Hurtmold
Hurtmold

Entre harmonia e caos

Guias / CDs - Redação Publicado em 07/11/2007, às 14h59 - Atualizado em 08/11/2007, às 16h14

Sexteto paulistano constrói ponte entre extremos

Antes mesmo de abrir a porta de entrada para o novo CD do Hurtmold, o ouvinte percebe que está diante de uma construção sonora diferente, que pede uma percepção nova. Percussão e guitarra surgem do silêncio, num crescendo inquietante, e instalam um clima de suspense. Uma massa ruidosa começa a se sobrepor, como um borrão de tinta, e encobre a trama dos instrumentos. No momento em que a audição ameaça ficar perturbadora a tensão se esvai e dá lugar a uma levada quase dançante, conciliadora. É fácil colocar o som do sexteto paulistano no rol dos experimentalismos pós-rock, da turma de Chicago (Tortoise, Eternals). Mas o Hurtmold tem mais a oferecer. Pode remeter tanto às aventuras lúdicas de Hermeto Paschoal, quanto às progressões intrincadas do King Crimson, sem perder o balanço jamais, traduzido na africanidade das batidas. Tal como no Sonic Youth e nas bandas afins, ou nos labirintos do free jazz, a dinâmica alterna tempestade e bonança, barulho e melodia. O Hurtmold experimenta sem amarras conceituais, com liberdade próxima da jam session, e um prazer genuíno de tocar e descobrir novas formas e texturas. No fundo, o que o grupo vem fazendo ao longo de quatro discos, shows memoráveis e surpreendentes incursões solo de seus integrantes (notadamente os multiinstrumentistas

M Takara e Guilherme Granado) é um comentário sonoro dos nossos tempos, em que o caos e a harmonia podem conviver num mesmo espaço, num mesmo instante. Os diversos ruídos da faixa "Sapers" funcionam como

pintura abstrata do estado das coisas, assim como o sincretismo musical

de "Sabo", que inclui até palmas de terreiro, reflete em notas e acordes a globalização. E é isso o melhor do Hurtmold: a capacidade de surpreender, subvertendo clichês e expectativas, numa toada de humor bipolar. A música do grupo, de tão autêntica e intensa, nem precisa das tradicionais maquiagens de estúdio - ela surge nua e crua, tendo como único enfeite a originalidade. É tecnologia "pouca", mas o barato é louco.

Por Daniel Benevides

Hurtmold

Hurtmold

Independente

12

10

2007

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