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Tropix

Céu

Guias / CDs - Bruna Veloso Publicado em 14/04/2016, às 15h26 - Atualizado em 13/05/2016, às 17h34

O som e a voz suaves, porém marcantes que apresentaram Céu ao mundo em 2005 enganaram muitos céticos. A mistura de referências do disco de estreia homônimo poderia indicar uma artista com “sorte de principiante” a mescla era competente, mas como mantêla sem cair na mesmice no decorrer do caminho?

Pois bem: Céu jamais se deixou vitimar por armadilhas sonoras ou pelo julgamento alheio. Esmerada, seguiu o debute com Vagarosa (2009), ligado ao primeiro CD pela arte do bem misturar, mas distante no destaque que deu ao reggae e ao dub. Ela acertou de novo. Em 2012, com Caravana Sereia Bloom, colocou umas guitarras aqui, umas referências ao brega ali... E, mais uma vez, manteve o público de antes, arrebatando outra horda de ouvintes no caminho.

Parece ser essa a vocação da cantora paulista evoluir na música como se evolui na vida, vendo que o passado não volta, mas se mantendo fiel a si mesma. E manter-se fiel não é sinônimo de manter-se igual. Por isso, Céu é membro daquele diminuto clube de artistas surgidos nos anos 2000 que, em quatro discos seguidos, jamais perderam a mão.

Tropix, o mais novo capítulo da jornada, reconfigura a obra da cantora, desta vez sobre sintetizadores e batidas eletrônicas ora rudimentares, ora dançantes. “Perfume do Invisível”, a primeira canção, traz a mesma sensualidade de “Grains de Beauté” (Vagarosa). “Arrastarte-Ei” tem um balanço não escancarado, levado pelo som da baqueta no canto da caixa da bateria.

Céu faz com que seus colaboradores (Pupillo, do Nação Zumbi, na bateria, Lucas Martins, no baixo, e o francês Hervé Salters, do General Elektriks, nos teclados) levem tudo na manha, como ela própria. Tropix é o disco mais eletrônico de Céu, mas nem por isso é somente eletrônico; é um trabalho calcado em bateria, baixo e efeitos, o que não quer dizer que não ouvimos guitarras (de Pedro Sá, especialmente em “Etílica”, com participação de Tulipa Ruiz) ou sons orquestrados (“Camadas”, “Rapsódia Brasilis”). Cada um dá um pouco de si, sem afetação, transformando o álbum em uma trilha cheia de pequenos detalhes a serem descobertos audição após audição.

Dois singelos tesouros: “Sangria”, parceria poética de Céu com Lira, e a salsa nordestina de “Minhas Bics”. Representando o lado mais pop da cantora, está “A Nave Vai”, composição de Jorge Du Peixe (Nação Zumbi).

Céu não se reinventa de um jeito forçado, apenas para não ficar igual ao que era antes: assim como não se termina uma viagem do mesmo jeito que se começa, dificilmente um artista permanece o mesmo, do ponto de vista humano, entre um disco e outro. A diferença entre Céu e os demais? Ela sabe traduzir isso em sons.

Fonte: Slap

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