Jorge Ben Jor - Salve, Jorge!
ILUSTRAÇÃO: FELLIPE GONZALEZ

Caixa registra o período áureo do genial alquimista sonoro da música popular brasileira

Guias / CDs - Redação Publicado em 08/12/2009, às 16h31 - Atualizado às 16h39

Jorge Ben Jor

Salve, Jorge!

Universal Music

Jorge Ben Jor, apesar de o respeito máximo que merece pelo conjunto da obra e por simplesmente existir, não é artisticamente o reverenciado Jorge Ben. Ben, essa entidade monolítica da música universal, permanece uma pedra preciosa intacta. O mundo, não só o Brasil, devia a Jorge Ben, nascido Jorge Duílio Lima Meneses, um dos grandes sacerdotes de todos os tempos da deusa música, uma revisão da fase áurea de uma carreira genial, original e espontânea. De 1963, com Samba Esquema Novo, a 1976, África Brasil, a caixa reúne os 13 discos lançados no período pela Philips, mais um precioso CD duplo de inéditas e raridades. A trinca inicial é perfeita e traz samba em todos os títulos, reconfigurando o ritmo. Entendê-la é fundamental para entender Jorge. Samba Esquema Novo trouxe um garoto de 21 anos com uma pegada absolutamente pessoal no violão e voz tímida, de assinatura melódica e timbre próprios. Nasciam ali, junto com um novo samba revolucionário, clássicos como “Mas Que Nada!”, “Chove Chuva” e “Por Causa de Você, Menina”. As letras, simples e populares, mas nunca banais e vazias, são desprovidas do requinte Rio Zona Sul ou do intelectualismo baiano. Na sequência, o hoje valorizado Sacundin Ben Samba (1964), com “Anjo Azul”, “Nena Nanã”, “Carnaval Triste” e o primeiro “voxê” explícito. O “r” carregado paulistano em “Descalço no Parque” abre Ben É Samba Bom (1964). Surgem em canções como “Guerreiro do Rei” os primeiros indícios da conexão afro-brasileira, que culminaria em Negro É Lindo (1971), uma aula de violão impuro, e em África Brasil (1976), um dos 50 discos mais “cool” do mundo, segundo a Rolling Stone norte-americana.

Cada um dos discos seguintes apresenta no mínimo três sucessos. Jorge Ben (1969), por exemplo, tem “Cadê Tereza”, “Take It Easy My Brother Charles”, “Descobri Que Sou um Anjo”, “Bebete Vãobora” e “Charles Anjo 45”, uma mais bela, original e inf luente que a outra. Mas a excelência seria atingida novamente em mais três discos irretocáveis, com canções que moldariam o melhor da música brasileira destes anos 00, de Chico Science & Nação Zumbi a Céu. Seriam, numa comparação didática fora da ordem, o Rubber Soul, o Revolver e o Sgt. Pepper’s de Ben. Da capa, inspirada pelos clássicos de jazz da Impulse, ao final do disco com a faixa-título, Força Bruta (1970) é a prova de que menos, às vezes, é mais. Acompanhado do vigor sonoro do Trio Mocotó, estão ali “Oba ‘Lá Vem Ela”, “Apareceu Aparecida”, “O Telefone Tocou Novamente” e “Mulher Brasileira”. O violão de Jorge é espetacular, um mistério difícil de ser decifrado. Mas enigmas e misticismo acompanhariam mesmo A Tábua de Esmeralda (1974). Regido pelos princípios da alquimia, todas as canções da obra máxima de Ben transformaram-se em ouro e nasceram para a vida eterna. “Zumbi”, a de temática mais afro, evocaÁfrica Brasil, gravado depois de Solta o Pavão (1975) e Gil & Jorge (1975), um dos maiores encontros musicais de todos os tempos. A guitarra toma o lugar do violão. Funk, soul e algo disco formam um sincretismo musical inédito, e aquele samba torto nascido nos anos 60 é agora música negra brasileira. África Brasil abre com o pé na porta: “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”. “Meus Filhos, Meu Tesouro” e “A História de Jorge” poderiam ter embalado noites no Studio 54, antecipando que os ritmos africanos são pop.

A joia da coroa do rei é o CD duplo, com demos inéditas posteriormente regravadas em estúdio e raridades lançadas em compactos. É aqui que os iniciados na alquimia jorgebeniana vão chorar. Entre as faixas, versão mais no gás de “Mas Que Nada”, takes alternativos de “Dorothy” e “Jesualda”, as inéditas e belas “Silvia Lenheira”, “A Lua É Minha”, “Salve América” e “Camisa 12”. Esteticamente, Jorge, o grande, merecia uma caixa mais bem cuidada, como a de Gil ou a de Erasmo. Mas ela é um privilégio para os ouvidos cientes de que Jorge Ben (tá bem, Ben Jor) é um artista único. Afinal, quem mais cantaria “Eu preciso salvar os velhos / Eu preciso salvar as flores / Eu preciso salvar as criancinhas e os cachorros” sem soar besta? Tem que dançar, dançando.

RICARDO FRANCA CRUZ

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