ILUSTRAÇÃO: DIMAS FORCHETTI

Pouca Vogal

Guias / CDs - Redação Publicado em 04/02/2010, às 13h47 - Atualizado às 13h48

Pouca Vogal

Ao Vivo em Porto Alegre

Som Livre

Humberto Gessinger e Duca Leindecker encaram o desafio de dar uma oxigenada no pop gaúcho

Por mais que os protagonistas desta empreitada sejam veteranos no cenário musical, o resultado remete à novíssima geração Y, para a qual tudo chegou pronto e a internet é sempre o ponto de partida: o Pouca Vogal já nasceu com site e músicas para baixar de graça, público formado, primeiro disco ao vivo, DVD na prateleira, temporada de shows. Econômico nas palavras, Duca Leindecker é a metade mais discreta do projeto. Verborrágico, Humberto Gessinger tem despejado com vontade vogais e consoantes no cenário pop musical desde os anos 80. Juntos (e somando 19 consoantes e 12 vogais de seus nomes de origem alemã), o guitarrista do Cidadão Quem, grupo pop bastante conhecido no Rio Grande do Sul e com alguns lampejos nacionais (música em novela, show no Rock in Rio 3), e o líder do Engenheiros do Hawaii, o comercialmente mais bem-sucedido combo do rock sulista, amado e odiado em grandes proporções país afora, embarcaram numa viagem para dentro (do estado onde moram, que tem a capital Porto Alegre como ponto concêntrico, e de seus estados emocionais). Fizeram um álbum com tamanha carga pessoal que leva a uma reflexão sobre o espaço que ocupa na atual indústria fonográfica, onde quase tudo cabe desde que seja honesto e quase nada pode ser analisado tendo por base os velhos paradigmas – mais ainda quando se trata de um projeto paralelo, e por mais que o disco de estreia inclua a frase “de onde menos se espera / dali mesmo é que não vem”, na letra de “Além da Máscara”. Musicalmente, Pouca Vogal – Ao Vivo em Porto Alegre é um disco com vocação folk, movido a voz e violão acrescidos de instrumentos diversos, como um teclado tocado com os pés, violas caipiras, harmônica, piano, guitarra, pandeiro, além do reforço da orquestra de cordas POA Pops e do baixista Luciano Leindecker; tem arranjos cuidadosos, forte carga de melodias assobiáveis, dezenas de frases de efeito; tem vocais deficientes – Leindecker e Gessinger cantam em dueto e se revezam nas faixas; tem oito músicas inéditas e releituras de hits de Cidadão Quem e Engenheiros do Hawaii – se isso põe em cheque o apregoado caráter de despretensão mercadológica, reforça a capacidade de criar paradoxos que transformou Gessinger em um genial herói-bandido da música pop brasileira. Contextualmente, o projeto reúne dois amigos músicos que sempre trataram com eficiência as trivialidades do homem comum, mais com poesia (o lado mais Leindecker) ou mais com fina ironia (o lado mais Gessinger), e agora praticam juntos sua vocação para pintar o retrato sonoro deste cidadão, mais particularmente o que vive no extremo sul do país. Exemplos práticos são a faixa “Pouca Vogal”, na qual Gessinger descreve o que observou quando voltou a morar em Porto Alegre, depois de anos no Rio de Janeiro, e junta frases como “polka tri-legal, samba sem know-how, swing esquisito, chame de schmier a geleia geral” e “Pinhal”, um sucesso do Cidadão Quem relido pela dupla, que rende tributo devocional a uma praia gaúcha, o pior dos mundos em se tratando de litoral brasileiro, com seu mar de cor marrom e um vento intermitente, mas também o único imaginário de sol-e-mar-e sonho-tropical ao alcance de milhares de veranistas locais. O caráter uncool que Gessinger imprime com fervor em sua eterna cruzada anti-hype se mostra como uma verdade absoluta no Pouca Vogal. O próprio nome e as palmas que enfeiam as faixas ajudam nesse processo, mesmo que elas sejam inevitáveis em se tratando de um disco ao vivo – com generosas 20 faixas, um presente para os fãs. Assim, por mais que o ponto de convergência musical desta união acabe soando mais como um Cidadão Quem mais roqueiro e um Engenheiros do Hawaii menos ácido do que propondo algum novo caminho estético, a parceria tem seu lado desafiador quando ignora algumas das velhas amarras da indústria e suas necessidades de inovação, apuro estético, padrões de beleza etc. Se há uma hora apropriada para se criar um projeto que, antes de tudo, renda prazer e empolgação pessoal, é agora, que todas as funções do que se chamava indústria fonográfica estão sendo reavaliadas – inclusive a da crítica musical. O resto é uma nota de rodapé dada pelo editor. Eu mesmo estou curioso para saber qual é.

Marcelo Ferla

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