Estratosférica

Estratosférica

Gal Costa

Guias / CDs - Mauro Ferreira Publicado em 16/06/2015, às 17h04 - Atualizado em 04/08/2015, às 18h06

A estratosférica, 33º álbum da discografia solo de Gal Costa, dá continuidade ao movimento de renovação iniciado em Recanto (2011), articulado por Caetano Veloso. Além de ampliar as conexões da cantora com a cena pop contemporânea, Estratosférica sintetiza elementos presentes nos 50 anos de carreira de Gal. O personagem-chave do álbum é o diretor artístico Marcus Preto, responsável pela ponte que liga a artista a nomes como Céu, Criolo, Lira e Mallu Magalhães, compositores de algumas das 14 músicas do álbum editado nos formatos de vinil (com 12 faixas) e CD. Embora tenha sido formatado por Kassin com Moreno Veloso, mesmo produtor de Recanto, Estratosférica evita os radicalismos eletrônicos do antecessor. Com sonoridade moderna, o disco abre janela para o pop, pela qual entra o acalanto tribalista “Amor, Se Acalme”, composição de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes.

O álbum reitera a pluralidade do canto de Gal ao longo destes 50 anos. O rock “Sem Medo nem Esperança”, de Arthur Nogueira e Antonio Cicero, evoca a Gal roqueira do desbunde tropicalista. “Ecstasy”, por ter João Donato na coautoria e no teclado Rhodes, soa como atualização do suingue de Cantar, álbum de 1974. Ostentando metais orquestrados por Lincoln Olivetti, no último arranjo criado pelo maestro, morto em janeiro, a faixa-título refaz a festa do interior com regionalismo pop que remete aos hits da fase de Gal Tropical (1979). Contudo, embora tenha elementos referenciais na trajetória fonográfica da cantora, este disco aponta para o Futuro sem clonar ou reciclar fórmulas e sons de outros trabalhos da cantora.

Acima de modas e conceitos, paira a inspiração de um repertório à altura de Gal. “Jabitacá” (Junio Barreto, Lira e Bactéria) remove montanhas psicodélicas para declarar amor. Balada cortada por interrupções intencionais, “Anuviar” (Moreno Veloso e Domenico Lancellotti) adensa o clima em arranjo de progressiva intensidade. “Espelho d’Água” (Marcelo Camelo e Thiago Camelo), já apresentada ao vivo, celebra um amor em paz. “Por Baixo”, deliciosa música em que Tom Zé refina sua verve, reconecta Gal ao compositor baiano, ovelha desgarrada do rebanho tropicalista. Já “Dez Anjos” traz a tensão das quebradas mapeadas pelorapper Criolo, parceiro de Milton Nascimento no tema. Por fim, “Você Me Deu” marca a primeira colaboração de Caetano Veloso com o filho Zeca, autor da melodia que sedimenta o olhar contemporâneo de Estratosférica. A três meses de fazer 70 anos, em setembro, Gal soa jovial em álbum que honra sua voz ainda cristalina.

Fonte: Sony Music

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