A marca do marujo

Figura iconoclasta e de talento ímpar, o norteamericano Norman Collins, mais conhecido como SAILOR JERRY, fez da tatuagem um estilo de vida

Paulo Cavalcanti Publicado em 21/11/2014, às 15h42 - Atualizado às 15h51

Norman Keith Collins tinha um espírito livre. Um homem de muitas facetas, ele parecia ter saído das páginas de um livro de Ernest Hemingway. Era uma figura que só poderia ter existido

na primeira metade do século 20, quando aventureiros, exploradores e sujeitos maiores do que a vida – como ele – entraram no imaginário da cultura universal. Ao adotar o codinome de Sailor Jerry e adentrar o mundo da tatuagem, ele virou ícone e referência.

Nascido no dia 14 de janeiro de 1911 em Reno, Nevada, ele foi ainda criança morar em Ukiah, pequena cidade no norte da Califórnia. Um tio o apelidou de Jerry e o nome pegou. Quando adolescente, decidiu experimentar a vida na estrada. Pegando carona em trens de carga, foi parar em lugares distantes. No Alasca, conheceu Big Mike, que o ensinou a rudimentar arte da tatuagem aplicada à mão. Em outra viagem, desta vez para Chicago, aperfeiçoou a técnica com o pioneiro Gib “Tatts” Thomas, com quem aprendeu a usar uma máquina de tatuagem.

A grande virada para Jerry aconteceu quando ele entrou para a Marinha norte-americana. As viagens que fez pelo Oceano Pacífico na década de 1930 mostraram a ele a cultura e a arte dos

países do Oriente. Jerry acabou se fixando no Havaí antes de a Segunda Guerra estourar. Nas Ilhas, ele forjou a identidade do artista e marujo durão que o acompanhou até os últimos dias. Ao lado de um chinês chamado Tom, abriu a Tom & Jerry Tattoo Shop, e o sucesso foi imediato.

Se até hoje existe o estereótipo de que marinheiro adora tatuagem, Sailor Jerry foi um dos principais responsáveis por essa imagem. Marinheiros e trabalhadores do cais já cravavam desenhos na pele desde o século 19, mas Jerry foi o autor da identidade visual definitiva dos “ratos do mar”. Na época da Segunda Guerra, o Havaí era uma das principais bases dos Estados Unidos e existiam marujos aos milhares por lá. As ruas de Honolulu estavam tensas e superlotadas. Longe de casa e com um espírito de “posso morrer amanhã”, eles queriam uma

recordação daqueles tempos. E corriam para Sailor Jerry, que sempre tinha alguma imagem adequada. Quando a guerra terminou, em 1945, aqueles que não morreram voltaram para casa com o corpo ostentando as criações de Sailor Jerry e assim um culto começou a ser formado.

O estilo inconfundível do artista era formado por uma mistura de motivos náuticos, orientais, havaianos e norte-americanos. Em meio a gueixas, dançarinas de hula e pin-ups, apareciam

caravelas, âncoras, caveiras, dragões, águias e animais diversos. Para aprimorar a arte e se inspirar, ele se correspondia com tatuadores japoneses, que eram chamados hori. Logo estavam trocando ideias sobre técnicas, desenhos e cores. Jerry começou a ser chamado de Hori Smoku.

Saylor Jerry gostava de fazer tudo do jeito dele. Era considerado um homem conservador. Teimoso e ranzinza, não gostava de hippies, liberais ou sujeitos folgados. Mas também detestava a interferência do governo em seus negócios. No começo da década de 1950, ele teve problemas com o imposto de renda. Para não ter que pagar uma multa, resolveu fechar a loja de tatuagens. Não voltaria à atividade por mais de uma década. Nesse ínterim, para sustentar a família (Jerry se casou diversas vezes), ele começou a trabalhar nas docas, pilotando embarcações pela região de Pearl Harbor. Vários admiradores apareciam no local de trabalho de Jerry tentando convencê-lo a fazer uma tatuagem.

Mas era em vão. Exausto por conta das ocupações diárias, ele não queria revisitar o antigo ofício. Felizmente, por volta de 1960, Bob Palm, um tatuador californiano que foi morar nas Ilhas, convenceu Jerry a tatuar novamente, argumentando que uma lenda como ele não poderia ficar parada. Juntos abriram um ateliê e logo Jerry estava mais uma vez dominando o local à sua maneira peculiar. Continuava avesso à publicidade – sentia medo principalmente de que tatuadores concorrentes descobrissem as fórmulas que usava para obter as cores e texturas.

O artista tinha outras habilidades e interesses além da tatuagem. Ele era um profundo conhecedor dos mares e do universo naval. Também era músico e costumava tocar saxofone em uma banda de jazz. Nos últimos anos de vida, virou radialista e teve um talk-show chamado Old Ironsides, no qual falava o que lhe dava na telha e recitava as poesias que escrevia. Gostava de inventar máquinas e aperfeiçoou equipamentos de tatuagem.

Além dos mestres japoneses, Jerry também costumava trocar correspondência com outros profissionais dos Estados Unidos. Don “Ed” Hardy e Mike “Rollo” Malone foram os seus discípulos mais conhecidos e anos mais tarde transformaram o nome do tatuador em uma marca lucrativa.

Sailor Jerry ainda se encontrava em atividade quando sofreu um ataque cardíaco em uma loja de motocicletas. Em seus últimos momentos, instruiu a esposa a vender a loja para algumas pessoas escolhidas a dedo. Se nenhuma delas se interessasse, a loja deveria ser demolida. Jerry morreu no dia 12 de junho de 1973, aos 62 anos. Pouco tempo depois, Mike Malone comprou o ponto do mestre e lá ficou tatuando por 25 anos. Marujo até o fim, Sailor Jerry foi enterrado no National Memorial Cemetery of the Pacific, um cemitério militar em Honolulu.