Melhor do Que Parece

Melhor do Que Parece

O Terno

Guias / CDs - LUCAS BRÊDA Publicado em 20/09/2016, às 15h14 - Atualizado em 27/09/2016, às 19h33

Desde o debute, 66 (2012), o berço musical d’O Terno não é segredo. O trio paulistano deu as caras emulando facetas psicodélicas do rock dos anos 1960 e 1970, soando como Mutantes e The Kinks e acenando à Vanguarda Paulista. O álbum de estreia foi tão fiel às influências que acabou preso ao próprio discurso. “Hoje, faz sucesso quem faz plágio diferente”, cantou Tim Bernardes na faixa-título, agonizando sobre a limitação criativa e incorporando a falta de originalidade de uma geração saturada de referências do passado. A “redenção” veio no trabalho seguinte, O Terno (2014), no qual eles agregaram teclados e backing vocals e, principalmente, perderam a vergonha. Narrativas triviais deram espaço a reflexões sobre a cidade grande e a juventude contemporânea; em “Vanguarda?”, Bernardes desistiu da busca pelo tal “som revolucionário”, provocando: “Vanguarda pra quê?”

Depois de exaustivas turnês divulgando os dois primeiros álbuns, o trio agora usa o estúdio para explorar elementos inéditos e talhar os detalhes da criação em Melhor do Que Parece. Logo na segunda faixa, “Nó”, os agudos cintilantes de Bernardes surgem entre harpas e cordas, mas acabam entre órgãos e vocais simultâneos que soam tanto como Alabama Shakes quanto como alguma balada do antigo quarteto vocal Mills Brothers. O Terno certifica a apuração harmônica com as vozes de “Depois Que a Dor Passar”, os sopros de “Deixa Fugir” e a orquestração de “Volta”, mas também evoca a espiritualidade do soul e do R&B, com pianos descendentes de Allen Toussaint e baixos tão profundos que poderiam dar ao disco um selo sonoro da Motown. A guitarra áspera e abafada assume o protagonismo em “Lua Cheia”, que antecede “O Orgulho e o Perdão”, uma marchinha lisérgica e embriagada.

Os vocais, banhados a eco, por sua vez, vêm com versos ainda mais confessionais. Bernardes busca paz em uma idílica “Minas Gerais”, assume o autojulgamento exagerado em “Culpa” e expõe o coração partido em “A História Mais Velha do Mundo”. A banda chega ao terceiro álbum fomentando ainda mais a própria identidade, deixando os Mutantes no retrovisor e assumindo de vez o discurso de três paulistanos inquietos que ainda não chegaram aos 30 anos. Exemplo maior, a faixa-título encerra o disco homônimo como um hino sobre o sentimento crônico de insatisfação, catalisando toda a frustração de alguém que não está feliz mesmo quando tudo à sua volta sugere o contrário: “Será que o chato aqui sou eu?”

Fonte: Natura Musical

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