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Cavalo

Rodrigo Amarante

Guias / CDs - Pedro Antunes Publicado em 14/10/2013, às 15h06 - Atualizado às 15h43

Depois do exílio, músico retorna com o retrato musical mais íntimo do que qualquer um poderia imaginar

Na solidão, Rodrigo Amarante encarou a figura imaginária que dá nome ao primeiro disco solo dele. “No olho do cavalo / Espelho imaculado / O duplo e eu”, os poucos versos cantados em “Cavalo”, a faixa-título, expõem o animal como algo com a sagrada capacidade de olhar para a alma. Diante dele, Amarante se desnudou como nunca antes, errante e solitário. Tocou e gravou quase todos os instrumentos e retornou com um trabalho que não é possível rotular por gêneros, mas, sim, pelos sentimentos do músico neste tempo de transição artística e pessoal. As 11 faixas de Cavalo são compostas pela ausência – de sons, amores e de um lugar no mundo. Em Los Angeles, nos Estados Unidos, Amarante era um estrangeiro em uma terra distante. Lá, era apenas mais um. Só, enfim.

Cavalo é um álbum nu como Amarante se propôs estar. Na capa, há apenas as letras e a ficha técnica. Em uma carta divulgada em redes sociais, ele justifica a ausência – da capa e dele, de certa forma. Encarar o disco sem cabrestos preconcebidos é uma experiência de proximidade confessional com eu-lírico diferente para cada um de nós. Até as participações de Fabrizio Moretti (Strokes e Little Joy), de Rodrigo Barba (Los Hermanos), da atriz Kristen Wiig e de Devendra Banhart são desprovidas de características próprias. É apenas Amarante que está ali, sussurrando lamurioso em português, inglês e francês, como se gravasse no canto de uma sala qualquer.

“Nada em vão / no espaço entre eu e você.” Os dois primeiros versos de “Nada em Vão”, que abre o álbum, ecoam pelos 37 minutos restantes. O conceito de encarar a si mesmo já aparece: “Quando eu vejo você / Me olhando assim / Vendo em mim / O que eu vejo em você”. Mais do que declaração de saudade, é um manifesto do que está por vir. O autoconhecimento se mantém em “Hourglass”, faixa seguinte, em inglês. “Quando você fecha os olhos, costuma olhar pra dentro”, ele diz com os versos envelopados por ecos de um som new wave. A sequência se dá com “Mon Nom”, um manifesto da sua condição, cantado em francês, como estrangeiro sem nome, identidade ou história.

Se “Irene”, quarta faixa, explicita a saudade e a ausência (“Saudade eu te matei de fome / E tarde eu te enterrei com mágoa”), acompanhadas por violão, há o primeiro diálogo com o Brasil, no avesso da figura de “Irene”, de Caetano Veloso: enquanto o baiano exibia a falsa alegria da irmã, no embarque dele ao exílio forçado, Amarante traduz a ausência sofrida causada pelo afastamento voluntário. A ensolarada “Maná”, uma canção de superação, destoa do discurso de Cavalo, cuja essência é o inverso disso. O disco remói a distância e encontra a poesia nas tortuosas vias da vida, mesmo diante de desencontros às vezes definitivos, como “O Cometa”, uma “hermânica” homenagem ao professor e poeta Ericson Pires, morto em 2012: “O cometa passou / Riscou o tempo / E foi”.

Amarante manifesta o reencontro, de si próprio e do seu caminho, no fim de Cavalo. Em “I’m Ready”, diz: “Quem na rua se perde / Encontra o que pede”. Depois do exílio (voluntário, forçado, não importa), o músico retornou com o retrato de si próprio mais genuíno do que qualquer um poderia supor. “Tardei, tardei, tardei / Que na vinda eu quis / Pela primeira vez / Nunca mais partir / E esperar você / O meu lugar, onde está?”, ele define em “Tardei”. Amarante, o exilado, aos poucos se encontra e divide a solitude com a gente.

Fonte: Som Livre/Slap

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