Emicida
Ilustração: Alexandre Santos

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Emicida

Guias / CDs - Luciana Rabassalo Publicado em 11/08/2015, às 17h16 - Atualizado em 13/08/2015, às 16h42

No mês de março, Emicida embarcou em uma aventura africana para desbravar as quebradas de Angola e Cabo Verde. O intuito era fazer o caminho contrário ao percorrido pelos escravos trazidos à força ao Brasil Colônia. O resultado pode ser ouvido nas 14 faixas de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, segundo disco de estúdio do rapper paulistano, que tem produção de Xuxa Levy. Durante a presença na África, Emicida colheu experiências sonoras que transformou em faixas como “Mufete”, gravada no estúdio angolano Letras e Sons. Os versos citam Rangel, Viana, Golfo e Cazenga, locais por onde passou, e a melodia é ritmada pelo baixo marcante de Mayó Bass. Em “Casa”, Emicida tenta fazer com que os negros tirados à revelia da terra na qual nasceram se sintam à vontade consigo – seja no Jardim Fontalis, bairro da zona norte de São Paulo onde cresceu, seja em Kilamba Kiaxi, periferia de Luanda. Um coro infantil formado pelos alunos da escola Penta Grana contrasta com os beats mais pesados do disco.

O triste interlúdio “Sodade”, no qual a líder das Batucadeiras do Terreiro dos Órgãos, Neusa Semedo, lamenta a saudade de casa em crioulo cabo-verdiano, segunda língua mais falada no país, é floreado pela percussão que reproduz o som da água do mar batendo no casco de um navio. O single “Boa Esperança”, por sua vez, debate o racismo velado e a intolerância religiosa no Brasil através de rimas como “Favela ainda é senzala, jão/ Bomba-relógio prestes a estourar”. Os beats fortes e diretos do produtor Nave casam perfeitamente com o tom desafiador da faixa.

O formato narrado da elogiada parceria com a atriz e poetisa Elisa Lucinda, que permeou O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), disco de estreia de Emicida, se repete em “Trabalhadores do Brasil”, desta vez com texto e voz do pernambucano Marcelino Freire. Ainda há outras duas pontes de ligação com O Glorioso...: Estela, filha de Emicida, é novamente lembrada em “Amora”, enquanto dona Jacira, mãe do rapper, que anteriormente contou os detalhes sobre a morte do marido, agora descreve o nascimento de Leandro Roque de Oliveira na emocionante “Mãe”.

Ainda há espaço para canções que se aproximam do pop, como “Baiana”, uma balada que tem participação de Caetano Veloso,“Madagascar”, que traz um romance embalado pelo céu azul e pelo mar verde do país insular, e “Passarinhos”, parceria com Vanessa da Mata. Emicida segue o caminho apontado no primeiro disco de estúdio em direção a uma sonoridade radiofônica sem abrir mão do tom de protesto e justiça social comum rap.

Fonte: Laboratório Fantasma

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