BNegão & Seletores de Frequência
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TransmutAção

BNegão & Seletores de Frequência

Guias / CDs - José Flavio Jr. Publicado em 16/09/2015, às 17h45 - Atualizado em 17/09/2015, às 16h29

Espiritualidade e generosidade. Essas são as duas palavras que imperam no terceiro álbum de BNegão & Seletores de Frequência. A espiritualidade emana dos versos do MC carioca de 42 anos. Ainda está na saudação em iorubá que abre o álbum (“Àgò”), na instrumental “Um Tema para Iemanjá” e nos tambores do percussionista Alexandre Garnizé. BNegão radiografa o momento crítico brasileiro e sente que é hora de contribuir mais com reza do que com revolta.

Não há uma nova “A Verdadeira Dança do Patinho” no repertório. Também não há hardcore em TransmutAção. O que não quer dizer que BNegão perdeu a capacidade de se indignar. Em uma entrevista recente, ele espinafrou a escolha de uma pecuarista para o Ministério da Agricultura, foi impiedoso com o ex-presidente que trouxe a Copa para o Brasil (garantindo que fugirá das Olimpíadas do Rio, apesar de ter cantado no encerramento da edição londrina) e esculachou as privatizações. Mas, no disco, prefere evocar divindades, pedir bênção aos mestres dos bons sons (grava um clássico de Noel Rosa tendo como base a versão de Mário Reis e Francisco Alves) e saudar os “jardineiros da sabedoria e da esperança” – Gandhi, Dalai Lama, o antropólogo Darcy Ribeiro, o cantor dos Tincoãs e pesquisador Mateus Aleluia e até o falecido lateral-esquerdo da seleção Nilton Santos são louvados no dub “Nós (Ponto

de Mutação)”.

A generosidade é marca registrada de BNegão, uma das figuras mais queridas do meio. E em TransmutAção essa característica fica clara. O terceiro disco seria todo instrumental, o que evidenciaria as qualidades dos quatro Seletores de Frequência. Mesmo com a adição das letras, o espaço para a banda brilhar permaneceu. “Surfi n’ Astatke”, do trompetista Pedro Selector, é um dos pontos altos do álbum. Na tentativa de fundir o jazz etíope de Mulatu Astatke com a surf music, a trupe chega a um tema que lembra as trilhas sonoras feitas em Bollywood.

Os Seletores também dominam a releitura de “Fita Amarela”, de Noel. BNegão surge apenas no terço final, com o balanço já senhor da situação. Não

é o único samba do disco: “No Amanhecer” celebra o nascer e o pôr do sol, que amaina a insanidade do nosso viver. Para não dizer que TransmutAção carece de veneno, o funk quase carioca “Giratória (Sua Direção)” conclama: “Grita a sua opinião!” Mas, logo após esse refrão, BNegão pondera: “É, ‘cumpadi’, a coisa tá ficando ruça pra gente. Presta atenção! Abre o olho!” Que sua serenidade nos ilumine, pois precisaremos de muita calma nas próximas horas.

Fonte: Natura Musical

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