que é positivo no final, apesar de ser uma coisa meio controversa. A música tem um aspecto de que quase nunca é lembrada como uma forma de arte. A música pop, principalmente, vive em uma linha tênue entre o comercial e o cultural. E ela sofre um pouco com isso, como forma de arte. O Bono já disse que era contra “música de graça” e declarou que “música é um sacramento”. É a velha questão do “quanto vale?” É a modelo que diz que nunca vai posar nua, mas quando o contracheque vem... ela acaba topando. Acho que a gente vive essa realidade de uma forma muito intensa. A gente vê como a música está se tornando um commodity. Os Rolling Stones viraram uma firma, o próprio U2, Paul McCartney, Beatles. Todo mundo aí está querendo se reinventar e manter o mercado da bolsa de valores funcionando.