Evol capta essência underground do Sonic Youth em disco desconstruído e explosivo [REVIEW]

Terceiro álbum de estúdio da banda, Evol, que representa inquietude, intensidade e complexidade de uma carreira repleta de significados, completou 35 anos

Isabela Guiduci Publicado em 28/08/2021, às 10h00

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Capa Evol, Sonic Youth (Foto: Reprodução)

Ambição deve ser uma das melhores palavras para descrever Evol, terceiro disco de estúdio do Sonic Youth, lançado em maio de 1986. Composto por dez faixas, o álbum floresce os elementos mais incríveis da identidade da banda: paisagens sonoras acentuadas, série de camadas musicais, psicodelia e instrumentais experimentais. 

Voltar 35 anos no tempo e reviver memórias de uma banda autêntica e grandiosa como o Sonic Youth é uma experiência tentadora, e arrisco dizer, inesquecível. Evol deixou, deixa e seguirá deixando sua marca no rock alternativo por suas composições criativas e extraordinárias. A obra de arte arrebatadora e deslumbrante dos anos 1980 traz um novo conceito de arte sonora — que, certamente, ecoa na história da música até os dias atuais. 

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Evol (Foto: Reprodução)

Atmosferas aterrorizantes e viagens sonoras inebriantes representam o icônico disco. O título, "Love" de trás para frente, foi inspirado pelo artista Tony Oursler, quem desenvolveu um vídeo em 1984 com o mesmo nome. Nele, Oursler apresenta uma crítica ‘estilo Sonic Youth’ — com desdobramentos psicodélicos e assustadores — sobre a construção do amor. 

Despidos de inseguranças e receios, os integrantes apresentam um projeto desconstruído e explosivo, que resgata o melhor do rock and roll, em composições carregadas de efeitos e estruturas bem-desenvolvidas. Evol é um importante momento na história do Sonic Youth, um disco de transição o qual marca a chegada do baterista Steve Shelley, quem traz uma certa sensibilidade pop ao trabalho.

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Não apenas a chegada de Shelley marca o projeto, mas também é com este álbum que o grupo recupera o formato do rock. A sonoridade, em suas diversas formas, é somada à histeria e aos sussurros sensuais da vocalista Kim Gordon, magicamente encaixados na faixa "Shadow Of A Doubt" — um desempenho vocal estonteante, inclusive. 

Em uma intensidade grandiosa, o terceiro álbum capta a essência underground: totalmente despegados às ideias comerciais e expostos às próprias criatividades. Bem como o Sonic Youth propõe transcender os estereótipos culturais da época e explorar novas formas musicais, o disco de estúdio de 1896 reforça a ideia de fugir dos padrões.

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O álbum traz a inquietude, intensidade, ecos e ruídos de uma carreira repleta de significados e relevâncias para o gênero. Embora menos profundo e desassossegado se comparado aos projetos antecedentes, há um experimentalismo ambicioso em busca de um aumento da expressividade a partir das composições do terceiro disco. 

Evol é possivelmente o mais próximo do rock tradicional neste momento da banda, mesclando o clássico com o moderno, e estabelecendo uma identidade única. As singularidades são encaixadas em um disco excêntrico e potente — referência indiscutível para a história do rock alternativo. 

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Os então integrantes do Sonic YouthThurston Moore (voz e guitarra); Kim Gordon (vocal, baixo, guitarra, piano); Lee Ranaldo (guitarra e voz); Steve Shelley (bateria) — reproduzem as explosões niilistas, mas com estruturas musicais grandemente influenciadas pela psicodelia do disco anterior, Bad Moon Rising (1985). Menos exageradas, as canções contam com linhas de definição mais marcadas. 

As músicas imaginam afinações inesperadas e experimentam momentos de bizarra calma seguidos de uma inconfundível histeria, provocada pelas longas reverberações. É em uma viagem excêntrica e singular que Evol se constitui e chega a um lugar criativo, além de ressoar e transformar quem ouve.

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Para abrir magistralmente esta narrativa musical, "Tom Violence" convida para um apocalipse psíquico potencializado em uma atmosfera tensa e pavorosa, criada a partir das guitarras agitadas. Quer mais convite inebriante que esse? É bizarro e fascinante: uma combinação incrível refletida na discografia do Sonic Youth

Seguimos vagando pelo cosmo sombrio de Evol, composto por paisagens sonoras psicodélicas e arrepiantes. "Shadow Of A Doubt" é sensual e intensa, formada de acordes instrumentais desnorteados e sussurros hipnotizantes de Kim Gordon, quem traz originalidade à segunda canção.  

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Ao brincar com afinações de guitarra, "Starpower" constrói uma particular e cósmica canção romântica, em que Gordon descreve: "Ela sabe como fazer amor comigo. Ela sabe como fazer amor." Os riffs incendeiam a psicodélica música, bem como a lírica expõe o ardor irresistível da paixão.

O rock and roll experimental em sua melhor estrutura aparece em "In the Kingdom #19" e soa como uma evocação de sombras ameaçadoras, encaixadas ao longo de toda composição atmosférica do disco. Gritos, barulhos, ruídos e riffs desconstruídos carregam a profunda canção.

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Exuberante e indecifrável, a quinta música "Green Light" traz mais guitarras em construções frenéticas que reforçam o transbordar sonoro criativo enquanto Thurston Moore declara repetidas vezes: "Vejo uma luz verde." Seria o sinal positivo metafórico de um convite ao universo particular do Sonic Youth?

Se há uma coisa evidente em Evol é que a banda aposta em encantamento e fascínio sádico em diversos momentos. A própria capa do disco, com cores frias e sem linearidade, espelha a proposta. "Death to Our Friends" concentra a mesma ideia de modo espetacular. A faixa instrumental cresce gradualmente em um ritmo acelerado, imposto pela bateria e guitarra, e tamanha energia não esconde a aura taciturna. 

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"Secret Girl" revive a psicodelia para exalar o mistério do desconhecido. A sétima canção é desconfortável e assustadora até dar espaço a uma melodia desesperadora em que, ofegante, Kim Gordon profere um discurso potente: "Atravesse-se. Veja-se. Sinta-se. Grite mais uma vez."

Mais gritos tomam conta do disco para iniciar a também pavorosa "Marylin Moore", que traz, mais uma vez, um cosmo perturbador. A voz sonolenta de Thurston Moore desacelera levemente o frenesi em pontos específicos da canção, só para potencializar mais elementos posteriormente.

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A sensibilidade pop aparece com uma certa frequência em "Madona, Sean, and Me" nos mais de sete minutos de música. Em uma densa viagem instrumental, o Sonic Youth realça que está longe de abandonar as próprias características e particularidades, mesclando o clássico e moderno, o psicodélico e o popular, em uma canção exuberante em toda a sua construção.  

Depois de uma atmosfera mórbida em todo Evol, "Bubblegum" parece satírico ao trazer em suas linhas líricas: "A vida está só começando". O rock and roll categórico toma conta da última faixa do disco, que encerra grandiosamente essa viagem psicodélica, perturbadora, inebriante e fascinante.

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Ao longo da carreira, o Sonic Youth inventou uma forma de expressionismo, quebrando os próprios limites e ideais para alcançar novos espaços criativos — Evolmostra isso em variadas nuances: seja cedendo à sensibilidade pop, revivendo elementos experimentais do rock ou reimaginando a psicodelia convencional. 


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