Ilustração: Viti

MV Bill

Guias / CDs - Redação Publicado em 10/06/2010, às 06h39 - Atualizado às 06h39

MV Bill

Causa e Efeito

Chapa Preta

Rapper carioca coloca em prática, à sua maneira, a revolução anunciada pelo hip-hop

Há quem ainda guarde a imagem de MV Bill no extinto Free Jazz Festival (1999), se apresentando como o “Mensageiro da Verdade”, com uma arma na cintura. O MC carioca deixou de lado as atitudes de impacto e iniciou sua revolução por meio da música e da cultura. De seu primeiro trabalho lançado até hoje, Bill teve inúmeras caras: já foi taxado como bad boy, associado ao Comando Vermelho, diretor de documentário e videoclipe, repórter e garoto-propaganda, mas nunca deixou de ser um dos MCs mais respeitados (e conhecidos) do país, junto de Mano Brown, Thaíde ou Rappin’ Hood. Intercalando o discurso politizado com idéias mais corriqueiras e pendendo às vezes para temas românticos ou festivos, Bill foi um dos poucos de sua “espécie” a manter a coerência em relação a suas ideias. Além disso, venceu o bairrismo do gênero, obtendo respeito e admiração por todo o país. Alex Pereira Barbosa, o MV Bill, iniciou a carreira por volta de 1998, com o CD CDD Mandando Fechado. Desde o primeiro trabalho, Bill lançou mais quatro álbuns, Traficando Informação (1999), Declaração de Guerra (2002), Falcão – o Bagulho é Doido (2006) e, agora, Causa e Efeito. Mas não foi só de música que Bill viveu durante esse tempo. Também lançou três livros junto de seu parceiro de escrita e de fundação da CUFA (Central Única das Favelas), Celso Athayde: Cabeça de Porco (2005), Falcão – Meninos do Tráfico (2006) – que originalmente era apenas um documentário – e, o mais recente, Falcão – Mulheres e o Tráfico (2007). Os livros foram bem recebidos tanto pelo público quanto pela crítica, mas o que trouxe notoriedade para Bill foi o documentário Falcão – Meninos do Tráfico, de 2007, exibido na íntegra na TV aberta, em horário nobre de domingo, no programa de maior audiência do dia. Ponto para Bill, que, ao contrário do que Gill-Scott Heron profetizou, conseguiu televisionar trechos da revolução – ou ao menos a realidade menos distorcida e sensacionalista. Em seu trabalho mais recente, o rapero, como prefere ser chamado, apresenta seu álbum mais “suave”, quase como se tivesse trabalhado sem pressão alguma. Sempre enaltecendo sua origem africana e intercalando ideias nas entrelinhas com provocações diretas, decretando que o rap é o “partido da cara feia” e que “o discurso envelheceu”, Bill passeia pelo acúmulo de experiência e musicalidade que adquiriu nestes anos de carreira. Isso já tinha antecipado em seu primeiro DVD, Despacho Urbano, lançado em 2009, que apresentou o MC junto de uma banda que ia do rock ao funk setentista. Em Causa e Efeito, Bill apresenta sua irmã, Kmila CDD, que aparece como sua parceira de rima em várias músicas. Em uma faixa solo, que leva seu nome, a MC se apresenta ao público. O maior destaque do novo trabalho é a participação do lendário MC do grupo Public Enemy, Chuck D. O encontro ainda traz outra presença ilustre, o DJ dos Racionai s, KL Jay, que produziu a faixa intitulada “Transformação”, uma das melhores do álbum e que tem tudo para marcar a carreira do rapper carioca. MV Bill e Chuck D se conheceram em uma viagem em que o brasileiro foi convidado para ir a Washington DC, em uma espécie de intercâmbio de experiências culturais. Outra faixa bem interessante é “Cidadão Refém”, que manda um papo reto sobre os rumos da sociedade, a violência na periferia e o despreparo policial. “Amor Bandido”, com participação de Silveira, também deve fazer algum barulho. Causa e Efeito é o trabalho mais balanceado em conteúdo e musicalidade, marcando mais um bom momento para o polivalente MV Bill.

Eduardo Ribas

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